Terça-feira, 11 de Agosto de 2026
RENDA

Dia do Estudante: ainda vale a pena estudar para ganhar mais em Goiás?

Trabalhador goiano com ensino superior completo recebe mais que o dobro de quem concluiu apenas o ensino médio; economista explica por que escolaridade ainda funciona como investimento em renda

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
Em Goiás, trabalhadores com ensino superior completo recebem, em média, R$ 6.299 por mês, contra R$ 2.603 entre aqueles com ensino médio completo, diferença de 142% que mostra o peso da escolaridade na renda. (Foto: Pexels)

Estudar para conseguir um emprego melhor, aumentar a renda e construir uma vida com maior segurança financeira é uma recomendação que atravessa gerações. Mas, em um mercado no qual novas profissões surgem, atividades digitais ganham espaço e nem todo trabalho exige diploma, a pergunta permanece: estudar ainda vale a pena financeiramente?

Neste 11 de agosto, Dia do Estudante, os indicadores disponíveis apontam que sim. Em Goiás e no Brasil, níveis mais elevados de escolaridade continuam associados a rendimentos maiores e menor risco de desemprego, embora o diploma, isoladamente, não garanta sucesso profissional.

A relação ganha importância em um estado que fechou 2025 com aumento da renda. O rendimento médio mensal da população goiana com alguma fonte de renda chegou a R$ 3.539, alta de 8,9% em relação a 2024 e acima da média brasileira, de R$ 3.367. 

Ensino superior amplia rendimento

Em Goiás, o rendimento médio mensal aumenta conforme avança a escolaridade: passa de R$ 2.603 entre trabalhadores com ensino médio completo para R$ 3.124 entre aqueles com superior incompleto e chega a R$ 6.299 para quem concluiu o ensino superior, diferença de 142% em relação ao ensino médio. (Fonte: Instituto Mauro Borges (IMB), com dados da Pnad Contínua/IBGE)
Em Goiás, o rendimento médio mensal aumenta conforme avança a escolaridade: passa de R$ 2.603 entre trabalhadores com ensino médio completo para R$ 3.124 entre aqueles com superior incompleto e chega a R$ 6.299 para quem concluiu o ensino superior, diferença de 142% em relação ao ensino médio. (Fonte: Instituto Mauro Borges (IMB), com dados da Pnad Contínua/IBGE)

A diferença de renda entre os níveis de escolaridade ajuda a responder à pergunta. Dados do Instituto Mauro Borges (IMB), elaborados a partir da Pnad Contínua, mostram que, no primeiro trimestre de 2025, trabalhadores com ensino superior completo em Goiás recebiam, em média, R$ 6.299 mensais.

Entre aqueles com ensino médio completo, o rendimento médio era de R$ 2.603. São R$ 3.696 de diferença por mês, o que significa que a renda média do primeiro grupo era aproximadamente 142% superior à do segundo.

A distância também aparecia entre quem começou e quem terminou a graduação. Trabalhadores com ensino superior incompleto apresentavam rendimento médio de R$ 3.124, pouco menos da metade dos R$ 6.299 registrados entre aqueles que concluíram esse nível de formação.

Para o contador e economista Marcelo Marques, os números precisam ser compreendidos a partir do conceito de investimento em capital humano.

“Quando analisamos a educação do ponto de vista econômico, estamos falando de investimento em capital humano. A pessoa investe tempo e, muitas vezes, dinheiro no presente em uma qualificação que pode aumentar sua produtividade, ampliar as oportunidades profissionais e elevar sua renda ao longo da vida”, afirma.

Diferença pode superar R$ 44 mil em um ano

Em uma projeção de 12 meses, a diferença de rendimento entre trabalhadores com ensino médio completo e superior completo em Goiás chega a R$ 44.352: R$ 31.236 contra R$ 75.588 ao ano. O cálculo é ilustrativo e considera os rendimentos médios mensais de R$ 2.603 e R$ 6.299, respectivamente. (Fonte: Instituto Mauro Borges (IMB), com dados da Pnad Contínua/IBGE)
Em uma projeção de 12 meses, a diferença de rendimento entre trabalhadores com ensino médio completo e superior completo em Goiás chega a R$ 44.352: R$ 31.236 contra R$ 75.588 ao ano. O cálculo é ilustrativo e considera os rendimentos médios mensais de R$ 2.603 e R$ 6.299, respectivamente. (Fonte: Instituto Mauro Borges (IMB), com dados da Pnad Contínua/IBGE)

O impacto fica mais evidente quando a diferença mensal é projetada para um período maior. Considerando apenas 12 meses, um rendimento mensal de R$ 6.299 corresponderia a R$ 75.588, enquanto R$ 2.603 mensais resultariam em R$ 31.236.

