Goiás faz 1º transplante de rim em paciente com menos de 12 anos: ‘melhor notícia do mundo’, diz mãe
Lucas, de 11 anos, recebeu órgão de doador falecido no HGG, em Goiânia. Menino estava há cinco dias na fila quando surgiu um rim compatível
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Goiás realizou o primeiro transplante de rim em uma criança com menos de 12 anos. O procedimento foi feito no Hospital Estadual Alberto Rassi (HGG), em Goiânia. O paciente é Lucas Barbosa, de 11 anos, que tem doença renal crônica desde os 10 meses de vida. O menino recebeu um rim de um doador falecido da região Sul do país e apresentou boa resposta após a cirurgia. Em cerca de 12 horas, o novo órgão já havia produzido aproximadamente três litros de urina.
O procedimento representa um marco para os transplantes pediátricos no estado. Até então, crianças com menos de 12 anos que precisavam de um novo rim eram encaminhadas para São Paulo. A família de Lucas já tinha consulta marcada no estado paulista quando o HGG avaliou o caso e decidiu realizar a cirurgia em Goiânia.
“Ele é uma criança de 11 anos. Então, querendo ou não, mesmo fazendo esse método de diálise peritoneal, tem um comprometimento ali das funções diárias. Então, você conseguir transplantar a criança nesse momento, de certa maneira, é devolver a infância para ela, deixar de fazer diálise peritoneal, poder recuperar a função do rim. O objetivo maior é esse”, explicou o médico Jhoan Rodrigues de Castro, subdiretor técnico do HGG e responsável pelo acompanhamento do menino na UTI.
Novo rim já funciona
Lucas foi levado para a UTI após a cirurgia realizada na quarta-feira (23), seguindo o protocolo adotado pelo hospital para pacientes que recebem rins de doadores falecidos. Segundo Jhoan, a resposta inicial foi positiva.
“Ele veio para a UTI ontem. A gente avalia já inicialmente se o enxerto, que é o órgão que foi implantado, está funcionando. E está funcionando muito bem: em 12 horas ele teve mais ou menos três litros de xixi. O que significa que o rim já está funcionando”, contou.

O médico disse que o menino estava consciente, comendo e conversando com a mãe. Também não apresentava febre e respirava sozinho, sem necessidade de aparelhos.
A previsão é que Lucas permaneça de três a cinco dias na UTI. Depois, deve ser levado para a ala de transplantes, onde continuará sendo acompanhado até a alta. Nesse período, a equipe também ajusta os medicamentos imunossupressores, usados para reduzir o risco de rejeição do novo órgão.
Descoberta da doença
Lucas foi diagnosticado com Síndrome Hemolítico-Urêmica ainda bebê. Segundo a mãe, Carol Cunha, ele começou a apresentar uma crise de diarreia aos 10 meses, que se agravou e levou a uma internação de cerca de dois meses na UTI do Materno Infantil.
De acordo com Jhoan, a síndrome pode aparecer depois de um quadro infeccioso e uma de suas complicações é a insuficiência renal. Algumas crianças recuperam a função dos rins, enquanto outras desenvolvem doença renal crônica.
No caso de Lucas, o problema permaneceu. Durante anos ele conseguiu manter uma rotina relativamente normal com acompanhamento médico e uso de uma medicação de alto custo. A piora veio no ano passado, quando a doença avançou para o estágio 4.
“A gente foi numa consulta de rotina e recebeu a notícia que o Lucas de estágio 1 tinha ido para estágio 4, da doença renal crônica, que não tinha mais o que fazer para ele na época”, relatou Carol.
Diálise mudou a rotina da família
Com o avanço da doença, Lucas passou a fazer diálise peritoneal em casa. O tratamento utiliza um cateter na barriga e uma máquina que funciona durante a noite.
A família precisou reorganizar os horários para que o menino pudesse continuar estudando. Carol conta que precisava antecipar as atividades do fim do dia para que Lucas estivesse pronto para começar a diálise por volta das 19h.
“Ele era ligado na máquina durante dez horas. A gente sempre tentou levar a vida dele, a rotina, o mais normal possível. Então eu tinha que sair do trabalho, ir para casa, organizar as coisas mais cedo possível para que ele pudesse já jantar, já tomar banho, para poder ligar ele na máquina e, no outro dia, a terapia ter terminado a tempo dele ir para a escola”, contou.
Quando ficou definido que Lucas precisaria de um transplante, a família começou a se preparar para buscar atendimento em São Paulo. O HGG, porém, decidiu avaliar a possibilidade de fazer o procedimento em Goiânia.
Cinco dias na fila
A família começou a fazer os exames necessários no HGG por volta de março. Quando entrou efetivamente na fila do transplante, a expectativa era de uma espera que poderia durar de sete meses a um ano. Lucas esperou cinco dias.
Segundo Carol, ela estava no trabalho quando recebeu a ligação informando que havia um órgão compatível.
“Como só tinha cinco dias, o meu telefone tocou, eu estava no trabalho. Eu não acreditava. Eu ajoelhei no chão, eu caí. Eu só sabia chorar. Pedia desculpa para quem estava do outro lado da linha, que eu não conseguia falar, porque a emoção era muito forte. Nunca na minha vida eu imaginava que sairia com apenas cinco dias”, contou.
Ao receber a notícia, Lucas também chorou. Segundo a mãe, a primeira reação foi de medo, mas depois ele ficou feliz ao saber que finalmente receberia o transplante.
Carol diz que o filho sempre foi cuidadoso com os próprios tratamentos e que, mesmo diante das dificuldades, tentava tranquilizá-la.
“O Lucas é uma criança incrível. Ele é um menino muito metódico, muito certinho. Tomava os remédios dele, tudo bonitinho. Algumas vezes ele já chamava na máquina. Ele nunca reclamou. Ele fala para mim assim: ‘não quero te ver preocupada’. Ele que me dá o consolo. Ele é forte”, contou.
Primeiro transplante pediátrico desse tipo no HGG
O HGG já realiza transplantes de rim, fígado, pâncreas e medula óssea. Segundo Jhoan, a unidade havia feito 124 transplantes renais até a semana da cirurgia de Lucas.
O médico explicou que um transplante pediátrico exige uma avaliação específica da estrutura hospitalar e das condições da criança, como peso e tamanho, antes da decisão de realizar o procedimento.
“Hoje, geralmente, os pacientes pediátricos são transferidos para São Paulo para fazer transplante. Não tem nenhum hospital pediátrico especificamente que faça transplante renal em Goiás. O HGG já fez três transplantes dessa população, de crianças, mas crianças menores que 12 anos, o Lucas foi o primeiro”, explicou.

A cirurgia também é considerada delicada por causa das estruturas anatômicas da criança e da ligação dos vasos sanguíneos ao órgão transplantado.
Depois da recuperação, Lucas pretende voltar a fazer atividades que precisou deixar de lado durante o tratamento, como a natação. Para Carol, a cirurgia encerra uma longa etapa de cuidados e abre outra, com novas possibilidades para o filho.
“O procedimento é bem invasivo, bem dolorido. Ontem, depois da cirurgia, à noite, hoje de manhã, foi bem difícil, com bastante dor. Mas agora, nesse momento, ele está sem dor. Ele é muito forte. Está aqui com vários planos: voltar a fazer natação, fazer as coisas que ele gostava. E é isso aí, vida que segue agora com um novo sentido, um novo rumo”, afirmou a mãe.