Era para ser um shopping: terreno que abrigava joia da arquitetura modernista segue abandonado em Goiânia
Antiga sede da Celg, construída nos anos 1950, foi referência da arquitetura moderna de Goiânia e acabou demolida após anos de abandono, disputa por tombamento e interesse imobiliário no terreno
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Um edifício construído entre 1956 e 1958 para representar a modernização energética de Goiás desaparece da Avenida Anhanguera quase sete décadas depois. A antiga sede das Centrais Elétricas de Goiás (Celg), no Setor Oeste, entra durante anos em uma disputa entre preservação patrimonial e aproveitamento imobiliário de um terreno com quase 15 mil metros quadrados. Documentos técnicos registram que os proprietários apresentavam intenção de construir um shopping na área, enquanto pesquisadores e entidades de arquitetura defendiam a conservação do conjunto. A demolição começa em 17 de fevereiro de 2025, depois de a Prefeitura de Goiânia conceder alvará quatro dias antes.
A construção não era tratada apenas como um imóvel administrativo antigo. Estudos acadêmicos a inserem no processo de chegada e consolidação da arquitetura moderna em Goiânia, ao lado de outros edifícios erguidos a partir da década de 1950. O prédio possuía cerca de 3,8 mil metros quadrados construídos e reunia concreto armado, vidro, elementos vazados, jardins, espelhos d’água e soluções destinadas ao controle do sol e da ventilação. Em seu interior também estava um painel de Frei Nazareno Confaloni produzido em 1961.
O ponto que transforma a antiga Celg em um caso de estudo sobre patrimônio urbano aparece antes mesmo da demolição. Em 2009, um diagnóstico de patrimônio utilizado posteriormente pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás já apontava a pressão provocada pelo potencial construtivo da área. Dez anos depois, começa a tentativa de tombamento estadual e, em 2020, o próprio CAU-GO leva ao Ministério Público a discussão sobre a preservação do conjunto. O edifício desaparece em 2025, enquanto a história de sua deterioração passa a alimentar estudos sobre os limites da proteção da arquitetura do século XX em Goiânia.
Pesquisa acadêmica transformou a antiga Celg em estudo sobre perda do modernismo
Dois anos antes da demolição, quatro pesquisadores dedicam um artigo científico ao edifício. Publicado na Revista Nós: Cultura, Estética e Linguagens, da Universidade Estadual de Goiás (UEG), o trabalho recebe o título “A Ruína do Moderno em Goiânia: uma análise a partir do edifício da antiga sede da CELG”. Os autores são Camilla Pompêo de Camargo e Silva, Marcelo de Mello, Milena d’Ayala Valva e Rangel Henrique Brandão Silva. O estudo possui DOI e integra a produção acadêmica sobre arquitetura, patrimônio e transformação urbana da capital.
A pesquisa analisa a antiga Celg como exemplo de uma diferença existente na leitura do patrimônio arquitetônico de Goiânia. A cidade possui reconhecimento consolidado pela arquitetura Art Déco associada à construção da nova capital, mas edifícios das décadas posteriores recebem níveis diferentes de reconhecimento e proteção. Os pesquisadores situam a sede da Celg dentro da produção moderna que acompanha a expansão de Goiânia a partir da segunda metade do século XX. O abandono do imóvel aparece no artigo não apenas como deterioração física, mas como parte da discussão sobre a perda de referências materiais da cidade.
O artigo pode ser consultado diretamente na Revista Nós, da Universidade Estadual de Goiás. A pesquisa antecede a demolição e, por isso, registra o edifício quando sua permanência ainda estava em discussão. Depois de fevereiro de 2025, o objeto descrito pelos pesquisadores deixa de existir fisicamente. O trabalho passa, então, a funcionar também como registro documental de uma arquitetura que já não pode mais ser observada no endereço original.
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Prédio nasce no momento em que Goiás amplia sua infraestrutura
A antiga sede surge poucos anos depois da criação da Celg, instituída em 1955. O novo edifício começa a tomar forma na segunda metade daquela década, em um contexto de expansão da rede de energia e de reorganização econômica do Centro-Oeste. O período também coincide com a construção de Brasília e com a intensificação de investimentos federais em infraestrutura na região. O projeto da sede passa, dessa forma, a representar materialmente a relação entre energia, administração pública e modernização urbana.
A autoria arquitetônica é atribuída a Oton Nascimento, enquanto Gustav Ritter aparece relacionado ao paisagismo do conjunto. A antiga sede utiliza princípios presentes na arquitetura moderna brasileira, como horizontalidade, estrutura de concreto, grandes planos de vidro e elementos vazados para controle climático. O interior utiliza pé-direito amplo, escadas e passarelas, além de integração entre espaços internos e externos. Essas características explicam por que o imóvel aparece posteriormente em pesquisas e documentos destinados à arquitetura moderna da capital.