A diferença seria de R$ 44.352 em um ano. A conta é apenas ilustrativa e não considera 13º salário, férias, impostos, períodos sem trabalho ou alterações salariais.

Ao longo de uma carreira de décadas, entretanto, diferenças mensais de rendimento podem produzir efeitos ainda maiores sobre a capacidade de consumo, formação de patrimônio e planejamento financeiro.

“Os dados mostram que a escolaridade continua tendo peso importante na renda. Isso não significa que o diploma, sozinho, garanta um salário maior, mas indica que a qualificação amplia as possibilidades de acesso a ocupações mais bem remuneradas e pode favorecer a mobilidade econômica”, explica Marques.

Brasil tem diferença maior que média internacional

No Brasil, trabalhadores de 25 a 64 anos com ensino superior recebem, em média, 148% a mais que aqueles com formação até o ensino médio. Na média dos países da OCDE, essa diferença é de 54%. Entre brasileiros de 25 a 34 anos, 24% possuem formação superior, ante 49% na média da organização. (Fonte: Education at a Glance 2025/OCDE)
No Brasil, trabalhadores de 25 a 64 anos com ensino superior recebem, em média, 148% a mais que aqueles com formação até o ensino médio. Na média dos países da OCDE, essa diferença é de 54%. Entre brasileiros de 25 a 34 anos, 24% possuem formação superior, ante 49% na média da organização. (Fonte: Education at a Glance 2025/OCDE)

O fenômeno não se limita a Goiás. O relatório Education at a Glance 2025, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), mostra que o Brasil apresenta uma das maiores diferenças de rendimento por escolaridade entre os países analisados.

Brasileiros entre 25 e 64 anos com formação superior recebem, em média, 148% mais que trabalhadores cuja formação chega ao ensino médio. Na média da OCDE, a vantagem associada ao ensino superior é de 54%. 

A organização ressalta que o resultado brasileiro pode indicar retornos financeiros elevados para a educação, mas também evidencia desigualdade na distribuição dos rendimentos conforme a escolaridade. Apenas 24% dos brasileiros entre 25 e 34 anos possuíam formação superior, ante média de 49% entre os países da OCDE. 

Confira os dados completos da OCDE sobre educação e renda no Brasil

O diploma também está relacionado ao desemprego

O benefício econômico associado à educação não aparece somente no salário. A escolaridade também está relacionada às possibilidades de inserção no mercado de trabalho.

No primeiro trimestre de 2026, a taxa de desemprego no Brasil entre pessoas com ensino superior completo ficou em 3,7%. Entre aquelas que iniciaram, mas não concluíram o superior, chegou a 7%. 

Os números são nacionais e, portanto, não representam especificamente a taxa de Goiás. Ainda assim, reforçam a relação entre formação e participação no mercado de trabalho observada em outros indicadores.

Goiás tem renda recorde

O debate sobre o retorno dos estudos acontece em um período de melhora dos indicadores de renda no Estado. Goiás encerrou 2025 com rendimento médio mensal de R$ 3.539 entre pessoas que possuíam alguma fonte de renda, o maior patamar da série histórica iniciada em 2012. 

O resultado representou crescimento de 8,9% sobre 2024. Pela terceira vez consecutiva, o rendimento goiano ficou acima da média brasileira, que terminou 2025 em R$ 3.367. 

A massa mensal de rendimentos chegou a R$ 13,9 bilhões, também recorde. O MAIS GOIÁS mostrou ainda que o rendimento domiciliar per capita do Estado alcançou R$ 2.378, contra R$ 2.264 no Brasil. 

