Mistério

Caso de biomédica desaparecida em Goiás completa 70 dias; entenda os desafios da investigação

Policiais analisaram dados telefônicos, bancários, plataformas digitais e até voos, mas não obtiveram novos indícios sobre o paradeiro

MAIS GOIÁS (1)
Investigadores ampliaram estratégias na tentativa de localizar Érika Machado. Quebra de sigilo e buscas com cães integram as buscas (Foto: Colagem/Reprodução)

O caso da biomédica desaparecida em Goiás completa 70 dias nesta sexta-feira (9/1), mas, apesar dos esforços investigativos contínuos para encontrar o paradeiro de Érica Luciana Machado, 47, o mistério ainda parece longe de uma resolução. Até o momento, a Polícia Civil adotou uma série de estratégias para levantar novos indícios, como a quebra de sigilos telefônico, telemático e bancário, bem como a ampliação das buscas em área de mata com apoio do Corpo de Bombeiros (CBMGO) e de cães farejadores. Os esforços, porém, ainda não resultaram na obtenção de novas pistas.

Em entrevista concedida ao Mais Goiás, a delegada Aline Lopes, responsável pelo inquérito na Delegacia de Anápolis, explicou a estrutura do trabalho desempenhado pelos investigadores. Segundo ela, apesar do volume de dados analisados, pistas iniciais culminaram em resultados inconclusivos. Embora, o contexto reforce a hipótese de que Érika tenha se afastado voluntariamente, Lopes ressalta que esforços serão mantidos até que as respostas sejam encontradas.

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Inspeção telefônica

A delegada revela que todas as chamadas feitas e recebidas nos dias que antecederam e coincidiram com o desaparecimento foram minuciosamente verificadas. “Nós fizemos um pedido de quebra de sigilo telefônico, telemático e quebra de sigilo bancário. O que essas informações nos revelaram? Nada além do que a gente já sabia. Nós analisamos todas as chamadas realizadas e recebidas nos dias anteriores ao desaparecimento dela. Não tivemos nenhum indício que poderia nos levar à localização”, disse.

Segundo a titular, a investigação também avançou sobre dados de aplicativos e plataformas digitais. “Analisamos todos os dados telemáticos, todas as plataformas em que ela tinha algum tipo de cadastro: Netflix, Uber, 99, Airbnb, Booking, enfim, todas essas informações, toda movimentação que ela poderia ter feito através do celular dela foi verificada e não revelou também nenhum indício”, relatou a delegada.

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Rastro geográfico

Outra frente de apuração envolveu possíveis deslocamentos. “Nós verificamos junto a todas as companhias aéreas, junto à Polícia Federal, para ver se ela poderia ter ou deixado o país ou embarcado em algum voo nacional. Também não tivemos nenhuma informação positiva nesse sentido. Ela não embarcou em nenhum voo e não saiu do país também”, explicou.

Contas e movimentações

A análise bancária confirmou, por sua vez, apenas uma movimentação já conhecida pela polícia. “Também analisamos toda a movimentação financeira dela, todas as contas que ela tinha, todos os cartões de crédito. Não localizamos nada, além de uma transferência de R$ 10,4 mil para a mãe, sobre a qual já tínhamos ciência desde o início das investigações”, reitera.

Érika Luciana Machado, de 47 anos, foi vista pela última vez em Corumbá (Foto: Reprodução)

Raio ampliado

Com base nos dados de localização obtidos, a polícia decidiu ampliar as buscas em campo. “Com o recebimento desses dados de localização, a gente ampliou o raio de busca, nós pedimos ajuda ao Corpo de Bombeiros para essa busca ampliada. Tínhamos buscado, a princípio, num raio de dois quilômetros do local onde ela havia sido vista plea última vez. Depois, ampliamos esse raio para quase 8 km”, explicou a titular.

Principal suspeita 

A suspeita da polícia era de que Érika pudesse ter entrado em uma área de mata próxima ao ponto onde o carro foi localizado. “Pensamos que ela pudesse ter se embrenhado na mata próxima ao local onde o carro dela foi localizado e que algum indício poderia ser localizado ali”.

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Foram feitas, segundo ela, buscas com cães farejadores em todo o local, mas também não houve resultado concreto. “Nem o celular, por exemplo, foi localizado”, considerou. 

“Apesar de todo esse esforço, a gente não conseguiu ainda explicar as circunstâncias do desaparecimento. Mas isso é uma questão muito importante para a polícia, porque a gente sabe do sofrimento da família, da necessidade da família de saber o que aconteceu com ela. Então, enquanto houver algum indício a ser trabalhado, algum elemento a ser entendido, nós não vamos parar de tentar”, afirmou Lope antes de reiterar que a polícia segue ouvindo todas as pessoas ligadas a Érika. 

Desaparecimento misterioso

A Polícia Civil trabalha, entre as hipóteses, com a possibilidade de que o desaparecimento de Érika tenha ocorrido de forma voluntária. Familiares e amigos relataram que, antes do sumiço, a biomédica demonstrava o desejo de se afastar da rotina e chegou a dizer, em diferentes momentos, que “queria sumir”.

Érika foi vista pela última vez ao sair da casa da mãe, em Alexânia, para comprar ração para os cachorros e verificar o farol do carro. Horas depois, o veículo foi encontrado abandonado, com pane mecânica, em Corumbá de Goiás. Antes disso, ela pediu ajuda a um mecânico e gravou um áudio considerado tranquilo pela polícia. “Ela não disse nada desconexo, não aparentava estar em surto”, afirmou a delegada.

O depoimento da mãe também reforçou a hipótese considerada pela polícia. Érika teria pedido a mãe que não se preocupasse com o almoço, pois poderia “demorar um pouco” porque queria “espairecer a cabeça”.

SAIBA MAIS:

Mais tarde, foi percebida pela família uma transferência de R$ 10,4 mil para a conta da mãe, feita pouco antes do sumiço. O envio do valor à conta da mãe é tratado pela polícia como possível indicativo de planejamento. “Isso leva a crer que ela não queria deixá-la desamparada”, considerou a delegada à reportagem.

Ferramenta do CNMP oferece estatísticas sobre desaparecimentos (Foto: Reprodução)

Abalo emocional

Relatos de amigos próximos indicam que Érika estava muito abalada emocionalmente e dizia que precisava de um tempo para refletir sobre a vida, chegando a comentar que queria “se enfiar no mato para pensar”. Em Corumbá de Goiás, uma moradora chegou a abordá-la, mas Érika não se identificou corretamente e afirmou ser amiga de vizinhos da região.

Uma possível pista chegou a ser analisada após câmeras de segurança registrarem uma mulher caminhando pela BR-414, entre Planalmira e Anápolis. A princípio acreditava-se que a mulher vista na rodovia era Érika, mas a possibilidade foi descartada após as imagens passarem por uma avaliação técnica. Apesar disso, a polícia afirma que nenhuma linha de investigação foi encerrada e que as buscas continuam sem prazo para terminar.