Todo mundo ama o vira-lata na internet, mas poucos querem adotá-lo; entenda por quê
No Dia Nacional do Vira-Lata, entenda por que cães sem raça fazem sucesso na internet, mas adultos, idosos e pretos ainda enfrentam rejeição na adoção.
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Eles são protagonistas de memes, acumulam milhões de visualizações nas redes sociais e até se transformaram em um dos maiores símbolos da cultura brasileira. O cachorro caramelo virou figurinha de internet, estampou campanhas publicitárias, inspirou brinquedos e ganhou o carinho dos brasileiros. Mas, fora das telas, a realidade dos vira-latas continua distante da fama conquistada no ambiente digital.
Neste 31 de julho, quando é celebrado o Dia Nacional do Vira-Lata, a data chama atenção para uma contradição: enquanto os cães sem raça definida (SRD) são exaltados nas redes sociais, milhares continuam vivendo em abrigos ou nas ruas à espera de uma oportunidade de adoção.
O cenário reflete um problema nacional. Segundo o Instituto Pet Brasil, cerca de 30 milhões de cães e gatos vivem em situação de abandono ou sob os cuidados de organizações de proteção animal, sendo a maior parte formada por animais sem raça definida. Ao mesmo tempo, levantamento do PetCenso 2025 aponta que os vira-latas já estão presentes em 26% dos lares brasileiros que possuem cães, demonstrando que eles conquistam cada vez mais espaço nas famílias.
Apesar desse avanço, especialistas afirmam que ainda existe uma forte preferência por cães de raça, principalmente quando a escolha envolve filhotes.
Popularidade digital não significa adoção
Para a zootecnista Milena Parreira, a enorme exposição dos vira-latas nas redes sociais representa uma mudança importante na forma como esses animais são vistos pela sociedade, mas ainda não é suficiente para transformar a realidade dos abrigos.
“O sucesso dos vira-latas nas redes sociais é muito positivo porque ajuda a quebrar preconceitos e aumenta a visibilidade desses animais. No entanto, ainda existe uma diferença entre o carinho demonstrado na internet e a decisão de assumir a responsabilidade por uma adoção. Curtir uma foto é um gesto simples; adotar significa assumir um compromisso que pode durar mais de 15 anos”, afirma a zootecnista Milena Parreira.
Segundo ela, muitas pessoas continuam escolhendo um animal pela aparência ou pelo pedigree, deixando em segundo plano características que realmente influenciam a convivência diária.
“Muitas pessoas ainda procuram cães de raça acreditando que eles terão um comportamento mais previsível. Mas isso é um mito. O temperamento de um animal depende da genética, da socialização, do ambiente em que vive e da forma como é criado. Não é a raça que determina se um cachorro será dócil, companheiro ou obediente”, explica.
Preconceitos ainda dificultam adoções
Nos abrigos, a consequência desse comportamento aparece de forma clara. Filhotes normalmente são adotados rapidamente, enquanto cães adultos, idosos e animais de pelagem preta permanecem durante anos aguardando uma família.
Para Milena, o perfil ideal de adoção deve considerar a rotina da família, e não apenas fatores estéticos.
“Os cães sem raça definida costumam apresentar excelente capacidade de adaptação. Eles convivem muito bem com famílias, crianças e outros animais quando recebem manejo adequado, educação e cuidados básicos. O mais importante é que o tutor escolha um animal compatível com sua rotina e esteja disposto a oferecer qualidade de vida durante toda a existência do pet”, ressalta.
Ela lembra que o preconceito ainda influencia diretamente o destino de milhares de animais.
“Infelizmente, ainda observamos uma preferência por filhotes e por animais de determinadas raças. Enquanto isso, cães adultos, idosos e os de pelagem preta acabam permanecendo muito mais tempo nos abrigos, mesmo estando saudáveis e prontos para adoção”, pontua.
Adoção exige responsabilidade
Mais do que um gesto de solidariedade, adotar um animal significa assumir responsabilidades que acompanham o tutor durante toda a vida do pet.
“A adoção responsável começa antes mesmo de levar o animal para casa. A família precisa avaliar se possui tempo, condições financeiras e disposição para oferecer alimentação de qualidade, vacinação, atendimento veterinário, enriquecimento ambiental e muito afeto. Um cachorro não é um presente de momento, mas um integrante da família”, destaca Milena Parreira.
Especialistas reforçam que o abandono continua sendo um dos principais desafios da causa animal no Brasil e que cada adoção representa uma oportunidade para reduzir a superlotação dos abrigos e abrir espaço para novos resgates.
Muito além do cachorro caramelo
Embora o cachorro caramelo tenha se tornado um fenômeno cultural e um símbolo do Brasil, a principal mensagem do Dia Nacional do Vira-Lata vai além das brincadeiras nas redes sociais. Ela convida à reflexão sobre a importância da adoção responsável e do combate ao abandono.
“O Dia Nacional do Vira-Lata é uma oportunidade para lembrar que o valor de um animal não está na raça, mas na capacidade de construir vínculos com as pessoas. Muitos dos cães mais dóceis, inteligentes e companheiros são justamente aqueles que aguardam uma oportunidade nos abrigos. Cada adoção transforma duas vidas: a do animal que encontra um lar e a da família que ganha um companheiro fiel”, conclui a zootecnista.
A fama conquistada pelos vira-latas na internet mostra que o preconceito contra os cães sem raça definida vem diminuindo. O desafio agora é fazer com que esse carinho ultrapasse as telas dos celulares e se transforme em adoções. Para milhares de animais que ainda vivem em abrigos ou nas ruas, uma curtida pode ajudar a dar visibilidade, mas é a decisão de abrir a porta de casa que realmente muda uma vida.