Sábado, 01 de Agosto de 2026
TRADIÇÃO

Há 278 anos, fé leva peregrinos a percorrer 45 km a pé na Romaria do Muquém, em Niquelândia

Celebração começa neste domingo, completa 278 anos e prepara uma peregrinação noturna entre Niquelândia e o Santuário de Nossa Senhora d’Abadia

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
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Romeiros acompanham a imagem de Nossa Senhora d’Abadia durante procissão noturna da Romaria do Muquém, em Niquelândia (Foto: Divulgação)

Antes da construção da GO-237, da instalação dos pontos de apoio e da chegada das estruturas que hoje recebem os peregrinos, a devoção a Nossa Senhora d’Abadia já levava moradores ao povoado de Muquém, na região que atualmente pertence ao município de Niquelândia. Fontes religiosas e institucionais situam o início da tradição em 1748, durante o período de exploração do ouro no norte de Goiás. Já são 278 anos de história e caminhada a pé por cerca de 45 km.

A origem da romaria possui versões diferentes. Uma delas relaciona a devoção ao português Antônio Antunes de Carvalho, que explorava ouro na região. Segundo o relato preservado pelo Santuário do Muquém, ele enfrentava uma acusação e prometeu buscar uma imagem de Nossa Senhora em Portugal caso fosse libertado.

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Romaria do Muquém acontece todos os anos e movimenta milhares de pessoas (Foto: reprodução


Após o desfecho do caso, Antônio Antunes teria adquirido uma imagem no Mosteiro de Nossa Senhora d’Abadia de Bouro, no norte de Portugal, e levado a peça religiosa para o povoado. A presença da imagem dá início, conforme essa versão, às celebrações que atravessam gerações.

Outra narrativa relaciona a história do Muquém a um quilombo formado nas serras da região por pessoas que fugiam das áreas de mineração de Cocal, Água Quente, Traíras e São José do Tocantins. Depois da captura dos quilombolas, uma capela dedicada a São Tomé Apóstolo teria sido construída no local.

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A história também chega à literatura por meio do romance O Ermitão de Muquém, de Bernardo Guimarães. A obra apresenta a trajetória de Gonçalo, personagem que muda de vida e se torna ermitão após atribuir sua sobrevivência à proteção de Nossa Senhora.

O romance é escrito em 1858, publicado em folhetins entre 1866 e 1867 e lançado em volume em 1869, conforme o acervo de Literatura Brasileira da Universidade Federal de Santa Catarina.

As narrativas não permitem apontar uma única origem documental para a romaria. Elas mostram, no entanto, como mineração, ocupação territorial, religiosidade popular, quilombos e literatura integram a memória construída em torno do Muquém. As fontes institucionais adotam 1748 como o marco inicial da devoção.

A Romaria de Nossa Senhora d’Abadia do Muquém completa, portanto, 278 anos em 2026. O santuário apresenta a celebração como a romaria mais antiga de Goiás.

Iniciada no século 18

Quase três séculos depois dos primeiros registros, a peregrinação continua. Na noite de quarta-feira (5/8), romeiros deixam o centro de Niquelândia e seguem pela GO-237, conhecida como Rodovia da Fé, em direção ao Santuário Diocesano de Nossa Senhora d’Abadia do Muquém.

Parte dos devotos percorre a pé os cerca de 45 km que separam a cidade do povoado. Outros chegam de bicicleta, a cavalo, de motocicleta, de carro ou em comitivas.

A caminhada atravessa a madrugada e integra a programação da Romaria de Nossa Senhora d’Abadia do Muquém de 2026. A organização ainda não divulga uma estimativa específica de quantas pessoas devem completar todo o trajeto a pé neste ano.

Para parte dos participantes, o percurso representa o cumprimento de promessas, o agradecimento por graças alcançadas ou a continuidade de uma prática familiar.

A imagem de Nossa Senhora d’Abadia sai do Santuário São José, no centro de Niquelândia, às 16h de quarta-feira. A missa de abertura ocorre às 17h, sob presidência do bispo da Diocese de Uruaçu, Dom Giovani Carlos Caldas Barroca.

A peregrinação começa às 18h. Na quinta-feira (6), data reservada à chegada dos romeiros, a programação no Santuário do Muquém começa às 6h, com missa presidida pelo reitor, padre Cornélio José dos Santos.

O horário das 6h corresponde ao início das celebrações religiosas do dia. Não representa um horário único para a chegada de todos os peregrinos, que varia conforme o ritmo de cada pessoa ou grupo.

Público em 2025

Santuário Diocesano de Nossa Senhora d’Abadia do Muquém estima que a romaria recebe cerca de 400 mil participantes por edição.

O número corresponde ao movimento acumulado durante os dias de programação e não à quantidade de pessoas presentes ao mesmo tempo. Também não representa o total de romeiros que percorrem os 45 km a pé.

Em 2025, aproximadamente 450 mil pessoas participaram dos 13 dias de celebrações, conforme balanço divulgado pelo Governo de Goiás. O público ficou 12,5% acima da estimativa de 400 mil normalmente apresentada pelo santuário.

O resultado do ano passado não representa uma previsão oficial para 2026. Até a publicação desta reportagem, a organização não apresenta uma projeção consolidada para o público total da atual edição.

