Domingo, 09 de Agosto de 2026
PATRIMÔNIO DE GOIÂNIA

Goiânia guarda obra do arquiteto que mudou Av. Paulista e projetou o Conjunto Nacional

Projetada em 1952 por David Libeskind, a Residência José Félix Louza, na Avenida Paranaíba, antecede o Conjunto Nacional e ajuda a contar a chegada da arquitetura moderna à capital.

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
Residência José Félix Louza, projetada por David Libeskind em 1952, na Avenida Paranaíba, no Centro de Goiânia. A obra está entre os primeiros exemplares da arquitetura moderna residencial da capital. (Foto: Acervo David Libeskind)

Quem passa pela Avenida Paranaíba, no Centro de Goiânia, cruza com uma obra ligada a um dos endereços mais conhecidos do Brasil sem necessariamente saber. Na esquina com a Rua 9 está a Residência José Félix Louza, projetada em 1952 por David Libeskind, arquiteto que anos depois assinaria o Conjunto Nacional, na Avenida Paulista.

A casa goiana surgiu no começo da carreira de Libeskind e antes de sua consolidação profissional em São Paulo. O acervo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) registra oficialmente o imóvel como projeto de 1952 e confirma sua localização na Avenida Paranaíba com a Rua 9. 

A residência tem 351,88 metros quadrados e foi construída entre 1952 e 1953, segundo pesquisa da Universidade Federal de Goiás (UFG). A construção está entre os primeiros exemplares da arquitetura residencial moderna de uma capital que, naquele momento, ainda não havia completado duas décadas desde o lançamento de sua pedra fundamental. 

Conheça o acervo de David Libeskind mantido pela FAU-USP

Antes da Paulista, veio a Avenida Paranaíba

David Libeskind, arquiteto responsável pelo projeto do Conjunto Nacional, em São Paulo, também assinou residências modernistas em Goiânia, entre elas a casa José Félix Louza, de 1952. (Foto: Acervo David Libeskind/FAU-USP)
David Libeskind, arquiteto responsável pelo projeto do Conjunto Nacional, em São Paulo, também assinou residências modernistas em Goiânia, entre elas a casa José Félix Louza, de 1952. (Foto: Acervo David Libeskind/FAU-USP)

David Libeskind nasceu em Ponta Grossa, no Paraná, em 1928, cresceu em Belo Horizonte e iniciou o curso de Arquitetura em 1947. Formou-se em 1952 e, pouco depois, mudou-se para São Paulo, segundo a biografia mantida pela FAU-USP. 

Foi justamente em 1952 que projetou a casa da família Félix Louza em Goiânia. A obra aparece, portanto, praticamente no ponto inicial da trajetória profissional documentada do arquiteto, cuja coleção na USP reúne 107 projetos e registros fotográficos produzidos entre 1952 e 1998. 

Poucos anos depois, Libeskind venceu o concurso fechado para o Conjunto Nacional, empreendimento que ajudou a modificar a relação entre edifício e rua na Avenida Paulista. A própria FAU-USP define o complexo como a obra de maior projeção do arquiteto e o relaciona ao processo de verticalização de São Paulo. 

É essa cronologia que torna a residência de Goiânia particularmente relevante. Antes do grande complexo paulistano, Libeskind experimentava em uma casa térrea no Centro-Oeste alguns princípios que marcariam sua produção arquitetônica.

Veja o projeto do Conjunto Nacional no portal David Libeskind da FAU-USP

Casa moderna

Residência José Félix Louza, projetada por David Libeskind em 1952, na Avenida Paranaíba, no Centro de Goiânia. A obra está entre os primeiros exemplares da arquitetura moderna residencial da capital. (Foto: Acervo David Libeskind)
Residência José Félix Louza, projetada por David Libeskind em 1952, na Avenida Paranaíba, no Centro de Goiânia. A obra está entre os primeiros exemplares da arquitetura moderna residencial da capital. (Foto: Acervo David Libeskind)

Quando a residência começou a ser construída, Goiânia atravessava uma etapa decisiva de crescimento. Planejada inicialmente para cerca de 50 mil habitantes, a cidade teve crescimento moderado até 1955 e passou por uma expansão acelerada nas décadas seguintes. 

A estrada de ferro havia chegado em 1951, apenas um ano antes do projeto de Libeskind. A construção de Brasília e a política de interiorização do desenvolvimento ajudariam depois a acelerar a transformação demográfica da capital, que já alcançava cerca de 150 mil moradores em 1965, segundo a Prefeitura. 

