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Como césio-137 em Goiânia pôs Brasil no mapa de piores acidentes radioativos do mundo

Acidente já foi considerado o pior desastre nuclear do mundo desde Chernobyl, em 1986

Como césio-137 em Goiânia pôs Brasil no mapa de piores acidentes radioativos do mundo desastre nuclear do mundo desde Chernobyl
Césio-137 (Foto: Reprodução)

No acampamento montado em um campo de futebol, mais de 110 mil pessoas foram examinadas para identificar possíveis contaminados. Em setembro de 1987, dois catadores de lixo em Goiânia entraram em uma clínica abandonada e encontraram um equipamento que mudaria a história da cidade. Sem saber do perigo, Wagner Pereira e Roberto Alves desmontaram a máquina — uma unidade de radioterapia usada no tratamento contra o câncer — e levaram parte dela para casa em um carrinho de mão.

Ao abrirem a estrutura com ferramentas simples, encontraram um cilindro contendo cerca de 19 gramas de césio-137, uma substância altamente radioativa. O episódio daria origem ao maior acidente radiológico da história fora de uma usina nuclear, comparado, em gravidade, ao Desastre de Chernobyl.

A história voltou a ganhar destaque com a série Emergência Radioativa, lançada recentemente pela Netflix.

Foto: Reprodução TV Globo

O início da contaminação

Após encontrarem o material, os catadores venderam a cápsula a um ferro-velho pertencente a Devair Ferreira. Em pouco tempo, ambos começaram a apresentar sintomas como vômitos, diarreia, tontura e inchaço — inicialmente confundidos com intoxicação alimentar.

Dias depois, ao observar um brilho azul vindo do material, Devair ficou fascinado. Acreditando se tratar de algo valioso ou até sobrenatural, levou o conteúdo para casa e passou a mostrá-lo a vizinhos e familiares.

Fragmentos do material foram retirados e distribuídos. Algumas pessoas chegaram a esfregar o pó no corpo, como se fosse brilho de Carnaval — o que acelerou ainda mais a contaminação.

Foto: Reprodução Alego

A descoberta do risco

O caso começou a mudar quando María Gabriela Ferreira, esposa de Devair, desconfiou da origem dos sintomas. Ela colocou o material em um saco plástico e o levou de ônibus a um órgão de saúde. Ainda assim, ninguém sabia do que se tratava.

Com o aumento de casos graves, médicos passaram a considerar a hipótese de contaminação por radiação. O físico Walter Mendes Ferreira foi acionado para investigar.

Ao se aproximar do local com um detector, percebeu níveis extremamente elevados de radiação. Ele evitou que o material fosse descartado de forma inadequada e acionou autoridades, incluindo a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), dando início à operação de contenção.

Vista do ferro-velho onde estava o material radioativo em Goiânia – Foto: CNEN

Pânico e operação de emergência

Com o risco confirmado, foi montada uma grande operação emergencial. Um estádio de futebol foi transformado em centro de triagem, onde milhares de pessoas passaram por exames.

No total, mais de 110 mil pessoas foram avaliadas. Destas, 249 apresentaram níveis significativos de contaminação.

Centenas de pessoas precisaram permanecer isoladas em abrigos, passando por rigorosos processos de descontaminação, que incluíam banhos constantes com água, vinagre e sabão, além da troca frequente de roupas.

Casos mais graves foram encaminhados a hospitais especializados, inclusive no Rio de Janeiro.

Foto: Arquivo – Governo de Goiás

Impacto na cidade

O acidente gerou pânico generalizado. Casas foram demolidas, objetos pessoais destruídos e áreas inteiras isoladas. Ao todo, cerca de 6 mil toneladas de resíduos contaminados foram recolhidas e enterradas em local apropriado fora da cidade.

A desinformação agravou a crise, levando muitas pessoas a acreditarem que toda a cidade e até produtos agrícolas estavam contaminados — o que não era verdade.

As vítimas

A primeira morte foi a da menina Leide das Neves Ferreira, de seis anos, que teve contato direto com o material e chegou a ingerir parte dele. Ela morreu semanas depois, vítima de infecção generalizada.

Outras três pessoas também morreram em decorrência da contaminação.

O enterro das vítimas foi marcado por medo e revolta. Moradores tentaram impedir o sepultamento, temendo a propagação da radiação, mesmo com o uso de caixões especiais revestidos com chumbo.

Leide das Neves – Foto: Reprodução

Consequências

Anos depois, responsáveis pela clínica onde o equipamento foi abandonado foram condenados por negligência. As penas acabaram convertidas em serviços comunitários.

O governo brasileiro passou a pagar pensões vitalícias às vítimas diretas e, posteriormente, ampliou o benefício para trabalhadores que atuaram na contenção do acidente.

Apesar da tragédia, muitas vidas foram salvas graças à rápida mobilização de profissionais de saúde e especialistas.

O acidente com o césio-137 em Goiânia permanece como um marco na história mundial, evidenciando os riscos do descarte inadequado de material radioativo e a importância da informação em situações de crise.

O chão de um bar também contaminado com radiação em Goiânia – Foto: CNEN
No acampamento montado em um campo de futebol, mais de 110 mil pessoas foram examinadas para detectar quem estava contaminado – Foto: CNEN

*Esta reportagem foi adaptada a partir de depoimentos dados a Thomas Pappon, do programa de rádio Witness, do BBC World Service.