Igreja de 70 anos guarda história dos árabes que ajudaram a construir Goiânia
Fundado por imigrantes sírios, libaneses e palestinos em 1956, templo no Setor Oeste preserva arte cristã oriental e participou de iniciativas de acolhimento a refugiados
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Em uma das avenidas mais movimentadas de Goiânia, uma igreja de 70 anos guarda uma história que começou a milhares de quilômetros de Goiás. Consagrada em 17 de junho de 1956, a Paróquia Ortodoxa Antioquina São Nicolau, no Setor Oeste, foi construída com a participação de imigrantes sírios, libaneses e palestinos, além de gregos, russos e brasileiros. Por trás da fachada, o templo preserva vitrais, imagens religiosas e tradições do cristianismo oriental. Pesquisas acadêmicas ajudam a revelar como a presença árabe contribuiu para a formação da capital e por que a igreja também se tornou um espaço de acolhimento a pessoas que chegaram do Oriente Médio décadas depois.
Localizada na Avenida República do Líbano, próximo à Praça Tamandaré, São Nicolau pertence a uma Goiânia que ainda dava seus primeiros passos como capital. Quando foi inaugurada, a cidade tinha pouco mais de duas décadas de existência. Hoje, cercada pela verticalização do Setor Oeste, a construção permanece como testemunho da presença de comunidades estrangeiras na formação da cidade.
O histórico oficial da Arquidiocese Ortodoxa registra que a construção do templo reuniu diferentes nacionalidades. A documentação também mostra que a comunidade não se limitou às atividades religiosas, participando da criação de instituições educacionais e sociais.
A trajetória da igreja dialoga com pesquisas desenvolvidas na Universidade Federal de Goiás (UFG) e na Universidade de São Paulo (USP). Os trabalhos investigam a imigração árabe, a preservação da identidade cultural, a língua e os processos de acolhimento e integração de estrangeiros na sociedade goiana.
Igreja foi inaugurada quando Goiânia tinha apenas 22 anos

A Igreja São Nicolau foi consagrada em 17 de junho de 1956, em cerimônia presidida por Dom Epiphânios Zaed, então arcebispo de Akkar, no Líbano. A celebração contou com a participação do padre Nicolau Jaugadar, que seria nomeado o primeiro pároco da comunidade ortodoxa em Goiânia.
Segundo a Arquidiocese Ortodoxa, participaram da construção famílias de origem síria, libanesa e palestina, além de integrantes das comunidades grega, russa e brasileira. O templo nasceu da necessidade de manter tradições religiosas e oferecer um espaço de convivência para pessoas que haviam construído uma nova vida longe de seus países de origem.
Na década de 1950, Goiânia atravessava um período de expansão urbana e crescimento populacional. A cidade recebia trabalhadores, comerciantes e profissionais que buscavam oportunidades na capital planejada, inaugurada apenas duas décadas antes.
A presença árabe já fazia parte da história econômica e social de Goiás antes mesmo da construção de Goiânia. Muitos imigrantes haviam iniciado suas atividades no comércio, criando redes familiares e profissionais que facilitaram a chegada de outros integrantes da comunidade.
Além da paróquia, a Sociedade Beneficente Ortodoxa de Goiás participou da criação da Escola São Nicolau. A iniciativa demonstra que a organização comunitária também esteve relacionada à educação e à manutenção de vínculos culturais.
Os registros estão disponíveis no histórico da Paróquia Ortodoxa São Nicolau, publicado pela Arquidiocese Ortodoxa Antioquina.
Estudo da USP investigou a chegada dos árabes a Goiás

A presença de imigrantes árabes no estado foi objeto de uma pesquisa desenvolvida pela historiadora Heliane Prudente Nunes, na Universidade de São Paulo. A tese de doutorado Imigração Árabe em Goiás, 1880–1970, defendida em 1996, investigou as razões da imigração, as atividades econômicas dos pioneiros e a formação de redes familiares e comunitárias.
O trabalho analisou um período de 90 anos, abrangendo desde os primeiros fluxos migratórios até a consolidação de comunidades árabes em diferentes regiões de Goiás. A pesquisadora também examinou a adaptação cultural, os preconceitos enfrentados pelos imigrantes e os mecanismos de preservação de sua identidade.
Entre os aspectos investigados estão a importância da família, da religião e das atividades comerciais na organização dessas comunidades. A pesquisa mostra que a imigração árabe não se restringiu à chegada de trabalhadores, mas envolveu a criação de relações econômicas, sociais e culturais duradouras.
Esse contexto ajuda a compreender o surgimento da Igreja São Nicolau. Embora a tese não seja dedicada exclusivamente ao templo goianiense, ela demonstra a importância das instituições religiosas para a preservação dos vínculos entre imigrantes e descendentes.
O estudo está registrado no Centro de Apoio à Pesquisa em História da USP, que disponibiliza as informações bibliográficas e o resumo da investigação.
Pesquisa da UFG revela como árabes preservaram a identidade em Goiânia

