Goiânia registra três casos de violência contra o idoso por dia
Principais crimes são abandono, maus-tratos e exploração financeira
A tortura praticada contra um idoso de 86 anos por parte de um cuidador, em Goiânia, ganhou repercussão nacional em março depois da agressividade ser flagrada por câmeras de segurança. Os crimes ocorriam há, pelo menos, três meses, segundo a Polícia Civil (PC).
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O fato, porém, não é um caso isolado e reflete a violência vivida pelos idosos. Apenas Goiânia, por exemplo, foi responsável por 4.236 denúncias de crimes contra a pessoa idosa entre 2023 e 2026. O ano com o maior número de registros na Delegacia Especializada no Atendimento ao Idoso (Deai) foi 2023, com 1.551 acionamentos.
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O ranking é completado por 2024 (1.538) e 2025 (1.444). Em 2026, até o início de março, a especializada contabilizou 219 registros. Ou seja, uma média de 3 casos por dia. Os registros levam em conta boletins de ocorrências registrados diretamente na delegacia e outros canais, como denúncias por meio do Disk 100.
“Entre os principais crimes estão o abandono de incapaz e os maus-tratos. Os maus-tratos acontecem com muita frequência, em razão de que não estão relacionados apenas à questão física, mas psicológica também. Dentro desta questão psicológica, temos outros crimes, como a injúria, difamação e calúnia em razão da sua condição”, explica o delegado Alexandre Bruno, titular da Deai.
Alexandre diz que o idoso não sofre apenas fisicamente, mas também mentalmente devido à falta de cuidado e atenção por parte dos responsáveis. Ou seja, a carência afetiva também é uma realidade presente na vida da terceira idade vítima de violência.
Além disso, o grupo também está sujeito a exploração financeira, considerado um crime recorrente. Segundo o delegado, os idosos costumam se aposentar com valores considerados baixos e, em alguns casos, são dependentes de parentes, como filhos e netos.
Os descendentes, no entanto, costumam se apoderar do cartão das vítimas, desviando os recursos e impossibilitando o idoso de se manter com dignidade. Em alguns casos, também realizam empréstimos em nome das vítimas.
“O idoso já não tem mais aquela mobilidade de ir ao banco, a capacidade de se antenar a tecnologia para conseguir cuidar da conta. Essas pessoas aproveitam para pegar o dinheiro do idoso, comprometendo seus proventos”, reforça.
Penas baixas
O alto índice de crimes, porém, pode estar relacionado às penas brandas. Para se ter uma ideia, os três crimes mais frequentes, juntos, chegam a pouco mais de 10 anos de reclusão. Para o delegado, é preciso uma reformulação no Estatuto do Idoso.
“Normalmente esses crimes são praticados por parentes, que estão ligados ao idoso. Pessoas que por covardia, egoísmo e falta de justiça agridem o idoso, o exploram financeiramente. As vítimas, tanto homens quanto mulheres, são pessoas que dependem dos seus familiares, que já perderam a capacidade de locomoção e raciocínio lógico”, conta.
O investigador diz que as denúncias de crimes envolvendo a pessoa idosa podem ser realizadas pelo Disque 191, além de presencialmente na especializada ou em qualquer delegacia da região. Outras corporações como a Polícia Militar (PM) também podem ser procuradas. As denúncias, inclusive, podem ser realizadas de forma anônima.
“O combate tem as suas dificuldades, principalmente da notícia-crime chegar até a polícia. As pessoas precisam aderir a cultura de denúncias dessas práticas para a polícia, porque vamos chegar com certeza”, concluiu.