Local em que foi construído Parthenon Center abrigava Mercado Central de Goiânia; conheça história
Antes do edifício modernista, o quarteirão abrigava o antigo Mercado Central, ponto de encontro de comerciantes, produtores e famílias da capital.
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Uma fotografia em preto e branco mostra um prédio baixo, de linhas simples, cercado por carros e pelo comércio do Centro de Goiânia. A imagem é apresentada nas redes sociais como o último registro do antigo Mercado Central, feito uma semana antes de sua demolição, em 1974.
A autoria, a data exata e a informação de que a foto teria sido tirada sete dias antes da derrubada ainda dependem da localização do acervo original. O edifício retratado, porém, ocupava o quarteirão onde hoje se ergue o Parthenon Center, entre as ruas 4, 6, 7 e 17.
Antes das rampas, dos elevadores, das salas comerciais e das histórias sobre um andar que não aparece no painel, o terreno concentrava bancas, alimentos, pequenos negócios e parte importante da vida cotidiana da capital.
O Mercado Central começou a funcionar naquele endereço em 1950, segundo a Prefeitura de Goiânia. Durante mais de duas décadas, o espaço reuniu produtores, permissionários, carregadores e consumidores em uma época na qual o Centro concentrava praticamente toda a atividade comercial, administrativa e social da cidade.
A substituição do mercado pelo Parthenon não representou apenas a troca de um prédio por outro. Marcou a passagem de uma Goiânia dependente dos mercados públicos para uma capital que crescia, se verticalizava e começava a organizar o espaço urbano em torno do automóvel.
A transformação já aparece na história do Parthenon Center publicada pelo Mais Goiás. Agora, os documentos municipais ajudam a revelar como o antigo coração comercial da cidade foi entregue a um projeto que tinha a construção de estacionamento como exigência legal.
Publicação erra ao situar a origem do mercado nos anos 1930
A legenda que acompanha a fotografia afirma que o primeiro Mercado Municipal de Goiânia teria sido construído na década de 1930. A informação não coincide com a cronologia oficial da Prefeitura.
Os registros municipais informam que o Mercado Central começou a funcionar em 1950, durante a administração do prefeito Eurico Viana, no local posteriormente ocupado pelo Parthenon Center. A data também aparece no roteiro histórico mantido pela Agência Municipal de Turismo e Eventos.
A correção não reduz a importância do edifício. Goiânia ainda era uma capital jovem, criada menos de duas décadas antes. A instalação de um mercado público no Centro atendia à necessidade de organizar o abastecimento de uma população em crescimento.
Em uma cidade sem a atual rede de supermercados, centros atacadistas e lojas espalhadas pelos bairros, o mercado municipal concentrava produtos essenciais. Era possível encontrar carnes, frutas, verduras, cereais, queijos, farináceos, temperos, utensílios e mercadorias vindas do interior de Goiás.
Mais do que um centro de compras, o espaço ajudava a estruturar a relação entre a cidade e o campo. Produtores encontravam compradores, comerciantes formavam clientelas e famílias retornavam às mesmas bancas durante anos.
Quando ir ao Centro significava participar da vida da cidade
Nas décadas de 1950 e 1960, a região central não era apenas um dos polos de Goiânia. Para grande parte da população, o Centro era a própria cidade.
Ali funcionavam bancos, lojas, cinemas, hotéis, cafés, consultórios, repartições públicas e espaços de convivência. O mercado integrava esse circuito e recebia movimento desde as primeiras horas do dia.
A concentração das atividades fazia das ruas centrais lugares de encontro. Fazer compras significava também encontrar conhecidos, trocar informações, acompanhar novidades e participar da rotina pública da capital.
Esse papel histórico ajuda a explicar a reação provocada pela fotografia. Nos comentários da publicação, moradores lamentam a perda do edifício e defendem que ele poderia ter sido restaurado, como ocorreu com antigos mercados transformados em centros gastronômicos e culturais em outras cidades.
As manifestações revelam a memória afetiva construída em torno do local, mas não servem, isoladamente, como prova das condições físicas ou sanitárias do mercado.
A publicação afirma que o prédio havia ficado pequeno e era alvo de reclamações relacionadas à sujeira. Sem laudos, relatórios de inspeção ou processos administrativos anexados ao registro, não é possível estabelecer o peso dessas condições na decisão de demolir o edifício.
