FIM DE UMA ERA

Correios da Dinamarca anunciam fim da entrega de cartas

Correios acaba com serviço no país após 400 anos por queda acentuada do uso. Mudança simboliza a digitalização da sociedade da Dinamarca

Agência do PostNord, serviço postal da Dinamarca - Mads Claus Rasmussen - 23.mai.2019/Divulgação
Agência do PostNord, serviço postal da Dinamarca - Mads Claus Rasmussen - 23.mai.2019/Divulgação

(Folhapress) O primeiro trabalho de Andreas Birch, ainda menino, foi colar selos em envelopes. Semana após semana, ele ajudava o pai, veterinário em um vilarejo rural no centro da Dinamarca, a enviar contas pelo correio aos clientes.

A agência dos correios onde o pai deixava sacos cheios de cartas hoje funciona como uma escola. E, como muitos dinamarqueses, Birch, agora com 31 anos, não lambe um selo há anos.

“Honestamente, eu não lembrava quando tinha sido a última vez que mandei uma carta”, disse.

A Dinamarca mantém um serviço postal há mais de 400 anos. Mas a queda abrupta no seu uso levou a principal operadora do país a encerrar por completo a entrega de cartas —mudança que entrou em vigor na terça-feira (30).

Os dinamarqueses já vinham se preparando para isso havia meses: a PostNord, operadora histórica do serviço, começou a retirar as tradicionais caixas de correio vermelhas, por décadas um elemento onipresente do espaço público.

“O desaparecimento das caixas foi o que realmente mexeu com as pessoas”, disse Julia Lahme, pesquisadora de tendências e diretora da agência dinamarquesa de comunicação Lahme. “Mesmo que a maioria delas não tivesse enviado uma carta nos últimos 18 meses.”

Segundo a PostNord, o envio de cartas no país caiu mais de 90% desde 2000. A empresa, controlada conjuntamente pelos governos da Dinamarca e da Suécia, passará a entregar apenas encomendas em território dinamarquês a partir do próximo ano —na Suécia, a distribuição de cartas continuará.

A mudança reflete, em parte, a queda no volume de correspondências governamentais. A Dinamarca está entre os países mais digitalizados do mundo. Apenas 250 mil pessoas —menos de 5% da população— ainda recebem comunicações oficiais em papel.

“As pessoas simplesmente não dependem mais de cartas físicas como antes”, afirmou Andreas Brethvad, diretor de comunicação da PostNord Dinamarca, em comunicado por email. Segundo ele, como nove em cada dez dinamarqueses fazem compras online todos os meses, a decisão “é uma forma de acompanhar os tempos e atender às demandas da sociedade. É uma evolução natural”.

Isso não significa o fim absoluto da correspondência tradicional. Entusiastas do papel e da caneta —além daqueles que optaram por não receber comunicações digitais do governo— ainda poderão enviar e receber cartas por meio da Dao, uma empresa privada.

Embora muitos dinamarqueses lamentem discretamente o desaparecimento de um serviço que, na prática, já usavam pouco, a transição é vista como um retrato da época atual.

A queda da entrega de correspondência física é um fenômeno global, que vem pressionando serviços postais na Alemanha, Grécia, Reino Unido e outros países. Em março, a PostNord anunciou a demissão de 1.500 funcionários na Dinamarca, de um total de 4.600.

Ainda assim, a Dinamarca parece ser o primeiro país em que a operadora postal designada historicamente deixa de entregar cartas. A União Postal Universal, agência da ONU sediada na Suíça, afirmou não ter registros de decisão semelhante.

Birch, hoje assessor de comunicação na cidade dinamarquesa de Odense, diz que o progresso “não está errado”. “Mas precisamos reconhecer o que se perde no caminho.”

Em sua cidade natal, no interior, o carteiro era um “elo humano da comunidade local”. “Ele conhecia o trajeto e conhecia as pessoas”, disse. Para Birch, há algo desconfortável no fato de uma empresa privada assumir a entrega de cartas: “O antigo serviço postal existia como uma responsabilidade pública. Para mim, isso faz diferença”.

Muitos dinamarqueses se abalaram quando a PostNord começou a retirar as caixas vermelhas em junho. Quando mil delas foram colocadas à venda online neste mês, esgotaram-se em menos de três horas, por valores equivalentes a US$ 315 ou US$ 236, dependendo do estado de conservação. A renda será destinada a ajudar crianças em áreas carentes.

Houve uma corrida para adquirir um pedaço da história —movimento semelhante ao de nova-iorquinos que compraram antigos assentos laranja e placas metálicas aposentadas do metrô em uma venda especial realizada no trimestre passado.

“Foi avassalador”, disse Mads Arlien-Soborg, pesquisador de tendências de estilo de vida em Copenhague. “Existe uma nostalgia nisso que é extremamente importante.”

No próximo mês, outras 200 caixas serão leiloadas, muitas decoradas por artistas locais. A PostNord afirmou esperar vendas rápidas, com preços variados.

“Uma era inteira está chegando ao fim”, disse Magnus Restofte, diretor do museu de comunicações Enigma, em Copenhague.

Ainda assim, alguns especialistas observam sinais de que gerações mais jovens voltam a escrever cartas —se não como hábito regular, ao menos como uma forma rebelde de resgatar tecnologias vintage.

“Há cinquenta anos, as pessoas recebiam tantas cartas que elas eram quase banais”, disse Restofte. Hoje, acrescentou, as cartas se tornaram mais preciosas “justamente porque recebemos muito poucas”.