CPI do 8 de janeiro: ex-diretor da PRF diz que ‘nunca usou cargo’ para ajudar Bolsonaro eleitoralmente
Silvinei Vasques é alvo de um inquérito que investiga se houve ação deliberada para prejudicar eleitores de Lula
No primeiro depoimento da CPI do 8 Janeiro, Silvinei Vasques, ex-diretor da Polícia Rodoviária Federal (PRF) disse que o cargo não foi usado para beneficiar o ex-presidente Jair Bolsonaro. Vasques declarou voto em Bolsonaro na véspera do segundo turno e é suspeito de bloquear estradas para favorecer o ex-presidente.
–As fotos que eu tenho com o presidente Bolsonaro é porque ele me permitiu tirar. Utilizei da minha hora de folga, postei na minha hora de folga. O cargo nunca foi usado em benefício meu e muito menos dele (Bolsonaro). Não seria eu que mudaria o resultado da eleição – disse.
Vasques também afirmou que sua intenção ao comparecer ao colegiado é combater ao que chamou de “maior injustiça da História contra PRF”. Ele é suspeito de ter determinados bloqueios em estradas visando prejudicar a locomoção de eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante o segundo turno da disputa presidencial.
O ex-chefe da PRF é réu na Justiça do Rio de Janeiro por ação de improbidade administrativa por suspeita de beneficiar o ex-presidente. Ele, contudo, afirmou que está se defendendo no processo.
– O procurador disse que eu usei as minhas redes sociais pessoais, que usei dentro da minha casa, no meu aparelho celular, no meu horário de folga, como qualquer cidadão — justificou.
Vasques afirmou que não tinha relação íntima com Bolsonaro, mas um ligação profissional. Ele ainda afirmou ter tirado uma foto com o ex-presidente por sentir “orgulho” dele.
– Foi o único que deixou eu bater a foto, nenhum outro presidente autorizou a gente a bater foto. Qual o orgulho para um servidor público, para um policial? Quem é o presidente? É o maior comandante das polícias, qualquer presidente, o atual também é, todos foram. É orgulho para gente levar uma foto com o presidente, a gente se emociona – disse.
Balbúrdia
A sessão desta terça-feira chegou a ser suspensa por alguns minutos após o deputado Eder Mauro (PL-PA), que não faz parte da comissão, interromper a senadora Eliziane por mais de uma vez, quando questionava Vasques sobre um processo interno da PRF que recomendou a sua expulsão. Mauro chegou a gritar por algumas vezes quando Eliziane insistia na pergunta.
A senadora, então, se exaltou e, aos gritos, mandou o deputado “calar a boca”. Em seguida, a sessão foi suspensa por cinco minutos. Arthur Maia disse que não deixaria a comissão virar balbúrdia.
— Respeite a comissão, cale a boca. Não vou me submeter a esse tipo de agressão — disse Eliziane.
Antes de iniciar o depoimento, a comissão aprovou uma nova leva de requerimentos, incluindo a covocação do general Marco Edson Gonçalves Dias, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), e do ex-diretor-adjunto da Agência Brasília de Inteligência (Abin), Saulo Moura da Cunha, e do coronel Jean Lawand Júnior, que aparece em trocas de mensagens com Mauro Cid, ex-ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro, em uma trama que indica o planejamento de um golpe contra o resultado da eleição presidencial.
Vasques foi chamado à CPI para explicar bloqueios realizados no dia da eleição só cessaram quando o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), intimou Silvinei a parar com a operação nas estradas, sob pena de multa e afastamento do cargo.
Ele chegou com meia hora de antecedência à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPMI) do 8 de janeiro e disse estar preparado para falar por até 15 horas.
— Estou muito preparado, com a verdade. Vou responder a todas perguntas. Estamos prontos para falar de 10 a 15 horas de informação — disse Vasques ao GLOBO.
A base governista quer usar o depoimento de hoje para apontar relação não apenas de Vasques com o caso, mas também do ex-presidente Jair Bolsonaro e do ex-ministro da Justiça Anderson Torres.
A própria relatora da CPI, senadora Eliziane Gama, é autora de um requerimento para convocá-lo. A parlamentar, em seu plano de trabalho, apontou a necessidade traçar um roteiro cronológico para entender os ataques aos prédios dos Três Poderes que aconteceram no dia 8 de janeiro.
Para isso, a relatora citou haver necessidade de que a comissão se debruce sobre episódios anteriores aos ataques, mas que compartilham o teor golpista de não aceitação da eleição. Os bloqueios nas rodovias fazem parte desse roteiro e é apontado como o marco zero na linha de investigação da senadora.