A pesquisa da UFG sobre a residência usa justamente esse contraste para compreender a experiência de morar em uma casa considerada moderna dentro de uma Goiânia que ainda tinha trechos sem pavimentação. A dissertação analisa a residência dos Félix Louza como documento da mudança dos modos de morar e da própria transformação da cidade. 

Essa outra face da arquitetura goianiense já foi objeto de um amplo levantamento mostrado pelo Mais Goiás. O inventário da arquitetura moderna realizado pela UFG catalogou 339 residências históricas construídas entre as décadas de 1930 e 1970 e encontrou nove linguagens arquitetônicas diferentes na capital. 

Uma casa que se fechou para a avenida

Residência José Félix Louza, projetada por David Libeskind em 1952, na Avenida Paranaíba, em Goiânia. As imagens mostram o pátio interno, a elevação voltada para a Rua 9 e a fachada original da casa modernista. (Foto: Acervo David Libeskind)
Residência José Félix Louza, projetada por David Libeskind em 1952, na Avenida Paranaíba, em Goiânia. As imagens mostram o pátio interno, a elevação voltada para a Rua 9 e a fachada original da casa modernista. (Foto: Acervo David Libeskind)

O projeto de Libeskind chama atenção sobretudo pela relação incomum com a rua. Como o terreno estava na confluência da Avenida Paranaíba com a Rua 9, em uma área de circulação intensa, o arquiteto reduziu as aberturas voltadas diretamente para as vias e orientou boa parte da vida da residência para o interior. 

A solução não significa uma casa escura ou sem ventilação. Os pátios internos, elementos vazados e a disposição dos planos foram utilizados para permitir entrada de luz e circulação de ar sem eliminar a privacidade dos moradores. 

A pesquisa da UFG identifica ainda paredes mais espessas e revestimentos cerâmicos nas fachadas submetidas a maior insolação. Cobogós e pátios aparecem como elementos de adaptação de uma linguagem moderna às condições climáticas de Goiânia. 

O resultado era uma residência que praticamente invertia a lógica convencional da fachada. Em vez de depender da rua para iluminar e organizar seus cômodos, criava sua própria paisagem interna.

351,88 metros quadrados

Os documentos acadêmicos permitem reconstruir também o programa original da casa. Os 351,88 metros quadrados eram distribuídos entre setor social, área íntima e espaços de serviço. 

Na parte social estavam vestíbulo e salas de estar e jantar. A área íntima tinha três dormitórios e dois banheiros, enquanto os demais espaços incluíam cozinha, copa, dependências de serviço e garagem. 

O volume térreo e horizontal evitava a ornamentação característica de outras linguagens arquitetônicas presentes na cidade. Para os pesquisadores da UFG, a racionalidade da estrutura e a volumetria livre de ornamentos estão entre os elementos que permitem reconhecer o imóvel como um dos primeiros exemplos da arquitetura moderna residencial de Goiânia. 

Essa produção ajuda a ampliar a leitura de uma cidade normalmente associada ao Art Déco. O Mais Goiás já mostrou que Goiânia reúne um importante conjunto de construções Art Déco protegido pelo Iphan, mas a arquitetura da capital passa também por outras linguagens que surgiram nas décadas seguintes.

Não foi a primeira casa moderna de Goiânia

A importância da Residência Félix Louza exige uma precisão histórica: ela não é considerada a primeira casa moderna da capital. Publicação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) atribui esse marco à residência Dorival Bacelar, projetada pelo arquiteto Eurico de Godói e construída também em 1952, no Setor Sul. 

A casa de Dorival Bacelar, que ficava na esquina das ruas 91 e 10, já foi demolida. O estudo do Iphan destaca elementos como jardim interno e cobertura conhecida como “asa de borboleta”, além da ruptura com o padrão residencial então existente em Goiânia. 

No mesmo ano, Libeskind desenvolvia seu projeto na Avenida Paranaíba. A coincidência mostra que 1952 funciona como um marco importante na entrada da arquitetura moderna no espaço doméstico da nova capital.

Consulte a publicação do Iphan sobre a arquitetura e o patrimônio de Goiânia

Muito além do Art Déco

A imagem histórica de Goiânia está fortemente ligada ao Art Déco, principalmente por causa dos prédios públicos construídos nas primeiras décadas da capital. O conjunto urbano tombado pelo Iphan reúne 22 edifícios e monumentos públicos, a maioria localizada na região central, além do núcleo pioneiro de Campinas. 

