Quinta-feira, 08 de Outubro de 2026
CONSEQUÊNCIA

Médica que orientou colegas a não dar alta para pacientes petistas é demitida em Goiânia

Ginecologista Marcella Segato estava fora da escala de plantões da Maternidade Célia Câmara desde o último domingo (4)

Luanna Marques
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
Médica obstetra Marcella Segato

O Hospital e Maternidade Célia Câmara, em Goiânia, informou que demitiu, nesta quarta-feira (7), a médica ginecologista e obstetra Marcella Segato. Ela havia sido denunciada ao Ministério Público Federal (MPF) após enviar, em um grupo de WhatsApp, mensagens sugerindo que pacientes não recebessem alta durante o fim de semana das eleições porque “a maioria é petista”. Segundo a unidade, Marcella já estava fora da escala de plantões desde o último domingo (4).

Após a repercussão do caso, a médica negou ainda que alguma avaliação tenha levado em consideração a preferência política das pacientes. “O voto é secreto e deve ser respeitado, sem qualquer tipo de retaliação”, afirmou.

Marcella pediu desculpas a pacientes, familiares, colegas de profissão, internos e ao hospital. Em nota enviada à imprensa, ela afirmou que as mensagens não se transformaram em conduta profissional e negou que alguma paciente tenha tido a alta atrasada ou negada por causa de posicionamento político.

A médica também declarou que todas as pacientes foram avaliadas e liberadas exclusivamente com base em critérios clínicos. “Nenhuma paciente teve a alta atrasada ou negada”, disse.

Ao defender sua atuação profissional, a médica disse que realiza partos desde 2017 e que já atendeu milhares de mulheres de diferentes origens e convicções. “É esse compromisso que verdadeiramente orienta minha vida profissional”, declarou.

Mensagens enviadas pela médica

A denúncia contra Marcella foi formalizada pelo advogado Alan Henrique Silva Marques no Ministério Público Federal na sexta-feira (2). O conteúdo das mensagens teria sido encaminhado a ele por um interno de medicina subordinado à médica, que preferiu não se identificar.

Conforme gravação de tela obtida pelo Mais Goiás, Marcella enviou a mensagem às 16h58 de sexta-feira (2), em um grupo de WhatsApp de profissionais da unidade.

“Quem estiver na enfermaria sábado e domingo, não dar alta pra ninguém, a maioria é petista”, escreveu a médica, acompanhando a mensagem com uma figurinha de positivo com o rosto do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ao menos 12 pessoas reagiram à publicação com emojis de riso, polegar para cima e bandeira do Brasil. Uma delas respondeu “combinado”, enquanto outra enviou carinhas de riso.

Mensagem enviada pela médica no grupo - (Foto: reprodução)
Mensagem enviada pela médica no grupo – (Foto: reprodução)

As mensagens de teor político teriam começado ainda na noite de quinta-feira (1º). Na ocasião, Marcella fez referência ao número 22, utilizado pelo candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). “Domingo, quem colocar 22 finaliza o rodízio com nota 10. Tá ok?”, escreveu às 20h58. A mensagem recebeu 16 reações, entre corações, emoji de continência, bandeira do Brasil e sinal de positivo.

Não há confirmação de que alguma paciente tenha tido a alta atrasada ou negada por causa de preferência política. A própria médica nega que isso tenha ocorrido. O hospital, por sua vez, afirma que as decisões de alta devem seguir exclusivamente critérios médicos.

Cremego

O Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás (Cremego) informou que denúncias relacionadas à conduta ética de médicos são apuradas e tramitam em sigilo, conforme determina o Código de Processo Ético-Profissional Médico.

O conselho também informou que solicita esclarecimentos ao médico responsável técnico pela instituição citada nas denúncias.

Nota Secretaria Municipal de Saúde (SMS)

“O Hospital Municipal da Mulher e Maternidade Célia Câmara informa que não adota posicionamento político-partidário e pauta sua atuação exclusivamente pelos princípios que regem a assistência pública à saúde, pela ética profissional e pelos critérios técnicos e assistenciais aplicáveis a cada paciente.

As manifestações mencionadas na solicitação encaminhada pela imprensa ocorreram em grupo interno e privado de profissionais médicos e constituem manifestações de caráter pessoal de seus participantes, não representando, em nenhuma hipótese, posicionamento da Administração do Hospital ou da instituição responsável pela gestão da unidade.

O Hospital ressalta, ainda, que manifestações ou preferências políticas de caráter pessoal não se confundem com as condutas médicas e assistenciais adotadas na unidade. Decisões relativas à internação, permanência hospitalar e alta devem observar exclusivamente critérios clínicos, técnicos, éticos e de segurança do paciente, independentemente de qualquer convicção política, ideológica, religiosa ou de outra natureza.

Diante das informações recebidas, a Administração adotará os procedimentos internos apropriados para apuração dos fatos e de seu contexto, assegurados o contraditório, a adequada instrução e a observância das normas institucionais e profissionais aplicáveis. Caso sejam constatadas condutas incompatíveis com essas normas, serão adotadas as medidas cabíveis.

O Hospital reafirma seu compromisso com uma assistência impessoal, humanizada, ética e tecnicamente orientada, garantindo tratamento isonômico a todos os usuários do Sistema Único de Saúde.

A direção do HMMCC lamenta o ocorrido e apresenta desculpas formais aos colaboradores e pacientes que por algum motivo se sentirem atingidos pelo fato. Reitera ainda não pactuar com nenhuma forma de discriminação de qualquer natureza.

Por fim, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Goiânia informa que, assim que tomou conhecimento dos fatos relatados, adotou as medidas administrativas cabíveis para a apuração da conduta mencionada.

A Secretaria também reforçou a orientação às equipes quanto à necessidade de garantir atendimento adequado, ético e respeitoso a todos os usuários do Sistema Único de Saúde (SUS)”.

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