CASOS FAMOSOS

‘Corumbá’ e ‘Maníaco de Goiânia’ podem deixar cadeia em breve

José Vicente Mathias e Tiago Henrique Gomes da Rocha voltaram ao imaginário da população após a prisão de Rildo Soares dos Santos, serial killer de Rio Verde

Tiago Henrique e José Vicente Mathias: criminosos famosos de Goiânia (Fotos: Reprodução)
Tiago Henrique e José Vicente Mathias: criminosos famosos de Goiânia (Fotos: Reprodução)

Sinônimo de medo e terror, os serial killers voltaram ao imaginário da população com a prisão e condenação de Rildo Soares dos Santos, de 33 anos, em série de Rio Verde, no sudoeste goiano. De acordo com a Polícia Civil de Goiás (PCGO), o criminoso praticou uma série de feminicídios e homicídios violentos no município e em outros Estados.

Preso desde o último dia 12 de setembro, Rildo foi condenado a 133 anos de prisão pelo assassinato de Elisângela Silva de Souza, Alexania Hermogenes Carneiro e Monara Pires Gouveia de Moraes. Os julgamentos das vítimas, que foram mortas entre julho e setembro desde ano, foram realizados em dezembro pelo Tribunal de Justiça de Goiás.

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As condenações refletiram em outros casos semelhantes, como os seriais killers Francisco de Assis Pereira, conhecido como “Maníaco do Parque”, José Vicente Mathias, o “Corumbá”, e Tiago Henrique Gomes da Rocha, o “Maníaco de Goiânia” – esse último considerado o maior matador do país nas últimas seis décadas.

Preso há anos, Francisco deve voltar a viver em sociedade em agosto de 2028 após cumprir 30 anos de prisão – pena máxima em vigor na época em que foi condenado. Atualmente, o detento pode ficar até 40 anos recluso, como é o caso de “Corumbá” e Tiago, que devem deixar a cadeia em 2038 e 2044, respectivamente.

A defesa de “Corumbá”, inclusive, chegou a tentar adiantar a liberdade do criminoso, tentando mudar a pena dele do regime fechado para semiaberto, conforme documento sigiloso ao qual a reportagem teve acesso. As quatro manobras protocoladas pela defesa em 2022, porém, foram negadas pela justiça entre 15 de fevereiro e 29 de novembro de 2024.

“Mesmo tendo penas astronômicas, que excedem o previsto em lei, o criminoso pode ser solto se houver uma progressão de regime. Ou seja, ele passa de um regime fechado para o semi-aberto, e de um semi-aberto para um regime aberto. Vai depender da situação”, explica o juiz de direito, Jesseir Coelho.

O fato de, em breve, ter dois dos serial killers mais famosos do país nas ruas deixa as famílias das vítimas apreensivas. Uigvan Filho, irmão da vítima Ana Maria Victor Duarte, morta por Tiago Henrique em março de 2014, aos 26 anos, em Goiânia, acredita que a soltura dos criminosos irá provocar medo e pânico na população, que “ficará refém desses indivíduos”.

“Nós, familiares das vítimas que foram assassinadas pelo Tiago, não vemos com bons olhos quando um serial killer, não só como o Tiago, mas também como o Corumbá, seja colocado em liberdade”, afirma o filho do procurador de Justiça aposentado, Uigvan Pereira Duarte.

Embora haja um histórico de criminosos notórios voltando ao convívio social, Uigvan acredita que as chances da dupla voltar às ruas é escassa. Para ele, tanto Tiago quanto “Corumbá” devem ficar atrás das grades como ocorreu com Roberto Aparecido Alves Cardoso – o Champinha.

Atualmente com 38 anos, o assassino do casal de estudantes Liana Friedenbach e Felipe Caffé está encarcerado desde que tinha 16 anos. Com o auxílio de outros três comparsas, ele sequestrou e matou os jovens, sendo que Liana também foi vítima de estupro e cárcere privado. Internado desde 2006, Champinha foi impedido de voltar à sociedade devido a problemas psicológicos.

“Acredito que a justiça vai mantê-los encarcerados sempre que for necessário e vai se basear em laudas e perícias médicas e psiquiátricas para esse fim”, reforça Uigvan.

Homem conhecido como serial killer de Rio Verde é condenado a 71 anos em novo júri
Rildo Soares dos Santos, 33 anos (Divulgação PCGO)

O que é um serial killer?

O advogado criminalista e ex-delegado-geral da PCGO, Edmundo Dias, explana sobre o que é ser um serial killer. De acordo com ele, os criminosos que se enquadram neste perfil são assassinos que praticam homicídios violentos em série, por períodos prolongado e com intervalos – conhecido pela ciência penal como esfriamento (estratégico).

