Vídeo: casal de araras-canindé procura filhotes após queda de palmeira em Aparecida de Goiânia
Após a queda das palmeiras onde viviam, dois filhotes foram resgatados pelos bombeiros; desde então, os pais sobrevoam o local à procura deles
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Por volta das 6h da manhã, antes mesmo de a cidade começar a despertar de verdade, o bairro Cardoso, em Aparecida de Goiânia, já tinha um despertador particular. Do alto de duas palmeiras, um casal de araras-canindé costumava anunciar o começo do dia. Às 18h, a cena se repetia.
A rotina, porém, mudou desde a quarta-feira (23), depois que as árvores ocas onde as aves viviam caíram. Uma delas atingiu e destruiu a lixeira de um vizinho. Depois, a segunda palmeira também veio abaixo — e, com ela, o abrigo onde estavam dois filhotes de arara.
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As aves jovens ficaram feridas e precisaram ser resgatadas pelo Corpo de Bombeiros. Os militares recolheram os filhotes e os encaminharam para atendimento no Centro de Triagem de Animais Silvestres do Ibama, o Cetas.
Quem acompanhou a situação de perto foi um advogado de 43 anos, morador do bairro. Para ele, a presença das araras fazia parte da vida de uma maneira familiar.
As árvores não existem mais. Outras foram plantadas no mesmo buraco. Os filhotes foram retirados do local, mas os pais continuam por perto.
Na manhã desta quinta-feira (24), o advogado viu as araras em um poste próximo ao antigo ninho. Elas vocalizavam repetidamente e sobrevoavam a região. Para o morador, o comportamento parece ser uma tentativa de encontrar os filhotes.
“Os pais ficaram sem casa e sobrevoam a área toda hora. Fazem os barulhos típicos deles. Procurando os filhotes, eu acredito.”
Um despertador que o bairro perdeu
Durante o tempo em que viveram nas palmeiras, as araras se tornaram parte da rotina dos moradores.
“Eles faziam festa todos os dias por volta das 6h da manhã e às 18h. Tanto pela beleza bucólica dentro da cidade quanto pelos barulhos altos. Era o despertador natural”, conta o advogado.
A cena, apesar de acontecer dentro de uma área urbana, revela um comportamento natural bastante complexo.

Segundo o biólogo Edson Abrão, a arara-canindé estabelece uma relação familiar duradoura e apresenta forte cuidado parental. Os filhotes, especialmente nos primeiros períodos de vida, dependem completamente dos pais.
“Essa é uma arara-canindé. A arara constitui família. O pai e a mãe cuidam dos filhotes. Como os filhotes nascem muito dependentes dos pais, cegos e sem penas, eles têm cuidado parental. Os pais chamam pelos filhotes, sim”, explica.
Na ecologia, esse tipo de ave é classificado como nidícola, termo usado para espécies cujos filhotes permanecem no ninho e dependem dos pais para sobreviver durante uma fase importante do desenvolvimento.
“Elas formam família para o resto da vida. É muito interessante”, afirma o biólogo.
Os pais continuam por perto
O episódio deixou uma cena curiosa e também um pouco melancólica para quem acompanhava a rotina das aves: os filhotes foram retirados do local para receber atendimento, enquanto os adultos permaneceram na área onde durante algum tempo estava a casa da família.
Sem as palmeiras que serviam de abrigo e sem os filhotes à vista, o casal continua sobrevoando o bairro. Para quem mora ali, os sons que antes marcavam o início e o fim do dia agora ganharam outro significado.
O que era apenas o barulho das araras entre as casas passou a ser também o sinal de que, mesmo depois da queda do ninho, os pais continuam procurando pelos filhos.
“É de partir o coração ver elas assim, procurando os filhotes”, finaliza o advogado.