A relação entre imigração e preservação cultural também foi investigada pela pesquisadora Mabel Pettersen Prudente, em dissertação de mestrado defendida na Universidade Federal de Goiás, em 2006.
Intitulado Das Montanhas ao Cerrado: Recortes Sociolinguísticos da Comunidade Árabe em Goiânia, o trabalho examinou questões relacionadas ao bilinguismo, à identidade e à manutenção ou perda da língua de origem entre integrantes da comunidade árabe na capital.
A pesquisa mostra a importância de compreender a imigração para além das atividades profissionais. A língua, as tradições familiares e as relações entre gerações também fazem parte do processo de adaptação dos estrangeiros e de seus descendentes à sociedade brasileira.
O estudo aborda um fenômeno comum entre comunidades de imigrantes: a necessidade de conciliar a integração ao novo país com a preservação de referências culturais. Ao longo das gerações, o uso da língua de origem pode sofrer mudanças, ao mesmo tempo que determinadas tradições continuam presentes no cotidiano familiar e comunitário.
A dissertação não é um estudo específico da Igreja São Nicolau, mas oferece elementos para entender o contexto cultural no qual a paróquia foi criada e permaneceu ativa.
A formação acadêmica e os dados bibliográficos da pesquisa estão registrados no Instituto Federal de Goiás, onde Mabel atua como professora e pesquisadora.
Igreja participou de iniciativas de acolhimento a refugiados sírios

A história de São Nicolau também está relacionada a movimentos migratórios mais recentes. Décadas depois de ter sido construída com a participação de imigrantes do Oriente Médio, a paróquia colaborou com iniciativas de acolhimento destinadas a sírios que chegaram a Goiânia.
Registros de projetos vinculados à Universidade Federal de Goiás documentam ações de integração de imigrantes e refugiados, incluindo o ensino de português. A Igreja São Nicolau e o padre Rafael Magul aparecem associados à colaboração comunitária em iniciativas voltadas à população síria.
A participação do templo estabelece uma ligação entre diferentes momentos da história da imigração. No passado, a comunidade ortodoxa ajudou famílias estrangeiras a preservar referências religiosas e culturais. Mais recentemente, a mesma instituição participou de ações destinadas a facilitar a integração de novos moradores à sociedade brasileira.
Aprender português representa uma etapa importante para estrangeiros que chegam ao país. O domínio do idioma pode facilitar o acesso ao trabalho, à educação, aos serviços públicos e às relações cotidianas.
A Cátedra Sérgio Vieira de Mello da UFG reúne pesquisas sobre experiências de refugiados em Goiânia e Aparecida de Goiânia. A documentação universitária permite compreender o contexto dessas iniciativas, embora não comprove que todas as atividades realizadas no passado continuem em funcionamento atualmente.
O próprio padre Rafael Magul já abordou o papel de acolhimento da igreja em reportagem do Mais Goiás sobre a comunidade árabe. Na ocasião, ele explicou que o templo recebe pessoas de diferentes origens religiosas e destacou a importância de preservar a identidade cultural dos imigrantes.
O que existe por trás das imagens e dos vitrais da igreja