A UFG também trata o prédio como referência da arquitetura moderna ao registrar a experiência do Museu do Depois do Amanhã instalada no local em 2024. A universidade informa que a construção data do fim da década de 1950 e associa sua concepção a Gustav Ritter e Oton Nascimento. A descrição acadêmica destaca inclusive os elementos vazados usados para controlar sol e ventilação. O registro está disponível no Jornal da Universidade Federal de Goiás.
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Terreno de quase 15 mil metros quadrados entra na disputa imobiliária

O tamanho e a localização ajudam a explicar o interesse pelo lote. A antiga Celg ficava na Avenida Anhanguera, no Setor Oeste, em uma área próxima ao Lago das Rosas e conectada a regiões com comércio, serviços e corredores de transporte. Documentos ligados à discussão patrimonial registram uma área de quase 15 mil metros quadrados. O potencial de ocupação passa a fazer parte das preocupações de técnicos antes mesmo do início do processo de tombamento.
Em manifestação encaminhada ao Ministério Público, o CAU-GO recupera avaliações anteriores sobre a possibilidade de substituição da construção diante da capacidade de aproveitamento imobiliário do terreno. O documento registra também uma intenção dos proprietários de utilizar a área para um shopping. Esse dado precisa, entretanto, ser tratado com precisão: ele comprova que existiu um plano para centro comercial, mas não permite afirmar que a demolição de 2025 tenha ocorrido para executar imediatamente esse mesmo projeto. Até a pesquisa realizada para esta reportagem, não foi localizado anúncio oficial posterior que confirme o início do empreendimento.
A distinção é fundamental. Dizer que “o prédio foi demolido para a construção de um shopping” estabeleceria uma relação causal que exige um projeto contemporâneo à autorização de demolição. O que a documentação sustenta é que o terreno possui potencial imobiliário, que houve um plano de centro comercial e que a estrutura posteriormente foi demolida. A manifestação institucional sobre a preservação pode ser consultada no Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás.
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Tombamento chegou a receber manifestação favorável

O processo de tombamento estadual começa em 2019. Durante sua tramitação, o edifício recebe proteção provisória enquanto técnicos analisam arquitetura, estado de conservação, memória institucional e o painel de Frei Confaloni. Uma ata oficial do Conselho Estadual de Cultura mostra que, em 2020, a discussão já estava formalmente dentro da estrutura estadual de patrimônio. O processo do imóvel aparece também em documentos administrativos da Secretaria de Estado da Cultura nos anos seguintes.
A trajetória, porém, muda conforme o prédio perde partes de sua configuração original. A matéria publicada pelo Mais Goiás no momento da demolição registra que, após a conclusão do dossiê técnico da Secult, o Conselho Estadual de Cultura decide pelo não tombamento definitivo em 2023. O parecer considera que o nível de deterioração exigiria reconstruções extensas. Segundo a posição apresentada pelo Conselho, esse processo poderia produzir o chamado “falso histórico”, em vez de conservar material original.
A questão cria um ponto central para o debate patrimonial: a degradação ocorre durante o próprio período em que a proteção ainda está em análise. O Mais Goiás registra que integrantes do Conselho afirmam que os proprietários possuíam obrigação legal de preservar o bem mesmo durante o tombamento provisório. A Secult informa também que universidades, Ministério Público, CAU e comunidade participam das demandas de preservação. As atas do órgão podem ser consultadas na página oficial do Conselho Estadual de Cultura de Goiás.
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Painel de Confaloni é retirado antes da demolição

A antiga sede reúne arquitetura e artes visuais no mesmo conjunto. Em 1961, Frei Nazareno Confaloni produz o painel “Energia elétrica: a origem, a invenção e o usufruto”, obra com aproximadamente nove metros de largura e quase três metros de altura. O trabalho representa etapas relacionadas à produção e ao uso da energia elétrica. A pintura ocupa o edifício por mais de seis décadas e sobrevive à estrutura que a abrigava.
O painel sofre vandalismo em 2020, episódio que leva técnicos a avaliar as possibilidades de recuperação. Em 2022, a Secretaria de Estado da Cultura contrata, por R$ 45 mil, uma consultoria especializada para vistoria, análise do estado de conservação e emissão de parecer técnico sobre a restauração. O contrato identifica expressamente a obra como localizada na antiga sede da Celg e informa que o prédio estava em processo de tombamento. Os dados do contrato permanecem disponíveis no portal oficial da Secretaria de Estado da Cultura.