Esses criminosos também são conhecidos pela expertise. Conforme Edemundo, os serial killers usam artifícios para não serem apanhados pelas forças de segurança, como uma espécie de estratégia de defesa. Nesses casos, é necessário uma investigação criteriosa e zelosa para formar convicção em cada caso, como observado no caso Tiago Henrique. O caso é considerado o mais complexo da história de Goiás.

“São criminosos com características complexas, multifacetadas, ‘inteligentes’, hábeis na arte de escamotear seus ilícitos. Por isso, normalmente podem sofrer de algum tipo de patologia, ou psicopatologia, em face de traumas anteriores. Quando são perpetradores de crimes sexuais ou abusos semelhantes, provavelmente, também foram vítimas desse tipo de abuso na infância”, conta.

Um dos fatos que podem levar uma investigação a levantar a hipótese de um serial killer é a forma como os crimes são praticados. O serial killer, na maioria dos casos, usa um padrão para suas ações, de acordo com o advogado. Eles agem com requintes de crueldade, gostam de acompanhar o próprio caso e se deliciam em serem admirados, visto que são narcisistas e ególatras.

Quando detidos, esses criminosos tendem a alegar insanidade mental ou patologias. Porém, o fato de serem hábeis em ocultar provas e não deixar rastros, além do modus operandi de destruir evidências e escolher as vítimas vulneráveis e o local para agir são alguns dos elementos usados para inibir essa teoria.

“Confissões parciais e dirigidas, revelam apenas parte do crime para negociar com os investigadores e evitar investigações mais aprofundadas. São muito espertos para fugir da lei, mudar de local de moradia ou residência, emprego, cidade ou até de país, inclusive mudando a própria identidade e documentos pessoais”, concluiu Edemundo.

Caso Tiago Henrique

O vigilante Tiago Henrique Gomes da Rocha, que ficou conhecido como o “Manico de Goiânia”, foi preso em 14 de outubro de 2014. Assassino confesso de 39 pessoas, entre moradores de rua e mulheres, foi condenado a quase 700 anos de prisão.

Quando foi preso, o matador tinha 26 anos de idade. Hoje, ele está com 37 e pode ganhar a liberdade quando atingir os 56. Condenado por 35 assassinatos, entre vítimas mulheres e pessoas em situação de rua, Tiago viveu a última década numa cela isolada do Núcleo de Custódia do Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia.

Os assassinatos cometidos por Tiago, em Goiânia, desafiaram o trabalho da polícia. De janeiro a agosto de 2014, ele matou 16 pessoas, sendo 15 mulheres, de 13 a 28 anos, e um homem de 51. Ele ficou conhecido como o motoqueiro matador, que saía pela cidade de moto, em busca de vítimas em lugares, como bares, pontos de ônibus, praças, ruas e avenidas vazias, e até dentro de carros no semáforo.

Tiago era vigilante, já havia trabalhado para, pelo menos, três empresas de segurança terceirizada em Goiânia e confessou não só os crimes ocorridos em 2014, mas também assassinatos de anos anteriores, chegando a um total de 39 vítimas. O caso teve repercussão internacional.

Caso “Corumbá”

Nascido em Firminópolis, a 120 quilômetros da capital, José Vicente Matias, o “Corumbá”, confessou ter matado seis mulheres entre 1999 e 2005 em rituais macabros. Durante um dos julgamentos, ele confessou que bebeu o sangue e comeu o cérebro de uma turista alemã que matou na região dos Lençóis Maranhenses.

Corumbá era artesão e tinha, na época, 38 anos. Os crimes praticados por ele misturavam violência, canibalismo e banhos de sangue. De acordo com o criminoso, as barbáries tinham um mandante sobrenatural: o diabo.

A maioria das vítimas do goiano eram turistas estrangeiros e os assassinatos foram cometidos em locais turísticos, com paisagens paradisíacas. As investigações constataram que as mulheres foram mortas com golpes na cabeça e os corpos foram deixados em locais próximos de água, como córregos e praias.

Corumbá foi diagnosticado com transtorno de personalidade anti-social, conforme laudo psiquiátrico. Esse distúrbio é caracterizado pelo desprezo por outras pessoas. A doença seria potencializada com o uso de drogas alucinógenas, como chá de cogumelo. Ele foi preso na noite de março de 2005 em Bragança, no Pará, depois de denúncia anônima. Ao todo, as condenações somaram 91 anos.

Caso “Maníaco do Parque”

Emblemático, o caso Francisco de Assis Pereira, o “Maníaco do Parque”, chegou a virar filme. Lançado há pouco mais de um ano, o longa conta a história do motoboy que se passava por fotógrafo, acusado e condenado por estuprar e matar mais de 10 mulheres no Parque do Estado, em São Paulo.

Além de misturar fatos verídicos e fictícios, o filme traz à tona a soltura do serial killer, que deve voltar a viver em sociedade em agosto de 2028 após cumprir 30 anos de prisão – pena máxima em vigor na época em que foi condenado. Atualmente, o detento pode ficar até 40 anos recluso.