Maioria da Ucrânia é contra ceder Donbass para Rússia, diz pesquisa
Levantamento mostra que população apoia plano de paz para congelar as linhas do conflito no território da Ucrânia
(O Globo) Uma pesquisa divulgada nesta sexta-feira mostrou que a maioria da população da Ucrânia é contra a cessão de territórios no leste do país à Rússia, e rejeita qualquer limite ao tamanho das Forças Armadas. Os dois pontos são demandas centrais de Moscou nas negociações sobre um acordo de paz para o conflito iniciado há quase quatro anos, mas cujo desfecho ainda parece incerto a curto prazo.
Segundo os números do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev, 74% dos entrevistados não aceitam ceder o leste do país, na região conhecida como Donbass, aos russos, incluindo áreas ainda controladas por Kiev, assim como limitar a quantidade de tropas em tempos de paz e sem garantias de segurança confiáveis contra novas invasões. Foram entrevistadas mil pessoas entre novembro e dezembro do ano passado.
Os dois pontos estavam presentes em uma versão inicial do plano de paz apresentado pela Casa Branca, e que foi criticado pelos aliados da Ucrânia e por Kiev: na ocasião, o presidente Volodymyr Zelensky afirmou que estava diante de uma escolha difícil, “perder a dignidade ou perder um aliado”. A pesquisa comprova que, para a maioria da população, aceitar os termos do Kremlin seria o equivalente a uma capitulação.
A Rússia ocupa hoje cerca de 20% do território ucraniano, incluindo a Crimeia, anexada unilateralmente em 2014, e áreas das regiões de Donetsk, Luhansk, Zaporíjia e Kherson, que também passaram a ser consideradas pelos russos como parte de seu território. Nenhuma das anexações foi reconhecida pela comunidade internacional, mas o líder russo, Vladimir Putin, exige a validação como uma das condições para baixar as armas. O Kremlin ainda quer um limite de 600 mil homens e mulheres nas Forças Armadas ucranianas, mas Kiev aceitaria um patamar de 800 mil.
Ao mesmo tempo, 69% dos entrevistados apoiam — sem muito entusiasmo, como ressaltou o instituto — o plano alternativo elaborado por Europa e Ucrânia, que prevê garantias de segurança com respaldo ocidental, o congelamento da linha de frente (sem o reconhecimento dos territórios russos) e um caminho para a adesão à União Europeia.
“Talvez não seja óbvio para representantes da mídia estrangeira e especialistas, mas mesmo o congelamento da linha de frente atual significa que milhões de ucranianos serão forçados a viver sob a dura realidade da ocupação, e milhões de deslocados internos e refugiados não terão a oportunidade de retornar para casa”, escreveu o diretor-executivo do instituto, Anton Hrushetsky, em comunicado. “Este já é um compromisso enorme e muito difícil para os ucranianos.”
Hrushetsky destaca que o otimismo presente em declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, e até certo ponto por Zelensky não encontra respaldo popular. Apenas 10% dos entrevistados acreditam que a guerra terminará no início do ano e para 29% o fim será apenas em 2027. Para 33% dos ucranianos ouvidos, a resposta foi “não sei”. 62% dos entrevistados se disseram prontos para enfrentar a guerra “pelo tempo que for necessário”.
“Vemos que a maioria está consistentemente disposta a suportar a guerra pelo tempo que for necessário para uma conclusão aceitável”, declarou Hrushetsky. “Não estamos falando de uma vitória completa e, de fato, a maioria dos ucranianos avalia a situação com sobriedade. Mas a paz não pode ser capitulação, e os ucranianos estão prontos para continuar a resistência.”
Enquanto versões de acordos de paz circulam entre capitais, o conflito prossegue em solo ucraniano. Nesta sexta-feira, Kiev ordenou a retirada de 3 mil crianças e seus responsáveis de 44 localidades próximas à linha de frente em Zaporíjia e Kherson, onde as forças russas avançaram nas últimas semanas. Há uma ordem semelhante para Chernihiv, próximo à fronteira com a Bielorrússia, país aliado de Moscou e usado na invasão.
“No total, 150 mil pessoas foram evacuadas das zonas de linha de frente para regiões mais seguras desde 1º de junho. Entre elas, quase 18 mil crianças e mais de 5 mil pessoas com mobilidade reduzida”, disse o ministro da Reconstrução, Oleksiy Kuleba, no Telegram.