Com 100 anos de carreira somados, irmãos pilotos mantêm legado do pai em Goiânia
Quatro décadas após a morte do pai, irmãos Ferreira preservam e ampliam o legado da aviação civil goiana
A aviação não foi apenas uma escolha profissional para os irmãos Ferreira, foi destino traçado desde a infância. Filhos do comandante José Alves Ferreira, conhecido como comandante Zezé, eles cresceram entre hangares de Goiânia, motores e pistas de pouso. Hoje, Luiz Antônio e Zezil Ferreira somam juntos 100 anos de carreira e mantêm vivo o legado iniciado pelo pai há mais de meio século.
Os irmãos, que fazem aniversário com apenas uma semana de diferença, comemoram juntos nesta quinta-feira (26) mais um ano de vida e de carreira. Luiz Antônio completa 80 anos de vida, sendo 63 deles dedicados à aviação. Já Zezil celebra 55 anos, com 37 anos de atuação na profissão. Somados, são 135 anos de vida e um século de dedicado à aviação.

“Desde criança, a gente já convivia com os aviões. A casa do meu pai, dos meus tios, tudo era aviação. A gente não decidiu virar piloto, fomos criados para isso”, contou Zezil à reportagem. Ele morou cerca de três anos no Tocantins. Já Luiz Antônio passou um período em São Paulo, mas a base da família sempre foi Goiânia.
Além da atuação na aviação executiva, Zezil também cria conteúdo nas redes sociais desde 2022. O perfil do comandante conta com mais de 200 mil seguidores e acumula milhões de visualizações em vídeos sobre a rotina dentro da cabine e curiosidades da aviação.

A ideia surgiu de forma despretensiosa, após uma amiga relatar medo de voar. “Ela falou que tinha muito medo. Eu gravei um vídeo dentro da cabine para ela ver como funciona a rotina. Ela assistiu, voou mais tranquila e me deu um retorno muito positivo. Aí sugeriu que eu postasse”, conta.
Desde então, ele passou a produzir conteúdo com frequência, respondendo dúvidas dos seguidores e explicando procedimentos da aviação. “O canal é para tirar o receio das pessoas que não conhecem a aviação, mostrar que não é um bicho de sete cabeças e também incentivar jovens a seguir a carreira.”
Requisitos para se tornar piloto
Para quem pensa em atuar na área, o piloto reforça que é preciso muita dedicação. Segundo ele, nos próximos anos o mercado deve enfrentar escassez de profissionais.
Zezil destaca ainda que, especialmente no início da trajetória, é necessário praticamente dedicar a vida à aviação. “A língua inglesa bem falada e bem escrita é fundamental também. Vale tanto quanto as próprias habilitações de piloto”, ressalta.

Um legado que começou com o comandante Zezé
Nascido em Morrinhos (GO), em 14 de abril de 1924, José Alves Ferreira demonstrava, ainda na adolescência, aptidão por máquinas, motores e velocidade. Tornou-se aviador pelo Aeroclube de Ituiutaba (MG) e, em 1942, iniciou a carreira como piloto do Governo de Goiás, voando com diversos governadores a partir de Pedro Ludovico.
Ao longo das décadas seguintes, participou de momentos históricos, incluindo o período de criação de Brasília e a construção da rodovia Belém-Brasília.
Na década de 1960, fundou a Escola Técnica de Aviação Civil de Goiás (Etago) e criou o Aeródromo Nacional de Aviação (ANA), na saída para Inhumas. O espaço se tornou referência nacional em movimento de tráfego aéreo e número de aeronaves, além de formar grande parte dos pilotos e mecânicos que impulsionaram a aviação civil goiana. O comandante faleceu em novembro de 1983, quando Zezil tinha apenas 12 anos.

A convivência com a aviação desde cedo fez com que os irmãos seguissem naturalmente a profissão. Zezil se tornou piloto ainda jovem e, aos 19 anos, protagonizou um episódio que marcou sua trajetória.
Ele estava em Araguaína, no Tocantins, quando precisou transportar o então governador do Estado após a morte de um prefeito no interior. Os pilotos mais experientes não estavam disponíveis no momento e se tratava de uma urgência.
“Falaram que eu servia. Eu estava no monomotor, tinha acabado de virar piloto. Fizemos um voo, depois outro. Pouco tempo depois já me colocaram no bimotor e, em seguida, no turboélice do governador. Eu virei piloto de turboélice muito novo por causa disso”, conta.

Aviação executiva e ausência de rotina
Hoje, os irmãos atuam na aviação executiva. Na dinâmica da cabine, a hierarquia é clara, independentemente da idade ou do tempo de experiência. “Quem está sentado à esquerda é o comandante e tem a palavra final. Mesmo meu irmão tendo mais experiência, a gente respeita isso. Cada um faz sua função. Isso é gerenciamento de cabine”, explica Zezil.
Diferente de como acontece nas companhias aéreas, os voos executivos são definidos conforme a demanda dos proprietários das aeronaves, por isso, o trabalho não tem uma rotina específica. “Tem semana que a gente não está nem no Brasil. Você pode trabalhar no fim de semana, no Natal, no aniversário. Não é só profissão, é vocação.”
- ‘Meu sonho é voltar a correr’: conheça doença rara que deixou goiana tetraplégica 5 vezes em 17 anos
Histórias marcantes
Entre as experiências que marcaram sua trajetória, Zezil relembra o traslado de uma aeronave da China para o Brasil, uma viagem que durou 15 dias e incluiu uma parada forçada na Mongólia, com temperaturas de 18 graus negativos, enquanto aguardava autorização para cruzar o espaço aéreo do Cazaquistão.
“O avião tinha acabado de receber prefixo brasileiro e estava saindo da China para o Brasil, passando pela Rússia. Foram dias de espera para autorização. Quase não sai”, conta. Desafios como esse, segundo ele, fazem parte da essência da profissão. “Aviação é arte, é vocação. Você vive aquilo tudo.”
Quatro décadas após a morte do comandante Zezé, o legado permanece vivo em Goiânia, agora conduzido pelos filhos que somam um século de experiência e seguem inspirando novas gerações.