Quinta-feira, 20 de Agosto de 2026
HISTÓRIA DE GOIÂNIA

Francisco Ludovico, o médico que vendeu a TV Anhanguera para realizar sonho de construir hospital

Francisco Ludovico deixou o setor de comunicação e reuniu recursos da família e da comunidade para abrir o Santa Genoveva

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
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Francisco Ludovico, médico e fundador do Hospital Santa Genoveva, em Goiânia (Foto: Reprodução/UFG)

Na Goiânia dos anos 1960, o asfalto acabava antes do terreno onde Francisco Ludovico de Almeida Neto queria construir um hospital. Para iniciar a obra, o médico vendeu a Rádio e a TV Anhanguera ao grupo de O Popular, dirigido por Jaime Câmara, por 8 milhões de cruzeiros. A quantia não concluiu o projeto, que ainda exigiu a venda de um armazém, duas fazendas da família, participações comunitárias e empréstimos. Aberto em 1970 com 20 apartamentos e cinco médicos, o Santa Genoveva tornou-se referência em cardiologia e transplantes antes de fechar em 2017.

O sonho começou com uma faculdade de medicina

Francisco Ludovico fundou a Faculdade de Medicina de Goiás e o Hospital Santa Genoveva (Foto: Reprodução/Cremego)
Francisco Ludovico fundou a Faculdade de Medicina de Goiás e o Hospital Santa Genoveva (Foto: Reprodução/Cremego)

Depois de se formar em medicina no Rio de Janeiro, Francisco voltou a Goiás em 1951. A mãe o convenceu a permanecer no estado e criar oportunidades para jovens que não podiam estudar fora. A mobilização resultou na Faculdade de Medicina de Goiás e colocou o médico entre os pioneiros de Goiânia reunidos pelo Mais Goiás. Em abril de 1960, o primeiro vestibular reuniu 179 candidatos, aprovou 33 e antecedeu a aula inaugural, conforme o depoimento preservado pela UFG.

Depois da faculdade, Francisco planejou um hospital de clínicas ligado ao ensino e à pesquisa, com atendimento a pacientes de diferentes faixas de renda. Ele apresentou a proposta a João Paulo dos Reis Velloso e tentou incluir o custo da construção no orçamento federal. Segundo o médico, o governo informou que não financiaria o projeto. Sem o recurso público, Francisco reduziu a escala da proposta e criou a Clínica Santa Genoveva em 1964.

Por que a televisão entrou nessa história

Francisco Ludovico ingressou no setor de comunicação em 1958, quando adquiriu a Rádio Anhanguera. Em entrevista concedida em 1996, o médico afirmou que, depois, adquiriu o negócio de televisão para a campanha estadual de 1960. Naquele ano, seu pai, José Ludovico de Almeida, o Juca Ludovico, concorreu ao governo de Goiás pelo PSP, em coligação com a UDN, mas foi derrotado por Mauro Borges, candidato do PSD.

Francisco também relatou que não recebeu os documentos de transferência dos veículos. Uma dissertação da UFG registra que, durante a campanha de 1960, dirigentes do PSD assumiram o controle da Rádio Anhanguera, que passou a apoiar Mauro Borges contra Juca Ludovico. O episódio documentado pela pesquisa envolveu especificamente a rádio, e não a TV.

Estúdio antigo da TV Anhanguera (Foto: Reprodução)

Depois das eleições de 1962, Francisco procurou Jaime Câmara e propôs a venda dos negócios de rádio e televisão. A transação, segundo o médico, só foi concluída depois de 1964. “Foi com o dinheiro dessa venda, 8 milhões de cruzeiros, que comecei a construção”, afirmou na entrevista publicada pelo Jornal Opção, em referência ao Hospital Santa Genoveva.

A TV Anhanguera entrou no ar em 24 de outubro de 1963, durante as comemorações do aniversário de Goiânia, conforme o histórico da emissora. Em 14 de janeiro de 1966, o Decreto nº 57.631 outorgou à empresa Televisão Anhanguera S.A. a concessão para operar o canal 2 em Goiânia. O documento identifica a empresa como concessionária e não registra uma concessão federal em nome pessoal de Francisco. Por isso, a formulação correta é que o médico vendeu sua participação nos negócios de rádio e televisão, e não que vendeu uma concessão registrada em seu nome.

Os 8 milhões não terminaram a obra

A primeira tentativa de financiar o hospital reuniu 720 pessoas, que compraram participações de US$ 400 divididas em 30 meses. A inflação reduziu o poder de compra do valor arrecadado e comprometeu o plano. Francisco vendeu um armazém por 27 milhões de cruzeiros, enquanto o pai negociou duas fazendas para ajudar no pagamento das dívidas. Uma das propriedades, situada em Nova Veneza, rendeu 1,2 milhão de cruzeiros e permitiu quitar compromissos bancários e adquirir equipamentos.

O terreno original tinha 123 mil metros quadrados e foi comprado de Altamiro de Moura Pacheco no Setor Santa Genoveva. A pavimentação terminava nas proximidades do Hospital Adauto Botelho, antes de chegar ao local escolhido para a construção. Jarbas Karman projetou uma estrutura modular que poderia receber novas alas conforme a demanda, segundo o histórico do hospital. Quando os atendimentos começaram, em março de 1970, apenas cinco médicos ocupavam os 20 apartamentos disponíveis.

Dos 20 apartamentos ao transplante de coração

Fachada do Hospital Santa Genoveva, em Goiânia, unidade que encerrou os atendimentos em 2017 (Foto: Reprodução/Wikipedia)
Fachada do Hospital Santa Genoveva, em Goiânia, unidade que encerrou os atendimentos em 2017 (Foto: Reprodução/Wikipedia)

O hospital alcançou 150 leitos, 20 deles de UTI, mais de 200 médicos e cerca de 300 funcionários, conforme levantamento do Mais Goiás. A unidade registrava cerca de 19 mil atendimentos anuais no pronto-socorro, 52 mil consultas ambulatoriais, 6,1 mil internações, 2,1 mil cirurgias e 4,5 mil exames. Em 1970, realizou a primeira cirurgia cardíaca com circulação extracorpórea de Goiás e, em 1974, implantou o serviço de hemodinâmica. O Santa Genoveva também recebeu o primeiro transplante de coração do estado, realizado em 1992 pela equipe de Aleksander Dobrianskyj.

A TV continuou no ar e o hospital fechou

O Santa Genoveva entrou em recuperação judicial em dezembro de 2016 e encerrou os atendimentos no ano seguinte. O grupo mantenedor pediu a própria falência, conforme publicou o Mais Goiás, e a Justiça decretou a quebra em setembro de 2019. As dívidas, superiores a R$ 40 milhões naquele período, chegaram a cerca de R$ 45,7 milhões no processo de venda do patrimônio. Em 2020, a Justiça disponibilizou o prédio ao governo de Goiás durante a pandemia, mas a necessidade de reformas impediu a retomada dos atendimentos.

Em janeiro de 2026, moradores denunciaram mato alto, cobras, escorpiões e risco de focos do mosquito da dengue no imóvel. A Secretaria Municipal de Saúde informou ao Mais Goiás que realizou três inspeções e expediu duas intimações em 2025. No mês seguinte, o complexo foi levado a leilão por R$ 28,27 milhões, equivalente a 61,7% da dívida, sem confirmação pública de arrematação. A TV Anhanguera continuou no ar, enquanto o hospital que ela ajudou a financiar permanece fechado.

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