Desaparecimento de piloto eleva temor de nova crise entre EUA e Irã
Militares dos EUA e do Irã disputam localização de tripulante de F-15 abatido, enquanto TV estatal oferece US$ 60 mil por sua captura
(AGÊNCIA O GLOBO) A busca por um tripulante americano desaparecido após a derrubada de um caça dos Estados Unidos no Irã entrou no segundo dia neste sábado em meio a temores de que o militar possa ser capturado e usado como moeda de pressão por Teerã. Enquanto forças americanas conduzem uma operação de resgate considerada altamente arriscada em território inimigo, militares iranianos também atuam para localizar o integrante da tripulação do F-15 abatido. A corrida contra o tempo abre caminho para que o Irã encontre o militar antes, o que pode desencadear uma nova crise diplomática, com risco de um impasse envolvendo reféns.
Em um sinal do interesse em encontrá-lo, a televisão estatal iraniana convocou moradores a capturar o “piloto inimigo” vivo e entregá-lo ao Exército ou à polícia local, oferecendo uma recompensa de US$ 60 mil (cerca de R$ 310 mil).
SAIBA MAIS:
- Conheça bairro de Goiânia construído por prisioneiros de guerra
- Conheça a história de goianos que lutaram na 2ª Guerra Mundial
O temor remete à Crise dos reféns no Irã de 1979, quando 52 americanos foram mantidos em cativeiro por 444 dias, episódio que marcou profundamente as relações entre os dois países. Desde então, o Irã tem sido acusado de usar a detenção de estrangeiros como instrumento de pressão política, seja para negociações diretas ou como ferramenta de propaganda.
Segundo Hamidreza Azizi, especialista em segurança iraniana, há dois cenários possíveis caso o tripulante seja capturado: uma negociação discreta com os EUA ou a exposição pública do militar. Ele avalia que a segunda opção é a mais provável, como forma de projetar força e constranger o governo americano.
— Eles realmente querem transmitir uma imagem de vitória e também humilhar Trump — afirma.
Mesmo sem confirmação de captura, o episódio já evidencia os riscos das operações militares sobre território hostil. Além do F-15 abatido, um avião de ataque A-10 Warthog caiu na região do Golfo Pérsico — e teve o piloto resgatado — e um helicóptero Black Hawk envolvido nas buscas foi atingido por disparos vindos do solo, conseguindo deixar a área em segurança.
Pilotos americanos são treinados para esse tipo de situação em protocolos conhecidos como SERE — sigla em inglês para sobrevivência, evasão, resistência e fuga — que orientam como agir após a queda em território inimigo. A instrução é buscar abrigo, evitar contato com forças inimigas e tentar transmitir a localização às equipes de resgate, procedimentos que, no cenário atual, ocorrem sob o risco de que forças iranianas cheguem primeiro.
A operação de resgate em curso é considerada uma das mais complexas do tipo. Segundo informações da BBC, missões desse tipo, conhecidas como busca e resgate em combate, são realizadas em ambientes hostis e sob ameaça direta, muitas vezes em profundidade dentro do território inimigo.
LEIA TAMBÉM:
No caso atual, equipes especializadas atuam em uma operação de alta complexidade para localizar o militar. A missão mobiliza helicópteros, aeronaves de apoio e unidades de elite treinadas para atuar em cenários de alto risco.
Especialistas apontam que essas operações podem envolver dezenas de militares altamente treinados, que vasculham áreas extensas, por terra e pelo ar, em busca de sinais de vida. Uma vez localizado o tripulante, a prioridade é prestar atendimento médico imediato, evitar contato com forças inimigas e conduzir a retirada para um ponto seguro.
A dificuldade é ampliada pelo terreno e pela presença simultânea de forças adversárias na mesma região. Além disso, o fator tempo é crucial: quanto mais demora a localização, maior a chance de captura.
Autoridades iranianas têm evitado comentar publicamente o paradeiro do tripulante, mas o tom adotado por figuras do governo tem sido de provocação. O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, ironizou os Estados Unidos nas redes sociais ao sugerir que a ofensiva americana perdeu força e passou a depender da localização de seus próprios pilotos.
VEJA AINDA:
‘Já tem distribuidora aumentando preço’, diz Sindiposto ao falar da crise no Irã | Mais Goiás
O episódio também ocorre sob o pano de fundo das críticas do presidente dos EUA, Donald Trump, à condução americana na histórica crise de reféns de 1979, frequentemente citada por ele como símbolo de fraqueza do país diante do Irã.
Enquanto a busca continua, a possibilidade de o tripulante desaparecer nas mãos iranianas transforma uma operação militar já delicada em um potencial impasse internacional, com impacto que pode ir além do campo de batalha.
(Com New York Times)