DESPEDIDA ANIMADA

Advogado promove roda de samba para festejar o próprio velório

Advogado Tiago Pitthan, de 46 anos, lida com câncer terminal e decidiu que não queria um velório com caixão fechado e silêncio sepulcral

Advogado promove roda de samba para festejar o próprio velório (Foto: Reprodução)
Advogado promove roda de samba para festejar o próprio velório (Foto: Reprodução)

(Folhapress) Uma rua pequena foi fechada neste sábado (30) em Campo Grande para um velório sem caixão, velas ou silêncio. No lugar, pessoas se reuniram entre roda de samba, bandas de rock, cerveja e dança para a despedida organizada pelo advogado e turismólogo Tiago Pitthan, 46, que vive com um câncer sem cura e decidiu participar do próprio velório organizado por ele.

A celebração, inicialmente planejada para cerca de cem convidados, precisou crescer após a repercussão nas redes sociais e entre amigos. O encontro foi pensado para ocorrer em um espaço que já abrigou um bar, mas acabou ocupando toda a rua Dom Lustosa, no bairro Seminário, com estrutura ampliada, praça de alimentação, área kids e equipe de apoio organizada por amigos e voluntários, que estimaram a presença de ao menos 400 pessoas.

O tom de velório aparecia mais no nome do que no ambiente. A programação começou com um duo de bossa nova e MPB, seguido por roda de samba no meio do público, apresentação cultural de maracatu, DJ e shows de rock.

Tiago Pitthan ao lado de amigos (Foto: redes sociais)

Tiago circulava entre os convidados, abraçando amigos, cantando e posando para fotos.

No meio da festa, ele subiu ao palco para um discurso, um dos momentos mais aguardados da celebração. Entre agradecimentos e reflexões sobre o diagnóstico, insistiu em uma ideia repetida ao longo do encontro, de que o velório não era sobre a morte, mas sobre a vida.

“Sou um cara privilegiado, tenho afeto, tenho carinho. E quando eu morrer, quero que vocês entendam que eu venci o câncer. Venço todos os dias quando acordo e decido que hoje vai ser um dia bom”, afirmou no palco.

Segundo ele, a intenção do encontro nunca foi marcar uma despedida resignada, mas criar uma memória compartilhada enquanto ainda podia participar dela. “Não quero que ninguém respeite o câncer. Quero que façam piada, quero que a gente deboche dele”, disse antes da festa.

A família, que inicialmente resistiu à ideia, aderiu ao encontro. Mãe de Tiago, a aposentada Mabel Martins Pitthan, 78, subiu ao palco e disse ter sentido tristeza com a ideia de ir ao velório do próprio filho, mas que o admirava pela felicidade com que levava a vida.

Tiago Pitthan ao lado de amigos (Foto: redes sociais)

“Doeu muito ir ao velório do meu filho”, afirmou. “Mas eu pensei: ‘Vou lá ver o guerreiro que meu filho se transformou’.”

Depois do discurso, ele ainda precisava devolver o palco às três bandas de rock que fechariam a noite. Para evitar que a emoção derrubasse o clima da festa, ensaiou com amigos um flash mob, apresentação coletiva surpresa em que pessoas espalhadas pelo ambiente começam uma coreografia sincronizada. A música escolhida foi “Um Morto Muito Louco”.

“Quero que façam piada, quero que a gente deboche dele”, contou enquanto se arrumava na casa da mãe, usando uma camiseta com a frase “Viva como se fosse morrer” e, logo abaixo, “porque todos nós vamos”.

“Fiquei preocupado em subir no palco, porque eu sou chorão, minha mãe é chorona, minha família toda é emotiva, meus amigos são emotivos também. Como é que eu vou entregar o público assim para a banda? Com a dancinha, o pessoal vai rir, vai se divertir e, quando eu entregar para a banda, já vai estar um clima lá em cima”, disse.

Tiago Pitthan ao lado de amigos (Foto: redes sociais)

O clima voltou ao tom festivo depois da dança em grupo ensaiada, e a noite seguiu com três apresentações de rock comandadas por amigos.

Segundo Tiago, a celebração foi viabilizada por uma rede de solidariedade formada por amigos e apoiadores, que cederam espaço e ajudaram na produção, enquanto bandas, equipe de apoio e outros serviços participaram voluntariamente.

Talvez o único elemento que remetesse a um velório no local fosse a coroa de flores feita pelos amigos, com a faixa “Uma homenagem ao bom sujeito”.

O apelido pelo qual Tiago é conhecido vem do amor pelo samba —referência ao verso “quem não gosta de samba, bom sujeito não é”— e também à forma como costuma reunir amigos, promover encontros e circular entre diferentes grupos.

A mãe de Tiago contou que, desde o agravamento da doença, ele alterna momentos de energia com períodos silenciosos, nos quais pede apenas companhia. “Ele me chama para sentar na poltrona na frente dele, mas não quer conversa. Quer presença”, disse.

O irmão gêmeo de Tiago, Pablo Martins Pitthan, 46, diretor comercial que vive em Portugal, foi uma das razões para a escolha da data da celebração. Segundo o advogado, a ideia era garantir que ele pudesse participar do encontro.