Em agosto de 2023, o Governo de Goiás conclui a transferência do painel para o Centro Cultural Oscar Niemeyer. A operação ocorre antes da demolição do edifício e preserva uma das partes do conjunto original. A retirada também evidencia uma divisão entre o destino da obra artística e o destino da arquitetura: a pintura recebe uma estratégia de salvaguarda, enquanto o prédio perde a proteção definitiva.
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Prédio abandonado vira museu antes de desaparecer

Em 2024, quando o edifício já apresenta sinais de deterioração, pesquisadores e artistas vinculados à UFG transformam o espaço no Museu do Depois do Amanhã, o Mudda. O projeto de extensão ocupa a ruína e utiliza marcas produzidas pelo tempo e pelo abandono como elementos da própria experiência artística. Plantas, fungos, infiltrações, grafites e intervenções passam a fazer parte do acervo. Em vez de restaurar uma imagem anterior do prédio, a proposta discute o próprio processo de deterioração.
O experimento ganha outro significado após fevereiro de 2025. Sem o edifício, fotografias, documentos, vídeos e fragmentos passam a representar aquilo que existia naquele endereço. Em março de 2026, a exposição “Marcha para o fim do Oeste”, no Centro Cultural UFG, utiliza escombros da antiga sede para discutir memória urbana e demolição. A universidade informa que o material deriva diretamente do edifício e da experiência do Mudda.
A transformação da demolição em objeto artístico mostra que a discussão sobre a Celg continua mesmo depois da perda física. A UFG define o edifício como referência da arquitetura local e relaciona seu desaparecimento a processos de abandono e deterioração do legado moderno de Goiânia. A pesquisa e a exposição podem ser consultadas no Jornal da UFG.
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Caso da Celg expõe uma lacuna na preservação da arquitetura moderna
A antiga Celg coloca em discussão uma característica da memória arquitetônica de Goiânia. Parte da identidade patrimonial da cidade permanece associada aos edifícios Art Déco construídos nas primeiras décadas da capital, enquanto a produção posterior ainda passa por processos de inventário e reconhecimento. A UFG já catalogou 339 residências construídas entre as décadas de 1930 e 1970 em levantamento destinado a identificar diferentes linguagens arquitetônicas. O estudo encontrou nove linguagens e selecionou 180 imóveis para análise mais aprofundada.
A própria trajetória da Celg mostra por que inventariar não significa necessariamente preservar. O edifício recebe atenção acadêmica, mobiliza CAU, Ministério Público, universidades e órgãos culturais e entra em processo de tombamento. Ainda assim, a degradação avança e a proteção definitiva não ocorre. Quando a demolição começa, em fevereiro de 2025, a cidade perde a possibilidade de conservar aquele exemplar em seu endereço original.
A discussão aparece também em pesquisas atuais sobre o Centro e as áreas mais antigas de Goiânia. Especialistas ouvidos pelo Mais Goiás defendem que requalificação urbana precisa incorporar patrimônio, habitação, mobilidade, atividade econômica e planejamento de longo prazo, e não apenas substituir estruturas. A questão envolve decidir quais referências materiais permanecem capazes de contar diferentes etapas da formação da cidade. O inventário acadêmico pode ser consultado no material divulgado pela Universidade Federal de Goiás.
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O que permanece depois da demolição
A autorização municipal encerra a discussão sobre a permanência física do prédio, mas não encerra a história do endereço. O alvará de demolição foi concedido em 13 de fevereiro de 2025 e as máquinas começam o trabalho no dia 17. Quatro anos depois do alerta do CAU ao Ministério Público e seis anos após o início do processo de tombamento, a estrutura deixa de fazer parte da Avenida Anhanguera.
O painel de Confaloni permanece fora do imóvel, estudos acadêmicos guardam plantas, fotografias e análises da construção e a UFG conserva parte da discussão por meio de projetos artísticos. A antiga sede também permanece como objeto de investigação sobre o modo como Goiânia reconhece edifícios produzidos depois da fase inicial da capital. O caso permite comparar patrimônio arquitetônico com outros elementos urbanos que só passam a receber atenção quando a possibilidade de desaparecimento já está próxima.
A questão que permanece é o uso futuro de uma área de quase 15 mil metros quadrados em um dos principais corredores urbanos da capital. A intenção de implantação de um shopping faz parte da documentação histórica da disputa, mas não há, nas fontes oficiais e acadêmicas localizadas nesta pesquisa, confirmação suficiente para afirmar que esse projeto seja o uso atualmente definido para o terreno. O que pode ser afirmado é que o prédio modernista deixa de existir depois de décadas de funcionamento, anos de abandono e uma tentativa de proteção patrimonial. Sua história permanece disponível em pesquisas como o artigo científico da UEG sobre a ruína da antiga Celg.
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