Lendas que cercam Martim Cererê vão desde fantasmas até casos de tortura supostamente praticados na ditadura
Pesquisa de Luiz Felipe Nunes, da UEG, investigou lendas urbanas do centro cultural Martim Cererê e de outros pontos importantes de Goiânia
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Você teria coragem de passar uma noite sozinho dentro do Martim Cererê? O centro cultural, conhecido pelos shows e apresentações de teatro em Goiânia, também é cenário de histórias sobre gritos, portas que batem sozinhas e supostos fantasmas. Uma das lendas afirma que as antigas caixas-d’água do local teriam sido usadas para torturar presos políticos durante a ditadura militar. Mas há um detalhe importante: não existem provas de que os reservatórios tenham funcionado como salas de tortura.
Localizado no Setor Sul, o Centro Cultural Martim Cererê ocupa estruturas que antes faziam parte do sistema de abastecimento de água de Goiânia. Na década de 1980, os antigos reservatórios foram transformados em teatros. Desde então, o espaço recebeu shows, festivais e apresentações culturais. Ao mesmo tempo, histórias sobre acontecimentos misteriosos passaram a circular entre frequentadores e pessoas que trabalharam no prédio.
A lenda foi registrada pelo historiador Luiz Felipe Pereira Nunes na pesquisa Pelas ruas de Goiânia: evocando lendas urbanas como patrimônio imaterial (2000-2023), apresentada à Universidade Estadual de Goiás (UEG) em dezembro de 2024. O estudo identificou 17 lendas urbanas na capital e investigou como histórias de assombração passaram de uma geração para outra.
Gritos e portas que batem sozinhas fazem parte da lenda

Segundo a história popular, pessoas perseguidas pela ditadura militar teriam sido levadas para as antigas caixas-d’água do Martim Cererê. Algumas teriam morrido durante sessões de tortura, e seus espíritos continuariam presos ao local.
É dessa narrativa que surgem os relatos sobre barulhos durante a madrugada, portas que se movimentam sem explicação e vozes vindas de salas vazias.
Em reportagem publicada anteriormente pelo Mais Goiás, um publicitário contou ter ouvido ruídos dentro de um teatro que estava trancado. Ele também relatou que uma porta bateu enquanto estava sozinho em um escritório.
Essas histórias ajudaram a construir a fama de assombração do prédio. Entretanto, os depoimentos representam experiências relatadas por pessoas que frequentaram o espaço. Não há comprovação de que os acontecimentos tenham origem sobrenatural.
Antigas caixas-d’água foram usadas para tortura?

A suspeita de que o Martim Cererê teria funcionado como centro de tortura durante a ditadura militar é a parte mais delicada da lenda.
Entre 1964 e 1985, o Brasil viveu sob um regime militar marcado por perseguições políticas, prisões ilegais, torturas e assassinatos. Esses crimes foram documentados pela Comissão Nacional da Verdade e por investigações realizadas nos estados.
No caso específico do Martim Cererê, a história chegou a ser examinada pela Comissão Estadual da Memória, Verdade e Justiça de Goiás. Entretanto, não foram encontradas provas documentais suficientes para confirmar que os reservatórios tenham sido utilizados para torturar presos políticos.
Isso não significa que as violações de direitos humanos cometidas durante a ditadura sejam questionáveis. Elas estão documentadas. O que permanece sem comprovação é a utilização das antigas caixas-d’água do Martim Cererê para essa finalidade.
A distinção é importante porque a história de um local não pode ser confundida com os relatos que surgiram a respeito dele.
Antes dos fantasmas, Martim Cererê armazenava água para Goiânia

Antes de se tornar um dos centros culturais conhecidos da capital, o Martim Cererê tinha uma função diferente: armazenar água para abastecer a população.
As estruturas pertenciam ao sistema de abastecimento de Goiânia. Com as mudanças na distribuição de água, os reservatórios deixaram de cumprir sua função original.
Na década de 1980, surgiu o projeto de transformar o espaço em um complexo cultural. A proposta arquitetônica foi desenvolvida por Gustavo Veiga, e o centro foi inaugurado em 20 de outubro de 1988, durante o governo de Henrique Santillo.
Os antigos reservatórios deram origem aos teatros Yguá e Pyguá. O complexo também passou a contar com a arena Ytakuá, destinada a apresentações ao ar livre.
Ao longo dos anos, o local recebeu festivais como Goiânia Noise, Bananada e Vaca Amarela, além de espetáculos teatrais e apresentações de artistas goianos.
A história da transformação do espaço pode ser consultada nos registros da Secretaria de Estado da Cultura de Goiás.
Por que o Martim Cererê ganhou fama de mal-assombrado?

A fama de assombração reúne duas histórias: a suspeita de que o espaço tenha sido usado durante a ditadura militar e os relatos de acontecimentos misteriosos dentro dos antigos reservatórios.
As estruturas circulares, com paredes de concreto, fazem do Martim Cererê um lugar diferente dos teatros convencionais. As histórias de gritos, vultos e portas que batem acrescentaram mistério ao endereço.
Com o passar dos anos, esses relatos foram repetidos por frequentadores, trabalhadores e moradores da capital. Foi assim que o centro cultural passou a fazer parte das lendas urbanas de Goiânia.
O estudo da UEG documentou essa tradição, mas não teve como objetivo verificar a existência de fenômenos sobrenaturais. O trabalho procurou explicar como histórias populares permanecem associadas a lugares reais da cidade.
Afinal, existem fantasmas no Martim Cererê?

Até hoje, não há comprovação de aparições sobrenaturais no Martim Cererê. Também não foram encontradas evidências suficientes para afirmar que as antigas caixas-d’água tenham sido usadas para torturar pessoas durante a ditadura.
O que está documentado é a transformação dos reservatórios em um espaço cultural que se tornou parte da história de Goiânia. Já os relatos sobre fantasmas continuam entre as histórias populares associadas ao local.
A reportagem integra a série especial Goiânia Assombrada, do Mais Goiás, que apresenta as lendas sobre lugares conhecidos da capital e explica o que existe de verdade por trás de cada história