Isso, porém, não significa que o patrimônio arquitetônico da cidade seja formado por uma única linguagem. Documento técnico do próprio Iphan reconhece a presença de outras expressões, incluindo ecletismo e modernismo, como parte das diferentes formas pelas quais a ideia de modernidade se manifestou em Goiânia. 

O inventário realizado pela UFG reforça essa diversidade. Das 339 residências pesquisadas, 180 foram selecionadas para estudo aprofundado e 29 tiveram plantas reconstituídas, em um trabalho que reuniu critérios como excepcionalidade, risco, estado de conservação e preservação. 

Leia no Mais Goiás: UFG faz inventário da arquitetura moderna em Goiânia

A casa e o atual debate sobre o Centro

Sete décadas depois do projeto de Libeskind, a Avenida Paranaíba está inserida em uma região novamente colocada no centro das discussões urbanísticas de Goiânia. O esvaziamento residencial, a preservação do patrimônio e a recuperação de imóveis passaram a integrar as propostas de requalificação da área central.

Mais Goiás mostrou em julho que especialistas consideram insuficiente apenas reformar edifícios. Na reportagem “Revitalizar o Centro é reconstruir a memória de Goiânia”, historiadores defendem que patrimônio, moradia, cultura, segurança e sentimento de pertencimento precisam fazer parte da recuperação da região. 

Outra reportagem da série detalha uma proposta de requalificação integrada do Centro de Goiânia. O debate inclui justamente a utilização da estrutura existente, recuperação do patrimônio e criação de condições para que a região volte a ter vida durante todo o dia. 

A Prefeitura também discute o programa Morar no Centro, destinado a incentivar novamente a ocupação residencial da região. O Mais Goiás detalhou como a proposta pretende utilizar imóveis ociosos e estimular a volta de moradores

O arquiteto voltou a projetar em Goiânia

CConjunto Nacional, na Avenida Paulista, em São Paulo, obra que consolidou a trajetória do arquiteto David Libeskind e se tornou referência da arquitetura moderna brasileira. (Foto: Acervo David Libeskind/FAU-USP)
Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, em São Paulo, obra que consolidou a trajetória do arquiteto David Libeskind e se tornou referência da arquitetura moderna brasileira. (Foto: Acervo David Libeskind/FAU-USP)

A relação de David Libeskind com Goiânia não terminou com a casa da Avenida Paranaíba. Pesquisas acadêmicas identificam outras residências projetadas pelo arquiteto na capital em diferentes momentos de sua carreira.

O conjunto ajuda a mostrar que a presença de Libeskind em Goiás não foi apenas um episódio isolado. Ainda assim, a Residência José Félix Louza ocupa uma posição singular por pertencer ao momento em que o arquiteto acabava de concluir sua formação e iniciava sua trajetória profissional.

Seu acervo documental foi doado pelos filhos Marcelo e Claudio Libeskind à FAU-USP em 2014. A universidade mantém projetos originais, fotografias, documentos e outros registros disponíveis para pesquisadores, preservando também o projeto goianiense como parte da trajetória da arquitetura moderna brasileira. 

Conheça a Coleção David Libeskind da FAU-USP

Uma obra da Paulista cuja história passa por Goiânia

Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, em São Paulo, obra que consolidou a trajetória do arquiteto David Libeskind e se tornou referência da arquitetura moderna brasileira. (Foto: Acervo David Libeskind/FAU-USP)
Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, em São Paulo, obra que consolidou a trajetória do arquiteto David Libeskind e se tornou referência da arquitetura moderna brasileira. (Foto: Acervo David Libeskind/FAU-USP)

O Conjunto Nacional ocupa o número 2.073 da Avenida Paulista, na esquina com a Rua Augusta e a Alameda Santos. A FAU-USP o apresenta como a principal obra de David Libeskind e como um projeto associado às transformações pelas quais São Paulo passava em meados do século XX. 

Antes desse edifício de escala metropolitana, porém, havia uma casa de 351,88 metros quadrados em Goiânia. Ali, Libeskind já trabalhava com horizontalidade, integração por pátios, ventilação, proteção contra a insolação e uma relação calculada entre o interior da residência e a rua. 

É por isso que a casa da Avenida Paranaíba interessa para além de sua fachada. Ela registra um momento em que dois processos ainda estavam começando: a carreira de um arquiteto que se tornaria referência nacional e a consolidação de uma Goiânia que havia sido planejada para representar a modernização de Goiás.

Hoje, quando a capital volta a discutir o futuro do Centro, a residência também ajuda a lembrar que parte da história da cidade não está apenas nos grandes monumentos. Está em construções que milhares de pessoas podem atravessar todos os dias sem saber o que representam.

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