10 ANOS NA RUA

Irmã de catador de latinha que ganhou ‘transformação’ conta como ele foi parar na rua

A história do catador de latinhas que ganhou uma “repaginada” depois pedir uma lâmina emprestada…

A história do catador de latinhas que ganhou uma “repaginada” depois pedir uma lâmina emprestada para se barbear teve um final, no mínimo, emocionante. Após passar por uma verdadeira transformação proporcionada por uma barbearia de Goiânia, João Coelho Guimarães, de 44 anos, foi reconhecido por uma de suas irmãs, Maria Guimarães, de 41 anos, que viajou de Brasília até Goiânia para reencontrá-lo depois de 10 anos sem ver um ao outro. Apesar da emoção, João não quis voltar pra casa e a irmã conta o porquê de, hoje, ele viver nas ruas.

Tudo teve início quando, na última terça-feira (15), a barbearia e alfaitaria Padoo Moda Masculina, localizada no setor Marista, em Goiânia, publicou em suas redes sociais a história de João Coelho. Segundo a barbearia, todos os dias João Coelho (que é de Niquelândia, mas vive nas ruas de Goiânia) passava na rua catando latinhas até que, num desses dias, pediu aos funcionários do estabelecimento uma lâmina para se barbear.

O pedido comoveu o dono do lugar, o empresário Alessandro Lobo, que resolver dar a João uma completa repaginada. “Foi muito espontâneo. Quando ele fez o pedido, a gente operou uma transformação. Fizemos barba, cabelo e bigode. Depois, demos um blazer, três camisas, uma calça jeans e um sapato, para ele poder procurar um emprego ou algo melhor para ele. Deu para notar a felicidade em que ele ficou”, conta.

A mudança na aparência de João foi surpreendente e seu rosto, antes escondido pela barba e cabelos desgrenhados e sujos, finalmente apareceu limpo e bem cuidado.

O reencontro com a irmã

O caso de João acabou viralizando, o que levou sua irmã, Maria Guimarães, moradora de Brasília a reconhecê-lo. A mulher estava há 10 anos à procura do irmão e só soube do seu paradeiro após receber de uma pessoa o link de uma matéria sobre o morador de rua que ganhou um banho de loja em Goiânia.

Maria, então, saiu de Brasília, onde mora, nesta quinta-feira (17) e rumou para Goiânia. Ela esperou em uma rua onde João é visto passando diariamente, até que o encontrou. Emocionada, a mulher abraçou o irmão, que retribuiu o gesto de afeto.

Durante a conversa, João lembrou que tinha outros três irmãos. No entanto, quando foi convidado pela irmã para voltar com ela a Brasília, João recusou. Em entrevista a uma TV local, Maria disse que acatou a decisão do irmão. ‘Ele falou que não quer ir. Eu respeito. O amor não é à força. Você tem que querer. Só de saber que ele está aqui, de pedir para ele não se afastar e para a gente manter contato, já vale”, disse.

A história de João

João Coelho, que hoje cata latinhas para sobreviver, é o terceiro de 5 filhos. De acordo com sua irmã, a família é natural de Niquelândia, no Norte do estado. Maria descreve o irmão como uma pessoa com “um coração gigante e capaz de tirar o dele e dar ao próximo” e que sempre foi “extremamente limpa, organizada”, mas que há anos vive em condições de rua.

João trabalha desde criança. Segundo Maria,  quando menino, o irmão costumava vender coisas na rua, como quitandas e picolés. Quando adulto, João trabalhava como auxiliar de soldador, mas pegava “o que tivesse no momento”. Na família, além de Maria, João tem outros três irmãos, além de sobrinhos, tios e mãe.

Conforme Maria, João nunca usou drogas, não fuma e tem, segundo ela, “uma cabeça boa”. Nunca foi de muita conversa, mas era meigo e carinhoso com a família. No entanto, cerca de 10 anos atrás, Maria conta que João saiu de casa, em Niquelândia, para trabalhar em outro lugar e não voltou mais. A família o procurou por anos, mas sem sucesso.

João Coelho e sua sobrinha. Na ocasião da foto, a menina tinha 5 anos. Hoje, tem 24 | Foto: Arquivo pessoal

A irmã de João diz não saber explicar a vontade dele de viver nas ruas, uma vez que ele recusou o convite para viver com ela, mas atribui isso “à forma que ele encontrou de ser livre”. “Não houve brigas, abuso ou algo do tipo, porém ainda não sabemos o que levou a viver assim. ”

“Ele não aceitou vir com nós, mas já ficamos muito felizes em saber que está bem, no meio dessa pandemia, onde ao tivemos notícias ruins. Podemos comemorar esse reencontro, mesmo não sendo da forma que planejamos, né?”, afirma.

Maria relata que não pretende desistir do irmão. Segundo ela, “o sonho de todos é resgatá-lo”. “Tem muitas pessoas se prontificando em ajudar e nessa hora, todo ajuda será bem vinda […]. Vamos lutar pra um reencontro da forma que sonhamos”.