O interior da Igreja São Nicolau reúne elementos característicos da tradição cristã ortodoxa. Diferentemente da organização visual encontrada em muitas igrejas ocidentais, o espaço incorpora ícones religiosos e uma estrutura que separa a área destinada aos fiéis da região do altar.
Essa estrutura é conhecida como iconostase. Trata-se de uma divisória que recebe imagens de Cristo, da Virgem Maria e de santos, organizadas conforme a tradição litúrgica oriental.
Na Igreja Ortodoxa, essas imagens não são utilizadas apenas como decoração. Elas integram a linguagem religiosa das celebrações e possuem significado relacionado à teologia, à memória dos santos e à representação dos acontecimentos da fé cristã.
Em 2013, o templo goianiense recebeu 13 novos vitrais representando importantes festas do calendário litúrgico bizantino. Na mesma ocasião, os ícones da iconostase foram restaurados, segundo os registros da Arquidiocese Ortodoxa.
A bênção dos vitrais e das imagens restauradas ocorreu em 19 de maio de 2013, durante cerimônia conduzida pelo arcebispo Dom Damaskinos. As intervenções contribuíram para preservar elementos da identidade visual e religiosa do templo.
O conjunto permite conhecer uma tradição cristã que se desenvolveu historicamente no Mediterrâneo oriental e em outras regiões do mundo. Apesar das diferenças litúrgicas e institucionais, católicos e ortodoxos compartilham raízes históricas anteriores às grandes divisões do cristianismo.
A importância do espaço não se limita, portanto, à aparência das imagens. Sua arquitetura interna está relacionada à maneira como as celebrações são organizadas e vividas pela comunidade religiosa.
Templo preserva parte da Goiânia dos anos 1950
A permanência da Igreja São Nicolau também chama a atenção pelo contraste com a transformação urbana do Setor Oeste. Consagrada em 1956, a construção pertence a um período em que Goiânia ainda ampliava sua estrutura e consolidava bairros além do núcleo planejado inicialmente.
Atualmente, a Avenida República do Líbano reúne edifícios residenciais, estabelecimentos comerciais, hotéis, restaurantes e diferentes atividades de serviços. Ao longo das décadas, a verticalização modificou profundamente a paisagem da região.
A igreja, entretanto, manteve sua função religiosa e continua ocupando um espaço associado à história das primeiras gerações de imigrantes que participaram de sua construção.
A permanência de edifícios antigos tem importância para a memória urbana porque permite reconhecer diferentes fases de crescimento de uma cidade. Construções religiosas, escolas, residências e equipamentos públicos podem revelar características de períodos que já não aparecem na maior parte da paisagem.
O contraste fica evidente quando a história de São Nicolau é comparada à de outros imóveis construídos na década de 1950. A antiga sede da Companhia Energética de Goiás (Celg), na Avenida Anhanguera, foi erguida entre 1956 e 1958 e acabou demolida em fevereiro de 2025.
Embora os edifícios tenham funções, características arquitetônicas e situações patrimoniais distintas, suas histórias ajudam a compreender as transformações do Setor Oeste.
O Mais Goiás acompanhou a demolição da antiga sede da Celg e a discussão sobre preservação de construções históricas da capital.
Igreja também se tornou espaço de apresentações culturais
A Igreja São Nicolau continua sendo utilizada para celebrações religiosas, mas também passou a receber atividades culturais. Em novembro de 2025, o Coro Sinfônico da Universidade Federal de Goiás realizou uma apresentação gratuita no templo.
O concerto ocorreu em 27 de novembro e integrou a programação da Escola de Música e Artes Cênicas da UFG. A escolha da igreja foi relacionada à importância histórica e arquitetônica do espaço, conforme explicou a universidade.
Em comunicado publicado pela UFG, a instituição destacou a proposta de aproximar a população da música de concerto por meio da ocupação cultural de espaços simbólicos de Goiânia.
A apresentação representou outra forma de utilização de um edifício criado originalmente para atender às necessidades espirituais de uma comunidade de imigrantes.
O evento também demonstra que construções históricas podem continuar participando da vida cultural da cidade sem abandonar suas funções originais.
Setenta anos depois, igreja continua ligada à história da imigração
A Igreja Ortodoxa Antioquina São Nicolau chega aos 70 anos reunindo diferentes capítulos da história de Goiânia. Sua construção envolveu imigrantes do Oriente Médio e de outras regiões, sua organização comunitária esteve relacionada à criação de uma escola e sua trajetória posterior incluiu iniciativas de acolhimento a pessoas que chegaram ao Brasil.
As pesquisas acadêmicas desenvolvidas na UFG e na USP ajudam a compreender o contexto histórico dessas experiências. Elas mostram como língua, religião, comércio e relações familiares participaram da formação das comunidades árabes em Goiás.
A igreja preserva parte dessa memória em um endereço que continua movimentado, na Avenida República do Líbano, no Setor Oeste. Seus vitrais, ícones e celebrações mantêm características de uma tradição cristã que ultrapassa as fronteiras brasileiras.
Às vésperas dos 93 anos de Goiânia, a história de São Nicolau revela uma dimensão da capital que nem sempre aparece nas narrativas sobre sua fundação e crescimento.
Muito antes de se tornar uma metrópole com mais de um milhão de habitantes, Goiânia já recebia famílias que traziam consigo culturas, tradições e formas diferentes de viver a religião.
Setenta anos depois, a igreja construída por parte desses imigrantes permanece como um dos testemunhos materiais dessa história. Quem passa pela República do Líbano pode enxergar apenas mais um templo entre prédios e avenidas. Por trás de suas portas, porém, está preservada uma parte da memória de quem chegou de longe e ajudou a construir Goiânia.