Estudante denuncia injúria racial em grupo de basquete e pede R$ 60 mil, em Goiás
Denunciado nega a acusação: "Campanha de calúnia e difamação iniciada por um antigo companheiro de time"
O estudante e atleta Papa Dieng Augusto Ndiaye pede R$ 60 mil de indenização por danos morais na Justiça em uma ação contra um advogado por suposta injúria racial em um grupo de WhatsApp de basquete universitário em Goiás. O processo recente, que tramita na 5ª UPJ das Varas Cíveis da capital, cita que o episódio aconteceu em 27 de abril deste ano. Já o acusado nega e afirma se tratar de “uma campanha de calúnia e difamação iniciada por um antigo companheiro de time”, com uma frase tirada de contexto (confira a posição completa mais à frente).
Consta na peça que o advogado teria enviado uma foto do estudante no grupo “Basquete Masculino | Herdeira”, associando a imagem dele à ideia de perigo. As mensagens foram apagadas, conforme a petição. Além da ação, o jogador também registrou boletim de ocorrência junto à Polícia Civil.
LEIA TAMBÉM:
O estudante ainda pede à Justiça que determine ao acusado fazer uma retratação no grupo, bem como medidas cautelares. Entre elas, a proibição de contato, restrição de acesso a eventos esportivos universitários ligados à Universidade Federal de Goiás (UFG) e bloqueio de valores para garantir eventual condenação.
Advogado da vítima, Guilherme Nogueira Sagrillo disse que “dar visibilidade ao caso tornou-se ainda mais necessário diante de táticas de assédio processual que se seguiram. O racismo não se sustenta apenas na ofensa, mas na covardia do silenciamento — na tentativa de descredibilizar, ameaçar e calar as testemunhas que têm a coragem de não se omitir”. Ainda segundo ele, o intuito em divulgar o ocorrido é “promover conscientização, visibilidade e enfrentamento ao racismo, reafirmando o compromisso ético de que o silêncio não será a resposta”.

Notas de repúdio
Por meio de nota, a Associação Atlética Acadêmica Unificada da EMC repudiou a situação sofrida pelo atleta. “Não há espaço para atitudes racistas dentro do esporte, da universidade ou de qualquer ambiente da sociedade. O esporte universitário deve ser um espaço de respeito, união, competitividade saudável e inclusão, jamais de violência, discriminação ou preconceito.”
Da mesma forma, a Associação Atlética Acadêmica da Faculdade de Administração, Ciências Contábeis e Ciências Econômicas declarou apoio à vítima e enfatizou que “o racismo é crime e deve ser combatido de forma firme, coletiva e contínua”. “Ressaltamos ainda a importância da denúncia como instrumento de enfrentamento na luta contra o racismo.”
Outro lado
O advogado disse ao Mais Goiás que o episódio se trata de “uma campanha de calúnia e difamação iniciada por um antigo companheiro de time. Eu nunca tive tive qualquer contato, presencial ou virtual, com o atleta Papa Dieng e nem o conhecia até o momento em que fiz um comentário, no contexto esportivo de um adversário no próximo jogo, que ele parecia perigoso para o nosso time”.
Ele esclarece que o comentário fazia referência a altura e ao porte físico do referido atleta e nenhum colega havia interpretado qualquer intenção injuriosa naquele momento. Ainda segundo ele, todos as mensagens tecidas no grupo pelos seus membros faziam referência exclusivamente a habilidade esportiva do jogador, que destoava de sua aparência física, sem o procedimento de qualquer ofensa.
“No entanto, um colega mal intencionado utilizou do episódio para me prejudicar e me remover do time, já que tínhamos um histórico de inimizade pessoal. Depois de uma campanha da organização do time de resolver o problema entre mim e o desafeto, apaguei todas as mensagens e encaminhei mensagem de desculpas escritas pela própria diretoria, que pediu para mim encaminhar tal mensagem em prol do time”, continuou.
Ele afirma que o “desafeto” continuou insatisfeito com o resultado e printou mensagens sem nexo, que haviam sido apagadas parcialmente e as levou pessoalmente ao atleta Papa Dieng, que seria o adversário. “Em resultado, o Papa Dieng fez POST pessoal afirmando que havia sido injuriado em razão da sua cor, o que nunca aconteceu. Na verdade, ocorreu uma espécie de ‘telefone sem fio’ onde um terceiro manipulou mensagens para parecer que eu havia injuriado o atleta adversário.”
Ele seguiu: “Me surpreendeu muito que o Papa Dieng tenha se sentido ofendido, mas não tenho como saber quais foram as mensagens/informações passadas a ele, já que estas foram manipuladas por terceiro que as levou pessoalmente a ele. Por fim, ressalto que tudo isso não passa de um escárnio público resultado de uma posição política extremista de aluno(s) da UFG que devem estar incentivando Papa Dieng a dar continuidade a essas supostas ofensas que teriam ocorrido por telefone sem fio.”
O advogado disse, ainda, que irá apresentar pedido de reconvenção na esfera cível, requerendo que os agentes responsáveis o indenizem financeiramente quanto a todo esse episódio. “Da mesma forma, irei apresentar queixa-crime por calúnia e difamação contra o referido mal afeto pessoal e, infelizmente, também contra o Papa Dieng, o qual eu não conheço e nunca troquei qualquer palavra virtual ou presencial.”
Nota da defesa do atleta completa
“Na qualidade de advogado da vítima, e com sua expressa autorização, apresento este esclarecimento público acerca das providências judiciais tomadas contra (…), advogado e aluno da UFG, em razão de fatos que envolvem manifestações de cunho racista ocorridas no ambiente esportivo universitário.
No dia 27 de abril de 2026, em ambiente esportivo universitário, ao comentar uma fotografia da vítima, o requerido declarou que o estudante, jovem negro, “parecia perigoso” e justificou a fala afirmando que se referia ao “contexto de ver a noite na esquina”, mas que “ficou com medo do cancelamento”.
A divulgação desta nota respeita o devido processo legal e a presunção de inocência, não possuindo fins de autopromoção. Trata-se de uma decisão construída conjuntamente com a vítima diante da gravidade dos fatos relatados e da urgência de ampliar o debate público sobre práticas discriminatórias que ainda são naturalizadas.
Reforçando a necessidade de uma resposta coletiva, enaltecemos o posicionamento das entidades universitárias: a Atlética Herdeira (FACE) repudiou as mensagens e desligou o ofensor de seus quadros, enquanto a Atlética Emissiva manifestou apoio incondicional à vítima, reafirmando o esporte como espaço de inclusão.
Dar visibilidade ao caso tornou-se ainda mais necessário diante de táticas de assédio processual que se seguiram. O racismo não se sustenta apenas na ofensa, mas na covardia do silenciamento — na tentativa de descredibilizar, ameaçar e calar as testemunhas que têm a coragem de não se omitir.
O propósito desta publicação é promover conscientização, visibilidade e enfrentamento ao racismo, reafirmando o compromisso ético de que o silêncio não será a resposta.”