Leia no MAIS GOIÁS: rendimento mensal da população goiana cresce 47,6% e bate recorde

Goiás também registra desemprego baixo

O mercado de trabalho goiano acrescenta outro componente à discussão. Goiás terminou 2025 com taxa média anual de desemprego de 4,6%, uma das menores desde o início da série histórica da Pnad Contínua. 

No Brasil, a média ficou em 5,6%. Goiás integrou o grupo de 19 estados, além do Distrito Federal, que registraram em 2025 a menor média anual de desemprego de suas respectivas séries. 

Leia no MAIS GOIÁS: Goiás está entre os estados que registraram menor desemprego em 2025

Mas qualquer faculdade vale a pena?

A vantagem média do ensino superior não significa que qualquer graduação resulte automaticamente em salário maior. Curso escolhido, demanda profissional, experiência, qualidade da formação, localização e custo necessário para obter o diploma interferem no retorno.

Uma graduação particular com mensalidade de R$ 1 mil durante quatro anos, por exemplo, representa desembolso de R$ 48 mil apenas com mensalidades. A conta não considera reajustes, transporte, alimentação, livros e outros gastos.

“O retorno de uma graduação não deve ser calculado apenas pelo salário recebido imediatamente depois da formatura. É preciso considerar o custo da formação, o tempo investido e, principalmente, a diferença de renda que aquela qualificação pode proporcionar ao longo de 20 ou 30 anos de vida profissional”, afirma Marcelo Marques.

A OCDE chega a conclusão semelhante ao analisar o retorno econômico da educação. Considerados os custos envolvidos, o benefício financeiro médio ao longo da vida de uma formação superior supera US$ 300 mil nos países da organização. 

Escolher o que estudar entra na conta

O nível de formação também não pode ser analisado isoladamente das competências adquiridas. Na média da OCDE, trabalhadores com bacharelado recebem 39% mais que aqueles com ensino médio, enquanto a vantagem chega a 83% entre pessoas com mestrado ou doutorado. 

A própria organização identifica diferenças relacionadas às habilidades dentro do mesmo nível educacional. Entre trabalhadores com ensino superior, aqueles com maior domínio de competências matemáticas apresentam vantagem de rendimento em relação aos que possuem desempenho intermediário. 

“Também não basta escolher qualquer graduação esperando retorno automático. É importante observar a demanda daquela profissão, as perspectivas de remuneração, o custo do curso e as oportunidades existentes no mercado. Educação é investimento, mas, como todo investimento, precisa ser planejada”, diz Marques.

Estudar agora ou começar a trabalhar?

A decisão pode ser mais difícil para famílias de menor renda. Permanecer estudando pode significar adiar uma jornada integral de trabalho justamente em uma fase na qual uma renda adicional faria diferença no orçamento doméstico.

O cálculo econômico, entretanto, precisa considerar não somente aquilo que o estudante deixa de receber durante a formação, mas o potencial de rendimento das décadas seguintes. É o chamado custo de oportunidade.

“Para uma família de renda mais baixa, permanecer estudando pode representar um esforço maior no curto prazo, principalmente quando o jovem poderia estar trabalhando. Por outro lado, quando a qualificação permite acesso a rendimentos mais elevados durante décadas, esse investimento pode produzir um retorno econômico muito superior ao ganho imediato”, afirma Marques.

Então, estudar ainda vale a pena?

O diploma não representa garantia de riqueza, assim como não ter ensino superior não impede alguém de construir uma carreira de alta renda. Os dados trabalham com médias e probabilidades, e não com destinos individuais.

Ainda assim, a resposta estatística para a pergunta deste Dia do Estudante é clara. Quanto maior a escolaridade, maior tende a ser o rendimento — e a diferença brasileira é particularmente elevada.

Em Goiás, os dados disponíveis mostram uma distância de R$ 3.696 mensais entre os rendimentos médios de trabalhadores com ensino médio completo e superior completo. No Brasil, a OCDE aponta uma vantagem média de 148% para aqueles com formação superior em relação aos que chegaram ao ensino médio. 

Estudar, portanto, continua associado à possibilidade de melhorar de vida. O que os números também mostram é que, em 2026, a decisão exige uma segunda pergunta: não apenas se vale a pena estudar, mas qual formação oferece retorno suficiente para justificar o tempo e o dinheiro investidos.

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