Empresa de Goiás vai monitorar sono de estudantes para entender queda nas notas
Empresa de Goiânia vai utilizar 5 mil pulseiras inteligentes para monitorar sono e recuperação de estudantes que disputam residência médica. Pesquisa científica identificou problemas de sono em 39,8% dos estudantes de Medicina analisados
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Uma empresa de Goiânia vai utilizar pulseiras inteligentes para acompanhar o sono de estudantes que disputam vagas de residência médica e investigar possíveis relações entre descanso e desempenho nas provas. O IPM Educação, em parceria com a fabricante finlandesa Polar, anunciou a distribuição de 5 mil dispositivos para alunos da Mentoria IPM 2027. A tecnologia permitirá cruzar informações sobre sono, frequência cardíaca e recuperação física com resultados de simulados e questões. O compartilhamento dos dados será voluntário.
A iniciativa busca compreender um problema identificado pela ciência. Uma revisão de 41 estudos publicada na revista Sleep Medicine Reviews, em 2020, constatou que 39,8% dos estudantes de Medicina analisados apresentavam má qualidade do sono. Outros 29,1% dormiam menos do que o necessário, enquanto 35,9% relatavam sonolência excessiva durante o dia. Os pesquisadores também encontraram associação entre qualidade do descanso e rendimento acadêmico, mas não comprovaram que dispositivos de monitoramento aumentem as notas.
A pressão acadêmica também aparece em pesquisas brasileiras. Um levantamento com 1.026 estudantes de Medicina de 74 instituições, divulgado pelo Mais Goiás em setembro, identificou sintomas depressivos moderados ou graves em 66% dos participantes e sintomas de ansiedade em 50,5%. A falta de tempo apareceu entre os principais fatores associados ao sofrimento dos universitários. Os resultados reforçam a importância de investigar as condições de aprendizagem, embora não permitam atribuir os problemas exclusivamente à rotina de estudos.
Tecnologia de Goiás vai comparar sono e desempenho nas provas

O projeto utilizará a Polar Loop, pulseira sem tela que monitora atividade física, frequência cardíaca, sono e recuperação. Os dados poderão ser integrados ao IPM Track, sistema desenvolvido pela empresa goiana que reúne informações sobre questões resolvidas, resultados de simulados e evolução acadêmica. A proposta é identificar alterações persistentes na recuperação dos estudantes e oferecer acompanhamento individualizado.
“Para escolher a melhor trilha de aprendizado para cada aluno, precisamos ter clareza sobre como ele está dormindo, se recuperando e lidando com a pressão. Dessa reflexão nasceu o IPM Track, que cruza os dados fisiológicos coletados pelo Polar Loop com os dados acadêmicos e pedagógicos de cada aluno da Mentoria”, explica Pedro Miranda, fundador e CEO do IPM Educação.
As pulseiras começarão a ser enviadas em novembro de 2026, enquanto a integração dos dados está prevista para 12 de janeiro de 2027. Segundo a empresa, o acesso às informações dependerá da autorização dos estudantes, conforme as regras da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). Os registros poderão ser consultados pelo aluno e pela equipe responsável pelo acompanhamento.
Disputa por vagas aumenta pressão sobre futuros médicos
A concorrência pela residência médica ajuda a explicar a busca por novas estratégias de preparação. Conforme a Demografia Médica no Brasil 2025, o país formou 32.611 médicos em 2023, enquanto 16.189 ingressaram no primeiro ano de programas de residência de acesso direto em 2024. A comparação equivale a aproximadamente uma vaga ocupada para cada dois formados no ano anterior, mas não representa uma taxa de aprovação, já que profissionais de outras turmas também participam das seleções.
Em Goiás, a Secretaria de Estado da Saúde abriu 319 vagas para programas de residência em 2027, sendo 219 destinadas a médicos e 100 a profissionais de outras áreas. As inscrições seguem até 3 de novembro. Os aprovados receberão bolsa de R$ 4.106,09 e terão carga horária de 60 horas semanais.
Monitorar o sono pode melhorar as notas?
A relação entre descanso e aprendizagem possui respaldo científico, mas ainda não existem resultados independentes que comprovem aumento nas aprovações com o uso do IPM Track. A pulseira também não identifica, isoladamente, as causas de dificuldades acadêmicas nem substitui avaliação médica.
Para André Bandeira, CEO da Polar LATAM, o monitoramento poderá oferecer informações adicionais sobre a rotina de estudantes submetidos a períodos prolongados de esforço intelectual.
“Estudantes submetidos a períodos prolongados de exigência cognitiva também precisam encontrar um equilíbrio entre esforço e recuperação, e acreditamos que a tecnologia pode contribuir para uma compreensão mais objetiva desse processo”, afirma.
O projeto começará exclusivamente com os participantes da Mentoria IPM 2027. A possibilidade de expansão dependerá das decisões da empresa. A experiência poderá contribuir para avaliar como informações sobre sono e recuperação podem auxiliar o acompanhamento acadêmico, mas sua eficácia precisará ser demonstrada por resultados mensuráveis.