Segunda-feira, 03 de Agosto de 2026
HISTÓRIA

Conheça o prédio com sete andares de estacionamento e mil vagas para carros no centro de Goiânia

Inaugurado em 1976 no terreno do antigo Mercado Central, o Parthenon Center marcou a arquitetura moderna e a transformação urbana de Goiânia.

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
Publicado em: • Atualizado em:
Parthenon Center, marco da arquitetura moderna de Goiânia

No terreno onde comerciantes vendiam alimentos, cereais e produtos trazidos do interior de Goiás, surge, na década de 1970, um edifício voltado para outra cidade. No lugar do antigo Mercado Central, Goiânia constrói um complexo com quase mil vagas de estacionamento, torre comercial, lojas, galerias, restaurante e heliporto. É assim que o Parthenon Center entra na paisagem da capital.

Inaugurado em 1976, o edifício completa 50 anos em 2026. Ocupa o quarteirão delimitado pelas ruas 4, 6, 7 e 17, no Setor Central, e mantém na estrutura as marcas de uma Goiânia que cresce, verticaliza-se e começa a conviver com os problemas provocados pelo aumento da população e da frota de veículos.

Com cerca de 46 mil metros quadrados de área construída, 22 pavimentos e capacidade projetada para 980 automóveis, o Parthenon nasce quando o Centro concentra bancos, hotéis, consultórios, escritórios, cinemas, lojas e repartições públicas. Todos os caminhos econômicos da cidade passam pela região.

Cinco décadas depois, o edifício permanece em funcionamento. Abriga estacionamento, salas comerciais, serviços e espaços culturais. Ao mesmo tempo, acompanha a perda de moradores do Centro, o deslocamento das empresas para outros bairros e os projetos que tentam devolver vida à região.

A história do Parthenon Center, por isso, não se limita à arquitetura. Ela ajuda a explicar como Goiânia deixa de ser uma capital planejada para uma população reduzida e se transforma em metrópole.

Parthenon Center nasce durante a expansão de Goiânia

A década de 1970 muda a escala da capital. Dados reunidos no Plano Diretor de Transporte Coletivo da Grande Goiânia, com base nos censos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, mostram que a população do município passa de 389.784 habitantes em 1970 para 738.117 em 1980.

Goiânia recebe mais de 348 mil novos moradores em dez anos. O crescimento chega a aproximadamente 89%.

A expansão pressiona a oferta de moradias, amplia bairros, aumenta a demanda por transporte e leva mais pessoas ao Centro, onde se concentram empregos, serviços e comércio.

A frota de automóveis acompanha esse processo. Ruas e estacionamentos construídos para uma cidade menor deixam de atender ao movimento diário. Encontrar uma vaga passa a fazer parte da rotina de quem trabalha ou resolve compromissos na região central.

O Parthenon Center surge como resposta a essa mudança. O projeto distribui centenas de vagas em pavimentos verticais e coloca sobre a garagem uma torre destinada a escritórios e serviços.

O edifício mostra como o planejamento urbano daquele período passa a considerar o automóvel como elemento central. Rampas, lajes e áreas de circulação formam a base do complexo. Os carros não ficam escondidos: fazem parte da arquitetura.

Antigo Mercado Central funcionava no terreno do Parthenon

Inaugurado em 1976, o Parthenon Center ocupa um quarteirão do Setor Central e representa uma das fases da arquitetura moderna de Goiânia. ( Reprodução)
Inaugurado em 1976, o Parthenon Center ocupa um quarteirão do Setor Central e representa uma das fases da arquitetura moderna de Goiânia. ( Reprodução)

Antes do concreto, das rampas e dos escritórios, o quarteirão recebe o primeiro Mercado Central de Goiânia.

Segundo a Prefeitura de Goiânia, o espaço começa a funcionar em 1950, durante a administração do prefeito Eurico Viana. O mercado atende moradores da capital e reúne comerciantes, produtores e consumidores em uma fase na qual esses equipamentos exercem papel central no abastecimento urbano.

A implantação do Parthenon altera essa função. Os permissionários deixam o local e são transferidos para o Centro Comercial Popular, conhecido como Camelódromo do Centro.

O Mercado Central somente chega ao endereço atual, na Rua 3, em 24 de outubro de 1986.

A substituição de um mercado por um edifício-garagem registra uma mudança econômica e urbana. O espaço destinado ao abastecimento dá lugar a um empreendimento voltado para automóveis, empresas, escritórios e prestação de serviços.

O mesmo terreno passa, assim, a guardar duas fases da história de Goiânia. A primeira corresponde à cidade que depende dos mercados municipais. A segunda representa a capital que cresce, se verticaliza e passa a organizar parte da vida cotidiana em torno do carro.

Lei municipal registra participação da incorporadora

Anúncio da Provalle publicado na revista Veja, em 1976, apresenta o Parthenon Center como “a maior obra arquitetônica do Estado de Goiás”. Crédito: Reprodução/Revista Veja.
Anúncio da Provalle publicado na revista Veja, em 1976, apresenta o Parthenon Center como “a maior obra arquitetônica do Estado de Goiás”. Crédito: Reprodução/Revista Veja.

