CORRIDA DE CAVALOS

Turfe: esporte em crise X futuro cheio de esperança

Proprietários e treinadores falam sobre desafios enfrentados no dia a dia do turfe goiano, mas veem futuro com esperança.

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Foto: Leo Iran

Proprietários e treinadores falam sobre desafios enfrentados no dia a dia do turfe goiano, mas veem com esperança futuro a partir da capacidade de gestores recém-eleitos

“Você não pode criar o animal no pasto e de repente fazer dele um cavalo de corrida”, comenta o médico veterinário João Godói, proprietário do haras Delta 29, criador de cavalos e atual diretor administrativo do Hipódromo da Lagoinha. Ele fala a respeito de toda a complexidade que envolve o turfe como esporte. “Cavalo de corrida se treina no hipódromo e em nenhum outro lugar”, explica.

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O proprietário e dirigente compara o turfe com o esporte equestre que, na atualidade, mais atrai público em Goiás: o laço e tambor. “Além da possibilidade de envolver outras raças, como o quarto de milha, o treinamento para esse tipo de prova não é tão rigoroso como o preparo que gira em torno de um cavalo de corrida”, observa.

Esse tipo de exigência, somado à queda de público que se observa desde a última década, fez do turfe um esporte em crise. Entre os personagens responsáveis por esse esporte, talvez nenhum outro expresse mais esse momento difícil que o proprietário. Afinal, é dele a decisão determinante e que faz a atividade turfística se manter.

Nesse aspecto, os números do turfe brasileiro preocupam. Se, na década de 1980 – por muitos considerada a era de ouro do turfe brasileiro -, a média anual de potros nascidos ficava entre 7 mil e 8 mil indivíduos, em 2018 esse número foi de apenas 1,7 mil. “Há muito pouco incentivo para se criar cavalo de corrida”, afirma João Godói.

Premiações baixas e desincentivo a políticas de atração de público, sem renovação de gerações de entusiastas, são as principais causas elencadas pelos proprietários para a crise em boa parte dos hipódromos do país. “O prêmio que é pago não compensa sequer manter o animal”, comenta Maurício Roriz.

Maurício adquiriu seu primeiro cavalo aos 16 anos. “O nome dele era Bom Goiano, do haras Brasil Central”, rememora. De lá para cá, Roriz acaba de completar meio século de envolvimento com o turfe. É com pesar que ele fala sobre se encontrar na situação de ter de transferir seus quatro cavalos para o Hipódromo da Gávea, no Rio de Janeiro, considerado o único no gênero que pode ser apontado como um caso de continuidade bem-sucedida no turfe nacional.

Foi para o Rio de Janeiro que seguiram os animais criados e adquiridos pela maior parte dos proprietários goianos. Maurício explica que, enquanto o custo mensal de se criar um cavalo no Hipódromo da Lagoinha está em R$ 1.500 por animal, seu congênere da Gávea cobra R$ 2.500. Apesar de mais caro, o hipódromo carioca é mais compensador. “Ele paga o melhor prêmio”, observa.

Esperança

Maurício preside o Conselho Deliberativo do Jóquei Clube de Goiás, entidade que administra o Hipódromo da Lagoinha. O dirigente afirma que as perspectivas são animadoras quanto a um resgate de prestígio do centro esportivo. “Como proprietário, eu afirmo que estamos animados. A atual diretoria do Jóquei é formada por pessoas muito capazes e bem intencionadas. Está nos dando outra motivação. Vamos resgatar nossa história, até porque essa história é, ela em si, um atrativo para o público, que está voltando para o turfe. Veja o que aconteceu na primeira corrida oficial deste ano (28 de março). Voltamos a ter casa cheia”, ressalta.

Roriz antecipa que estará ao lado da Presidente do Jóquei Clube de Goiás, Nívea de Paula, no Grande Prêmio Brasil, a ser realizado no Hipódromo da Gávea nos dias 13, 14 e 15 de junho. O proprietário antecipa que um dos páreos dessa disputa – que é a mais prestigiada do turfe brasileiro – vai ser realizado em homenagem ao Jóquei Goiano.

“Nessa oportunidade, a dra Nívea vai entrar em contato com os gestores de hipódromos importantes do país, como os do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul. Vai ser um momento valioso. Vamos trocar experiências, ver o que eles estão fazendo e aplicar esse conhecimento aqui em Goiás. A alavancagem do turfe goiano é questão de tempo”, frisa Roriz.

Brandão e Tigresa turfe
Treinador D. Brandão ao lado da égua PSI Tigresa: dedicação integral e amor aos cavalos

Treinadores são os estrategistas do turfe

Olho clínico, dedicação integral e experiência acumulada. Como tudo o que envolve o esporte turfístico, nada na trajetória de um treinador de cavalos é construído do dia para a noite. É o que afirma Divino Franscisco Brandão, o D. Brandão. Aos 59 anos – 45 deles dedicados à corrida de cavalos -, resume seu dia a dia: “A minha vida é o cavalo. De domingo a domingo”, afirma.

O caminho mais normal para se tornar treinador é se iniciar no turfe como cavalariço. Nada mais natural: é preciso se entregar em tempo quase integral. A causa é o tipo ligação que precisa se desenvolver entre o cavalo e seu tratador: tão refinada que o profissional se torna capaz de identificar modificações sutis de comportamento.

O olho clínico é a arma de maior valia em dois momentos importantes: na hora de se identificar as características do animal, bem como no momento de traçar a estratégia de corrida. “Muito da avaliação que a gente faz do cavalo, se ele vai ser um velocista ou um fundista, vem da filiação”, comenta D. Brandão.

A partir desse conhecimento, é possível treinar o animal e estabelecer para ele estratégias de corrida, de acordo com cada tipo de pista e de condições de páreo. “Você precisa conhecer bem o cavalo para explicar para o jóquei como ele tem que conduzir a montaria, quando acelerar e quando reduzir o ritmo”, explica o treinador. .

É da intensidade da rotina especial de um cavalo de corrida e das sutilezas de cada animal que também se origina um amor específico: o de quem faz o turfe pelo Puro Sangue Inglês. “Não é um animal para fins recreativos. Não é para trote. Ele não é tranquilo. Foi feito para correr. É o que ele sabe fazer. O temperamento dele é para isso. E é isso que encanta a gente”, salienta.

D. Brandão também enxerga o futuro do turfe goiano com esperança. “Nós estamos vindo de uma fase muito difícil. Mas essa diretoria que foi eleita tem muita vontade. É só melhorar os prêmios e trazer o público de volta. Se fizer isso, os proprietários voltam. Os proprietários voltando, os cavalos voltam. Eu já tenho ouvido de vários proprietários que vão voltar. Estão dispostos a comprar mais cavalos. Vai acontecer. Nós vamos voltar”, conclui.