Estudo diz que muito antes da soja, Goiás já abrigava grandes aldeias movidas pelo cultivo do milho
Estudo internacional com liderança brasileira revela que populações indígenas desenvolveram sistemas agrícolas diversificados capazes de alimentar aldeias com até 2 mil habitantes; Goiás ocupa lugar central nessa história
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Muito antes de Goiás se consolidar como uma das potências do agronegócio brasileiro, o milho já ocupava um papel central na organização econômica e alimentar das populações que habitavam o Cerrado. Um estudo publicado nesta semana na revista científica Science Advances revela que grandes aldeias pré-coloniais da região eram sustentadas por sistemas agrícolas baseados no cereal há cerca de mil anos.
A pesquisa analisou ossos e dentes de 101 indivíduos encontrados em 37 sítios arqueológicos distribuídos entre o Cerrado, a Caatinga e a Mata Atlântica. Os resultados indicam que comunidades instaladas em aldeias a céu aberto consumiam quantidades significativas de milho e desenvolveram uma produção agrícola capaz de sustentar assentamentos populosos.
O levantamento ajuda a esclarecer uma antiga discussão da arqueologia sul-americana. Durante décadas, pesquisadores divergiram sobre o modo de vida das populações que ocupavam o Brasil Central: seriam grupos pequenos e altamente móveis, dependentes da caça e da coleta, ou sociedades sedentárias apoiadas em uma agricultura intensiva?
As novas evidências apontam para uma realidade mais complexa. Em vez de monoculturas semelhantes às grandes lavouras comerciais da atualidade, os povos indígenas mantinham uma policultura baseada no milho, combinando plantas domesticadas, espécies nativas e conhecimentos acumulados sobre o ambiente do Cerrado.
Milho fazia parte de um sistema diversificado
A primeira autora do estudo, a pesquisadora Eliane Chim, explica que o debate arqueológico sobre o Cerrado costumava ficar restrito a dois extremos: populações de forrageadores altamente móveis ou agricultores sedentários envolvidos em produção intensiva.
Segundo ela, a pesquisa demonstra que algumas sociedades dependiam fortemente do milho, mas o cereal era cultivado dentro de sistemas agrícolas diversificados, capazes de sustentar grandes aldeias. A descoberta modifica a compreensão sobre a produção de alimentos e a ocupação indígena no Brasil Central.
Isso significa que o milho não era produzido isoladamente. As comunidades combinavam o cereal com outras plantas cultivadas e recursos obtidos diretamente no Cerrado. O modelo incluía alimentos como feijão, mandioca, abóbora e amendoim, além de frutos e espécies silvestres disponíveis em cada região.
A conclusão contraria a ideia de que sociedades populosas dependiam necessariamente de monoculturas ou de sistemas agrícolas que eliminavam a diversidade natural. Conforme os pesquisadores, o milho fazia parte de estratégias adaptadas às condições ambientais e culturais de cada comunidade.
O estudo também identificou diferenças importantes entre grupos que viviam relativamente próximos. Enquanto moradores de grandes aldeias abertas consumiam uma proporção elevada de milho, populações instaladas em abrigos rochosos mantinham dietas mais variadas e apresentavam poucos sinais de uso intensivo do cereal.
Como essas populações ocupavam ambientes semelhantes, os cientistas concluíram que as diferenças alimentares não podem ser explicadas apenas pela natureza disponível. Elas refletem escolhas culturais, tradições próprias e diferentes formas de organização econômica.
Ossos e dentes revelaram hábitos alimentares
Para reconstruir a alimentação dessas populações, a equipe examinou isótopos estáveis de carbono, nitrogênio e oxigênio presentes em dentes e ossos humanos. Esses elementos funcionam como registros químicos dos alimentos e da água consumidos durante diferentes períodos da vida.
Os cientistas associaram os resultados a datações por radiocarbono, vestígios de plantas, informações sobre animais e registros ambientais. O conjunto permitiu estabelecer com maior precisão quando o milho ganhou importância na alimentação das comunidades pré-coloniais.
As análises mostraram uma intensificação do consumo do cereal principalmente durante o período em que grandes aldeias circulares se expandiram pelo Cerrado. Alguns desses assentamentos reuniam centenas de casas organizadas ao redor de espaços centrais e poderiam abrigar até cerca de 2 mil pessoas.
A presença dessas aldeias mostra que o território correspondente ao atual Centro-Oeste não era ocupado apenas por pequenos grupos dispersos. Havia sociedades numerosas, com planejamento dos espaços, produção regular de alimentos e relações culturais complexas.
Cerrado como centro de inovação indígena
O professor Patrick Roberts, diretor do Departamento de Coevolução do Uso da Terra e Urbanização do Instituto Max Planck de Geoantropologia, afirma que os resultados desafiam interpretações mais amplas sobre o desenvolvimento da agricultura na América do Sul tropical.

Crédito: Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial com base nas evidências arqueológicas descritas no estudo publicado na Science Advances
De acordo com o pesquisador, o milho estava integrado a sistemas resilientes de policultura que combinavam plantas domesticadas, vegetação silvestre e conhecimento ecológico local. O estudo coloca o Cerrado ao lado da Amazônia como uma região fundamental para compreender as inovações indígenas anteriores à colonização europeia.
O arqueólogo André Strauss, professor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, observa que o Cerrado foi frequentemente deixado em segundo plano nas discussões sobre o uso pré-colonial da terra. A pesquisa mostra, no entanto, que o bioma também funcionou como um centro de inovação, no qual diferentes sociedades desenvolveram modos próprios de viver e produzir alimentos.
Para Goiás, a descoberta acrescenta uma nova dimensão à história agrícola do estado. A relação com o milho e com a produção em larga escala não começou com a expansão recente das lavouras mecanizadas. Séculos antes da chegada dos europeus, populações indígenas já transformavam sementes, plantas nativas e conhecimento ambiental em sistemas capazes de alimentar grandes comunidades.
A principal diferença está no modelo. Em vez da uniformidade da monocultura contemporânea, os antigos moradores do Cerrado combinavam produção, biodiversidade e adaptação ao território. Uma agricultura que não apenas garantia alimento, mas também ajudava a estruturar aldeias, relações sociais e formas duradouras de ocupação da paisagem.
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