ELEIÇÕES

Haddad tenta atrair vice ligado ao agro e ouve negativas

Ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad já teve negativa de pelo menos dois nomes de pecuaristas paulistas para a chapa

Haddad, pré-candidato a governador de São Paulo (Foto: Agência Brasil)
Haddad, pré-candidato a governador de São Paulo (Foto: Agência Brasil)

(O Globo) Mesmo com o empenho do ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad, em buscar um vice ligado ao agronegócio na corrida eleitoral ao governo de São Paulo, o candidato do PT enfrenta resistência forte do setor, que apoia majoritariamente o atual governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). A negativa de Teresa Vendramini, a “Teca”, pecuarista, filiada ao PDT e ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), uma das entidades que representa o setor, não foi a única.

Haddad tenta atrair vice ligado ao agro e ouve negativas (Foto: Instagram)
Teresa Vendramini (Foto: Instagram)

A assessoria de Haddad sondou também o nome do economista Tirso Meirelles, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), que preferiu ficar de fora de uma disputa eleitoral já que não se considera um político.

Nome forte na regiões de Franca e Ribeirão Preto, de onde vem sua família de pecuaristas, Tirso é também administrador de empresas, foi secretário municipal em Sertãozinho e ex-presidente do Sebrae-SP. Na presidência da Faesp desde 2023, ele vem trabalhando para fortalecer os pequenos e médios produtores rurais, que representam a maioria das propriedades paulistas.

Juros altos e LCAs taxadas

No interior paulista, o nome de Haddad não tem a preferência dos produtores rurais, dizem representantes do setor. Um interlocutor dos agricultores e pecuaristas, afirma que recai sobre Haddad, e o governo do PT, a responsabilidade por tantos pedidos de recuperação judicial no agro diante de uma taxa Selic muito elevada — atualmente em 14,75%, com queda de 0,25% na última reunião do Banco Central, mas que estava em 15% desde junho de 2025.

Os pedidos de recuperação judicial no agro brasileiro atingiram recorde histórico no ano passado, com 1.990 solicitações, uma alta de 56,4% em relação a 2024, segundo a Serasa Experian. A leitura do agro é que, com os gastos do governo aumentando, o Banco Central não pode baixar os juros porque há pressão inflacionária. E assim, a situação fiscal do país se deteriora, sem que haja sinalização de corte de despesas pelo governo.

O agro também coloca na conta de Haddad a taxação das Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) títulos cujos recursos são destinados a empréstimos a produtores rurais para a compra de maquinário e insumos. Para aumentar a arrecadação do governo, ficou estabelecido que papéis desse tipo emitidos a partir de janeiro de 2026, terão os rendimentos tributados em 5% com Imposto de Renda (IR). Esses títulos eram isentos de taxação.

Para além da questão fiscal, os fazendeiros também criticam o PT pelo apoio a grupos organizados de sem-terra, que frequentemente promovem invasões de propriedades rurais no interior de São Paulo e em outros estados do país.

Outra fonte ligada ao setor rural lembra que a relação do atual governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), com prefeitos do interior do estado está abalada por represamento de recursos, dificuldades de interlocução política e falta de atenção às demandas municipais. Mas isso não significa que eles farão campanha por Haddad, tentando convencer os produtores de suas regiões a votar contra Tarcísio.

Tirso Meirelles (Foto: Instagram)

Se o principal nome da chapa de esquerda ao governo paulista fosse o do ex-governador Geraldo Alckmin (PSB), entretanto, a “coisa poderia ficar feia para Tarcísio”, diz a fonte. Alckmin esteve à frente do governo de São Paulo por treze anos e implementou diversas ações voltadas ao fortalecimento do agronegócio e ao apoio aos produtores rurais paulistas. As principais iniciativas focaram em crédito, infraestrutura rural e fomento à agricultura familiar. Por isso, o nome do ex-governador ainda tem “recall” positivo no setor.

Com um histórico de baixo desempenho de políticos da esquerda nas eleições paulistas, principalmente no interior, Haddad busca compor uma chapa mais de centro, acenando para o agronegócio e para o empresariado para contornar essa resistência.

Nessa estratégia, aliados avaliam que a presença de Alckmin na campanha será “fundamental”, e que ele deve ser convocado a percorrer cidades do interior ao lado do ex-ministro da Fazenda em busca de diminuir a rejeição. Na capital, o desafio é considerado menor, já que em 2022 tanto Lula quanto Haddad foram os mais bem votados no segundo turno na cidade de São Paulo.

No mês passado, Teresa se filiou ao PDT e animou petistas, que vislumbraram uma possível composição com Haddad. Nos bastidores, petistas ainda mantêm alguma esperança em atraí-la para a chapa, mesmo após a negativa. Em entrevista ao SBT News nesta quinta (9), Haddad fez acenos ao setor do agronegócio dizendo que “há uma ideia equivocada” sobre o segmento e afirmou que há um grupo “extremamente moderno, com compromisso ambiental e com a saúde pública” do agro. O presidente do PT, Edinho Silva, afirmou também nesta quinta que a composição da chapa ficará a cargo do pré-candidato e não será imposta pelo partido.