Lei de 1971 mudou o destino do quarteirão
A mudança começou a ser formalizada três anos antes da data atribuída à demolição.
A Lei municipal nº 4.487, de 3 de novembro de 1971, autorizou a Prefeitura a doar o terreno do Mercado Central à empresa que vencesse uma concorrência pública e apresentasse o que fosse considerado o melhor projeto para a área.
A legislação identifica expressamente o quarteirão entre as ruas 4, 6, 17 e 7. O texto também contém um detalhe que ajuda a compreender a mudança de prioridades urbanas: os projetos concorrentes deveriam prever a construção de garagens ou estacionamentos.
Não se tratava, portanto, apenas de substituir uma edificação considerada insuficiente. O município pretendia dar ao terreno uma função adequada à cidade que começava a conviver com o aumento da circulação de veículos.
A mesma lei determinava que a empresa vencedora entregasse à Prefeitura, no próprio local, uma área construída equivalente à extensão do terreno doado. O espaço deveria atender a eventuais direitos e à localização dos ocupantes das dependências do Mercado Central.
Os documentos localizados não permitem concluir, por si só, como todas essas obrigações foram executadas. A lei, porém, demonstra que a destinação dos comerciantes e a construção de estacionamento faziam parte da operação desde o início.
O carro ocupa o lugar das bancas
A escolha pelo estacionamento acompanha a transformação de Goiânia durante os anos 1970.
A população do município passou de 389.784 habitantes em 1970 para 738.117 em 1980, um crescimento de cerca de 89%. A expansão aumentou a demanda por moradia, serviços, transporte e vagas para veículos, principalmente no Centro, onde ainda se concentravam empregos e atividades econômicas.
O antigo mercado, ligado ao abastecimento de uma capital menor, deu lugar a um complexo concebido para outra escala urbana.
Inaugurado em 1976, o Parthenon Center foi projetado com aproximadamente 46 mil metros quadrados de área construída, 22 pavimentos e capacidade para 980 automóveis. Sete níveis foram destinados ao estacionamento, enquanto a torre superior recebeu escritórios e serviços.
A substituição torna visível a mudança do modelo de cidade. Onde antes circulavam caixas de alimentos, comerciantes e consumidores, passaram a existir rampas, vagas, elevadores e salas empresariais.
O espaço público de abastecimento foi substituído por um empreendimento voltado à circulação de automóveis, ao comércio privado e à expansão do setor de serviços.
Prefeitura concedeu benefícios à incorporadora
A participação da iniciativa privada volta a aparecer na legislação municipal depois da conclusão do empreendimento.
A Lei nº 5.216, de 28 de dezembro de 1976, identifica a Incorporadora Irmãos Valle, posteriormente denominada Provalle Incorporadora, como empresa ligada à construção do Parthenon Center.
A norma concedeu isenção do Imposto Territorial Urbano referente aos exercícios de 1972 a 1976 sobre a área do empreendimento. Também dispensou o pagamento das taxas relacionadas à aprovação do projeto e à emissão do habite-se.
O texto informa que os benefícios decorriam de contrato firmado com a Prefeitura.
A existência da isenção não comprova irregularidade. O benefício foi instituído por lei. Para avaliar integralmente a operação, seria necessário analisar o edital da concorrência, o contrato firmado, a proposta vencedora, as avaliações do terreno e os documentos relativos às contrapartidas exigidas.
O que a legislação confirma é que a transformação do quarteirão envolveu planejamento municipal, concorrência pública, doação de área e incentivos concedidos à incorporadora.
Comerciantes deixaram a Rua 4
Com a retirada do antigo mercado, os permissionários foram transferidos para o Mercado Centro Comercial Popular, posteriormente conhecido como Camelódromo do Centro.
A mudança definitiva só ocorreria anos depois. Em 24 de outubro de 1986, o Mercado Central passou para a sede atual, na Rua 3. O prédio tem 6.787 metros quadrados de área construída e três pavimentos, segundo os registros municipais.
A transferência criou uma ruptura na relação dos comerciantes com o endereço original. O mercado que havia ajudado a abastecer a cidade deixou de existir naquele ponto, e os trabalhadores passaram por um espaço intermediário antes de chegar à sede atual.
O Mercado Central permanece conhecido pelos produtos regionais, como empadas, queijos, farináceos, temperos, doces, carnes, artesanato e pequi. A função, no entanto, mudou com o crescimento dos supermercados e de outros centros comerciais distribuídos pela capital.