O santuário também estima que aproximadamente 200 mil pessoas utilizam, ao longo da romaria, a área destinada aos acampamentos. A estrutura religiosa recebe mais de 60 sacerdotes. A programação prevê mais de 60 missas, além de novenas, terços, procissões, vigílias, confissões, batizados e casamentos.

Pesquisa mostra presença de famílias

Uma pesquisa do Observatório do Turismo de Goiás, realizada com 270 usuários do Centro de Apoio ao Romeiro em 2025, mostra que 94,07% dos entrevistados residem em Goiás. Desse total, 28,89% moram em Niquelândia.

A idade média das pessoas ouvidas é de 45,5 anos, e as mulheres representam 57,78% da amostra. Entre os entrevistados, 48,89% declaram renda de até dois salários mínimos.

A participação com familiares aparece em 54,44% das respostas. Os grupos possuem, em média, 8,76 integrantes.

Entre os entrevistados classificados como turistas, aqueles que permanecem pelo menos uma noite na região, 53,27% utilizam barracas instaladas em lotes alugados. O período médio de permanência chega a sete noites.

Os números descrevem o perfil das pessoas entrevistadas no Centro de Apoio ao Romeiro. A amostra não representa todo o público da romaria. Os resultados constam no relatório do Observatório do Turismo de Goiás.

Centro de apoio espera receber 30 mil romeiros

A Rodovia da Fé recebe o Centro de Apoio ao Romeiro no quilômetro 30. A estrutura funciona entre os dias 3 e 15 de agosto, durante 24 horas por dia.

A Organização das Voluntárias de Goiás (OVG) espera receber cerca de 30 mil romeiros em 2026. O local oferece água, alimentação, banheiros com chuveiros, área de descanso, atendimento de enfermagem, primeiros socorros, capela, acesso à internet e espaço para acampamento.

A operação reúne aproximadamente 100 pessoas, entre trabalhadores, voluntários, colaboradores da OVG e servidores municipais. A edição deste ano também conta com um ponto de atendimento no povoado de Muquém, próximo ao santuário.

Desde a implantação do centro, em 2019, a OVG contabiliza 177.463 atendimentos. Em 2025, a organização registra aproximadamente 33 mil atendimentos.

O número representa serviços prestados e não necessariamente pessoas diferentes, porque um mesmo romeiro pode utilizar mais de um atendimento.

Mais Goiás acompanha a estrutura montada na Rodovia da Fé para receber os participantes da romaria.

Programação começa no domingo

As atividades preparatórias começam neste domingo (2), com missas, acolhimento de comitiva, carreata e entronização da imagem de Nossa Senhora d’Abadia.

Às 16h, a imagem peregrina sai em carreata do povoado de Muquém. A chegada a Niquelândia ocorre às 17h. Às 18h, haverá missa no Santuário São José. Outra celebração, seguida da entronização da imagem, está marcada para as 19h no Santuário do Muquém.

Nos dias 3 e 4 ocorre o tríduo preparatório. A abertura oficial está marcada para quarta-feira (5). As celebrações principais seguem até 15 de agosto, dia dedicado a Nossa Senhora d’Abadia. A missa de despedida dos romeiros ocorre no domingo (16).

O tema escolhido para 2026 é “O Verbo se fez carne e veio habitar entre nós”. O lema afirma: “Quem acolhe o Verbo faz da vida um santuário”.

Dia do Romeiro integra calendário estadual

O templo recebe o título de Santuário Diocesano em 10 de junho de 2007 e integra a Diocese de Uruaçu.

Desde 2023, o dia 15 de agosto faz parte do calendário estadual como Dia do Romeiro de Nossa Senhora do Muquém. A lei que cria a data foi sancionada durante a romaria daquele ano, conforme noticiado pelo Mais Goiás.

A partir de 2026, a data também marca a transferência anual e simbólica da capital de Goiás para o povoado de Muquém.

O projeto que institui a transferência foi apresentado em 2025 e teve a tramitação noticiada pelo Mais Goiás. A proposta foi posteriormente aprovada pela Assembleia Legislativa de Goiás.

A medida reconhece a participação da romaria na formação histórica, religiosa e cultural do estado. A transferência ocorre anualmente no dia 15 de agosto.

Cerco de Jericó, vigília e procissão

O 17º Cerco de Jericó começa no dia 7 de agosto, na Capela do Santíssimo Sacramento, e segue até o dia 14. A programação também inclui uma peregrinação ao Morro da Cruz.

A 37ª Vigília Carismática ocorre entre a noite de 8 de agosto e a madrugada do dia 9. Cavaleiros, ciclistas, tropeiros, foliões, escoteiros, jipeiros e outras comitivas chegam ao santuário em datas estabelecidas pela organização.

No dia 15, a programação começa com alvorada às 5h. As atividades incluem missas, batizados, casamentos e consagração dos fiéis.

A Procissão Luminosa começa às 17h30. Às 19h30, Dom Giovani preside a missa dedicada a Nossa Senhora d’Abadia do Muquém.

A despedida dos romeiros ocorre no domingo (16). A primeira missa do dia está marcada para as 7h e também será presidida pelo bispo da Diocese de Uruaçu.

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