Domingo, 08 de Novembro de 2026
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Obrigadas a servir o pastor: mulheres relatam sexo oral na sala da igreja e trabalho sem salário em Goiânia

Mulheres relatam abuso, trabalho sem salário e controle da vida pessoal dentro da Assembleia de Deus; religioso exigia que desligassem os celulares antes dos encontros

Por - Goiânia, GO
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Pastor da Assembleia de Deus acusado de abuso sexual

Uma sala térrea, com mesa oval, cadeiras acolchoadas, um mapa na parede e um banheiro. Esse é um dos ambientes onde um pastor da Assembleia de Deus Ministério Fama, em Goiânia, teria cometido abusos sexuais contra mulheres que trabalhavam como suas secretárias. Antes dos encontros, segundo os relatos, ele exigia que desligassem os celulares. Uma das denunciantes afirmou que era obrigada a utilizar o banheiro depois de praticar sexo oral no religioso. As novas acusações foram apresentadas ao Mais Goiás por uma pessoa próxima a quatro mulheres que afirmam ter sido vítimas do pastor.

Em conversa com a reportagem na noite de sexta-feira (6), a fonte descreveu um sistema de trabalho não remunerado e submissão à autoridade religiosa que teria funcionado durante aproximadamente dez anos. As mulheres exerciam atividades administrativas no departamento de jovens da igreja, mas também eram encarregadas de cuidar da casa, dos filhos e da fazenda do pastor.

“Nenhuma das secretarias jamais recebeu um centavo”, afirmou o interlocutor, que pediu anonimato.

Segundo ele, o trabalho era apresentado como voluntário, mas a permanência no grupo era mantida por ameaças de isolamento e acusações de desobediência religiosa.

“Era tudo absolutamente ‘voluntário’, movido por medo e pressão espiritual”, relatou.

A fonte afirma ter conversado diretamente com as quatro mulheres durante o contato com o Mais Goiás.

Abusos dentro da igreja e na casa do pastor

Pastor acusado de abuso em um momento em que ministrava culto na Assembleia de Deus Ministério Fama (Foto: Reprodução)

Segundo os relatos, os episódios de violência sexual ocorreram tanto nas dependências da igreja, quanto na residência do religioso.

A sala utilizada pelo pastor ficava em um templo menor da instituição, na Vila Paraíso (em Goiânia). O ambiente tinha uma mesa oval rodeada por cadeiras acolchoadas, um vaso de plantas, um mapa na parede e um banheiro.

De acordo com a fonte, o pastor levava as mulheres ao local e exigia que desligassem os telefones celulares.

As denunciantes afirmam que eram coagidas a praticar sexo oral e outros atos sexuais. Uma delas descreveu o banheiro anexo como o local onde precisava cuspir depois dos episódios.

O abuso sexual vinha acompanhado de justificativas religiosas. Uma das frases atribuídas ao pastor, reproduzida pelas mulheres ao interlocutor, era: “Agora você se sente mais espiritual, né?”

Outra abordagem descrita pelas denunciantes envolvia uma situação hipotética em que o religioso perguntava se elas aceitariam realizar sexo oral para retirar veneno de uma suposta picada de cobra.

A fonte afirma que essas abordagens eram utilizadas para introduzir exigências de natureza sexual durante os atendimentos espirituais.

Assembleia de Deus Ministério Fama, onde atuava o pastor acusado de abuso sexual (Foto: Divulgação)

Mulheres eram obrigadas a cuidar da casa, dos filhos e da fazenda

As quatro secretárias tinham atribuições como a organização de eventos e o acompanhamento das finanças do departamento de jovens. Segundo os relatos, entretanto, grande parte da rotina era dedicada a atender às demandas pessoais do pastor.

Elas eram encarregadas de preparar refeições, limpar a residência, cuidar dos filhos do religioso e acompanhar compromissos particulares.

“Andavam e seguiam ele pra todo lado”, contou a fonte.

As mulheres também teriam sido obrigadas a trabalhar na fazenda do pastor, sem remuneração. Uma das denunciantes relatou ter passado meses prestando serviços na propriedade rural.

Segundo o interlocutor, o religioso não fornecia alimentação regularmente às pessoas que trabalhavam na casa e na fazenda.

“Ele não dava alimento nem pra quem trabalhava na fazenda nem na casa dele”, afirmou.

As secretárias também eram obrigadas a acompanhar viagens do pastor, apesar de não receberem salários. De acordo com a fonte, as despesas eram custeadas pelas próprias mulheres ou por seus familiares.

O relato aponta ainda que o religioso impedia as secretárias de manter outros empregos ou frequentar cursos superiores, sob a justificativa de que deveriam dedicar seu tempo às atividades religiosas.