A construção do Parthenon envolve uma relação entre a iniciativa privada e o município. A Lei nº 5.216, de 28 de dezembro de 1976, identifica a Irmãos Valle Ltda., posteriormente denominada Provalle Incorporadora Ltda., como responsável pelo empreendimento.

A legislação concede à empresa isenção do Imposto Territorial Urbano referente aos exercícios de 1972 a 1976 sobre a área usada na construção. O texto informa que o benefício decorre de contrato firmado com a Prefeitura de Goiânia.

O documento mostra que o projeto já se desenvolve desde o início da década e recebe tratamento específico do poder público.

Na divulgação comercial de 1976, o Parthenon aparece como a “maior obra arquitetônica do Estado de Goiás”. A publicidade apresenta o empreendimento como símbolo do desenvolvimento da capital e destaca dimensões que ainda chamam atenção.

Parthenon Center reúne 22 pavimentos e 980 vagas

O projeto original do Parthenon Center reúne aproximadamente 45.988 metros quadrados de área construída, distribuídos em 22 pavimentos.

Sete níveis são destinados ao estacionamento, com capacidade projetada para 980 veículos. A torre superior concentra salas comerciais e serviços. O conjunto também prevê lojas, galerias, restaurante panorâmico, terraço e heliporto.

O prédio reúne diferentes atividades no mesmo endereço. O motorista estaciona, acessa escritórios, utiliza serviços e circula pelas áreas comerciais sem deixar o complexo.

Esse modelo, hoje identificado como uso misto, ainda representa uma novidade no mercado goiano dos anos 1970. O porte do empreendimento também contrasta com boa parte das construções existentes no Centro naquele momento.

O Parthenon ocupa um quarteirão, altera a escala da paisagem e passa a servir como ponto de referência para quem circula pela região.

Vista aérea do Parthenon Center, edifício modernista inaugurado em 1976 no Centro de Goiânia, com torre comercial, garagem vertical e mural colorido.
Parthenon Center, marco da arquitetura moderna no Centro de Goiânia

Arquitetura do Parthenon marca nova fase da capital

O projeto é assinado pelo arquiteto Antônio Lúcio Ferrari Pinheiro. A trajetória profissional e a produção do arquiteto em Goiás são analisadas na dissertação “Caminhos de uma arquitetura: obra e trajetória de Antônio Lúcio Ferrari Pinheiro”, apresentada por Ronaldo da Paixão Fonseca à Universidade Federal de Goiás.

O trabalho relaciona a obra de Antônio Lúcio ao processo de consolidação da arquitetura moderna em Goiânia.

No Parthenon, a estrutura não fica escondida. Rampas, pilares, vigas e lajes aparecem na fachada e ajudam a definir a identidade do edifício. O concreto assume função estrutural e visual.

Essas características aproximam o projeto do brutalismo, vertente da arquitetura moderna que valoriza materiais aparentes, volumes definidos e a leitura direta da estrutura.

A base horizontal abriga as garagens. Sobre ela, a torre comercial amplia a altura do conjunto. As rampas abertas permitem observar o movimento dos veículos a partir da rua.

O prédio não busca reproduzir os elementos ornamentais presentes nas construções Art Déco do núcleo pioneiro de Goiânia. Sua linguagem responde a outro momento histórico.

Parthenon e Art Déco contam histórias diferentes de Goiânia

Os edifícios Art Déco registram a criação da nova capital e o projeto político de transferência da sede administrativa de Goiás. O Parthenon mostra o que acontece depois: crescimento populacional, expansão econômica, verticalização e aumento da dependência do automóvel.

Goiânia possui 22 edifícios e monumentos públicos integrantes do conjunto urbano tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Entre eles estão o Teatro Goiânia, o Grande Hotel, a antiga Estação Ferroviária e construções da Praça Cívica.

Mais Goiás apresenta os monumentos Art Déco tombados pelo Iphan em Goiânia.

O Parthenon não integra esse conjunto. Inaugurado mais de quatro décadas após o início da construção da capital, representa outra etapa da arquitetura local.

A diferença entre os estilos não coloca um período contra o outro. Permite observar como a cidade muda. O Art Déco conta a história da Goiânia planejada. O Parthenon registra a cidade que ultrapassa as previsões originais.

Garagem América antecede o edifício goianiense em São Paulo

Página do Jornal Opção, publicada entre 3 e 9 de outubro de 1976, apresenta o Parthenon Center como marco da arquitetura e da engenharia de Goiás. Crédito: acervo Jornal Opção.
Página do Jornal Opção, publicada entre 3 e 9 de outubro de 1976, apresenta o Parthenon Center como marco da arquitetura e da engenharia de Goiás. Crédito: acervo Jornal Opção.

A construção do Parthenon também se insere no avanço dos edifícios-garagem no Brasil.

