SUPERAÇÃO

Atleta quilombola supera depressão e alcança 22 pódios em nove meses em Goiânia

Elizângela encontrou na corrida uma aliada no tratamento contra depressão

Elizângela corre desde julho de 2025 (Foto: reprodução)

A trajetória de Elizângela Alves da Conceição, 31 anos, é marcada por superação, disciplina e coragem. Natural da comunidade Kalunga Vão do Moleque/Prata, no Território Kalunga, ela venceu um quadro de depressão e encontrou na corrida um novo sentido para a vida. Em nove meses de dedicação, passou a se destacar nas competições e já soma 22 pódios em 22 provas no esporte.

“Quando comecei a correr, entendi que correr é não desistir. Você está cansado, mas, quando chega, o cansaço passa. Corro para me libertar, superar meus limites”, conta. A prática se tornou uma importante aliada no tratamento da depressão. “A corrida não substitui o medicamento, mas ajuda muito, é um conjunto. Quando eu corro, alivia minha alma”, contou ao Mais Goiás.

(Foto: divulgação)

Criada na roça, em uma família com 12 filhos, filha de agricultores com pouco acesso à educação, começou a trabalhar cedo, limpando casas. Ainda na adolescência, decidiu que queria trilhar um caminho diferente.

Mudou-se para Goiânia aos 16 anos, depois de passar um período em Brasília. Na capital goiana, conseguiu se desenvolver profissionalmente, superando as dificuldades financeiras enfrentadas desde a infância. Com esforço, foi aprovada em um concurso da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares.

Convocada em 2018, atua como técnica em farmácia no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás (HC-UFG) há mais de uma década. “Passei muita dificuldade, mas nunca desisti de estudar”, afirma.

Traumas de infância, aborto e fim de relacionamento

Elizângela também enfrentou traumas na infância, incluindo mágoas relacionadas à forma como era tratada pela mãe. Com o tempo e terapia, conseguiu ressignificar essas dores. Segundo ela, entendeu que a mãe reproduzia vivências difíceis que também enfrentou ao longo da vida.

Em 2024, passou pela perda de uma gestação, após um aborto retido, e posterior fim de um relacionamento abusivo, o que desencadeou uma crise profunda. Segundo ela, a fase delicada agravou um quadro depressivo que já existia.

Morando sozinha, contou com o apoio de colegas de trabalho, que a encaminharam para atendimento psiquiátrico. Durante o tratamento, fez uso de medicação e chegou a se afastar das atividades profissionais.

(Foto: reprodução)

Por recomendação médica, a farmacêutica, que já praticava musculação para controlar a ansiedade, começou a correr em praças em julho de 2025. Em 16 de agosto do mesmo ano, disputou sua primeira prova de rua. Foi nesse momento que percebeu sua evolução e decidiu investir no esporte. Procurou orientação profissional para estruturar os treinos e passou a participar de competições regularmente.

O impacto foi transformador. Desde que passou a se dedicar ao esporte, Elizângela afirma que não voltou a ter pensamentos negativos.

“Hoje eu entendo que sou capaz, basta acreditar. A corrida me ensinou isso, me ajuda a acalmar a mente e a pensar com mais clareza; minha história é de superação, sei de onde vim e o que me tornei é mérito meu, sem apoio, foi na raça, e acho que por isso me dou bem na corrida”, pontua.

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