Culto minnistrado por pastor acusado de praticar abuso sexual por dez anos (Foto: Divulgação)

Pastor teria imposto regras até sobre roupas e aparência física

A interferência na vida pessoal das mulheres também incluía exigências sobre o modo de vestir e a aparência física.

“Tínhamos que descolorir os pelos do braço a pedido dele porque ele não gostava da cor natural”, relatou uma delas, segundo a reprodução feita pelo interlocutor ao Mais Goiás.

Outra afirmou que o pastor não aceitava roupas largas e exigia peças mais ajustadas ao corpo. As mulheres também relatam ofensas relacionadas ao peso e à aparência. “Ele gostava de mulheres mais corpulentas e queria que ficássemos assim”, disse uma.

Segundo os depoimentos transmitidos, o religioso utilizava argumentos religiosos para impedir que algumas frequentassem academias ou modificassem seus hábitos.

As denunciantes também afirmam que eram desencorajadas a namorar, casar ou estabelecer relações afetivas fora do grupo.

Jovens tinham de pedir autorização para viajar e faltar aos cultos

O departamento de jovens da igreja era dividido em 24 redes, cada uma coordenada por um líder e formada, segundo a fonte, por grupos de aproximadamente cinco a 50 pessoas.

O pastor teria criado regras que submetiam atividades pessoais dos integrantes à autorização da liderança.

Pastor da Assembleia de Deus Ministério Fama acusado de praticar abuso sexual (Foto: Reprodução)

As restrições incluíam viagens, passeios, faltas a reuniões e participação em celebrações familiares.

Os relatos apontam que integrantes da liderança e secretárias eram pressionados a passar datas comemorativas ao lado do pastor e de sua família.

Quem tentava sair da organização enfrentaria acusações de rebeldia e desobediência religiosa.

“Quem ousasse sair ou denunciar algo era tido como rebelde, endemoniado, difícil de adaptar”, relatou a fonte.

Segundo ela, o pastor também determinava que os integrantes não mantivessem contato com pessoas que tivessem deixado o grupo.

Veja vídeo feito por um frequentadora da igreja que sofreu abuso

Redes de jovens teriam metas de R$ 1,1 mil para presentear pastor

As novas denúncias também envolvem a administração financeira do departamento de jovens.

Segundo a fonte, cada uma das 24 redes era obrigada a arrecadar R$ 1,1 mil no primeiro semestre e outros R$ 1,1 mil no segundo semestre, destinados a presentes para o pastor e seus familiares.

O interlocutor afirma que, quando uma rede não alcançava o valor exigido, seus integrantes eram cobrados em reuniões.

“Ele usava as secretárias para cobrar os valores”, declarou.

As arrecadações teriam financiado comemorações de aniversário, móveis e eletrodomésticos destinados à residência do religioso.

A fonte também acusa o pastor de utilizar recursos obtidos em cultos, rifas e retiros para despesas particulares. Segundo ela, algumas contribuições eram apresentadas aos jovens como destinadas a obras sociais e à compra de cestas básicas.

Templo da Assembleia de Deus Ministério Fama na Vila Paraíso, em Goiânia (Foto: Google Street View)

Denúncias levaram ao afastamento do pastor

A fonte afirma que uma das mulheres tentou se afastar do grupo meses antes de o caso se tornar público. Segundo o relato, ela continuou sofrendo pressões e decidiu procurar a direção da igreja.

Depois disso, outras denunciantes passaram a apresentar seus relatos.

A fonte informou, na sexta-feira, que as quatro secretárias ainda tinham receio de procurar a polícia. Outras mulheres, entretanto, já haviam registrado denúncias contra o religioso.

Ambiente interno da Assembleia de Deus Ministério Fama, em Goiânia (Foto: Reprodução)

Entre elas está a estudante de Direito Bruna Suyane, que publicou um vídeo nas redes sociais afirmando ter sido tocada de maneira inadequada pelo pastor. Bruna relatou que, ao questionar o comportamento, ouviu que se tratava de um “excesso de carinho”, porque o religioso a amava como um pai.

A Assembleia de Deus Ministério Fama confirmou o afastamento do pastor de todas as funções eclesiásticas, incluindo a liderança do departamento de jovens. A decisão foi tomada na terça-feira (3), durante uma reunião extraordinária da direção.

Em comunicado divulgado na sexta-feira (6), a instituição afirmou que acompanha o caso de perto e adota as providências cabíveis.

O documento não detalhou as acusações nem apresentou esclarecimentos sobre as suspeitas de violência sexual, trabalho não remunerado e irregularidades financeiras.

O pastor não será identificado nesta reportagem. As acusações ainda não foram julgadas, e os relatos apresentados à reportagem não equivalem a comprovação de responsabilidade criminal. A manifestação do religioso sobre as novas denúncias não estava disponível até a conclusão deste texto.

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