Em São Paulo, a Garagem América, também chamada de Edifício Central Riachuelo, surge duas décadas antes. Projetada por Rino Levi, a construção é realizada entre 1954 e 1956 na Rua Riachuelo, no Centro da capital paulista.

O empreendimento possui cerca de 14 mil metros quadrados, 14 pavimentos e capacidade próxima de 500 vagas. Estudos de arquitetura apontam a Garagem América como o primeiro grande edifício-garagem do país.

O Parthenon é inaugurado cerca de 20 anos depois, com capacidade projetada para quase o dobro de automóveis. O prédio de Goiânia também acrescenta torre comercial, lojas, galerias e espaços posteriormente ocupados por instituições culturais.

Não há documentação acessível que comprove influência direta do edifício paulista sobre o projeto goianiense. A comparação, no entanto, mostra como cidades brasileiras passam a construir estruturas voltadas ao aumento da circulação de automóveis.

Cultura ocupa espaços do Parthenon Center

A função do edifício muda ao longo das décadas. Além de carros, escritórios e serviços, o Parthenon passa a receber atividades culturais.

Centro Cultural Octo Marques funciona no mezanino do prédio. Segundo a Secretaria de Estado da Cultura, o espaço é inaugurado em 19 de junho de 1991.

Antes disso, o Parthenon recebe o Museu de Arte Contemporânea de Goiás, que inicia as atividades no local em dezembro de 1988. O museu permanece no prédio até 2006, quando é transferido para o Centro Cultural Oscar Niemeyer.

O Centro Cultural Octo Marques mantém as galerias Frei Confaloni e Sebastião dos Reis, além da Escola de Artes Visuais. Exposições, cursos e atividades de formação atraem artistas, estudantes e visitantes para o edifício.

A Orquestra Sinfônica de Goiânia também utiliza instalações no Parthenon. A sede e a sala de ensaios ficam no nono andar. O terraço recebe projetos como o São João Panorâmico da Orquestra Sinfônica.

A presença da cultura modifica o significado do complexo. Um edifício construído para atender à expansão do automóvel passa também a abrigar exposições, música e formação artística.

Mudança do eixo econômico reduz movimento no Centro

Quando o Parthenon é inaugurado, o Centro reúne parte expressiva da atividade econômica de Goiânia.

Nas décadas seguintes, novos bairros recebem edifícios empresariais, bancos, clínicas, restaurantes, shopping centers e órgãos públicos. Setores como Oeste, Bueno, Marista e Jardim Goiás passam a disputar o protagonismo econômico da capital.

A região central mantém movimento durante o dia, mas perde moradores e parte da circulação fora do horário comercial.

O Parthenon acompanha essa transformação. Continua ocupado, mas passa a dividir funções com prédios e centros empresariais instalados em outras áreas.

Mais Goiás mostra como a transferência de instituições, o surgimento de novas centralidades e a mudança dos hábitos de consumo afetam o Centro.

O edifício permanece como testemunha de duas cidades: a Goiânia que concentra sua rotina no Centro e a capital que distribui atividades entre diferentes bairros.

Morar no Centro pode alterar dinâmica do Parthenon

A tentativa de ampliar a ocupação residencial coloca novamente a região central no debate urbano.

O Programa Morar no Centro prevê subsídio ao aluguel, incentivos fiscais e medidas para recuperar imóveis sem uso. A meta anunciada é atrair cerca de 10 mil moradores, com orçamento inicial de R$ 24 milhões.

Mais Goiás detalha neste link o Programa Morar no Centro e os incentivos previstos.

A volta de moradores pode aumentar a circulação em horários diferentes, ampliar a procura por serviços e criar condições para que prédios como o Parthenon tenham nova participação na vida urbana.

O desafio não envolve apenas recuperar fachadas. Exige combinar moradia, transporte, segurança, cultura, comércio e espaços públicos.

revitalização do Centro de Goiânia também passa pela preservação da memória urbana. Isso inclui não apenas as construções da fundação da capital, mas também os edifícios que registram as etapas posteriores de seu crescimento.

Aos 50 anos, Parthenon continua a contar a história de Goiânia

O Parthenon Center chega aos 50 anos ainda inserido na rotina da cidade. Recebe veículos, trabalhadores, comerciantes, servidores, artistas, músicos, estudantes e visitantes.

O terreno conserva a memória do antigo Mercado Central. A documentação municipal registra a participação da incorporadora e da Prefeitura. A arquitetura revela a consolidação do modernismo em Goiás. Os espaços culturais mostram como o prédio se adapta sem perder a função original.

Em meio às discussões sobre o futuro do Centro, o edifício permanece como um ponto de ligação entre diferentes períodos da capital.

O Parthenon não conta a história da fundação de Goiânia. Conta a história da cidade que cresce depois dela. Uma capital que recebe novos moradores, aumenta a frota, sobe em direção ao céu, desloca sua economia para outros bairros e agora tenta voltar os olhos para o próprio Centro.

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