Terça-feira, 28 de Julho de 2026
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Clima férias e ventos: por que julho, agosto e setembro são os meses mais perigosos para empinar pipas em Goiás

Especialistas explicam por que esse período concentra mais ocorrências no Estado

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
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As férias escolares chegaram e, com elas, uma tradição que atravessa gerações voltou a colorir o céu de Goiás. Crianças, adolescentes e até adultos aproveitam os ventos típicos do inverno para empinar pipas em ruas, praças e terrenos abertos. O que muitos não percebem é que o mesmo período considerado ideal para a brincadeira também concentra um aumento expressivo nas ocorrências envolvendo a rede elétrica.

Julho, agosto e setembro correspondem ao auge da estação seca no Centro-Oeste. A combinação entre ausência de chuvas, baixa umidade relativa do ar e ventos mais constantes cria condições favoráveis para manter as pipas no ar por mais tempo. Ao mesmo tempo, esse cenário aumenta a quantidade de linhas próximas à fiação elétrica, elevando o risco de interrupções no fornecimento de energia e acidentes. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) aponta que o período é caracterizado pela persistência do tempo seco e baixos índices de umidade na região central do país. 

Os reflexos já aparecem nas estatísticas. Levantamento da Equatorial Goiás mostra que, somente no primeiro semestre de 2026, 288 ocorrências envolvendo pipas na rede elétrica interromperam o fornecimento de energia para mais de 70 mil consumidores em todo o estado. 

Férias escolares impulsionam ocorrências

O crescimento dos registros acompanha justamente o período em que crianças e adolescentes passam mais tempo ao ar livre.

Dados da Equatorial apontam que abril registrou aumento de 45% nas ocorrências em relação a março. Em maio, foram contabilizados 129 casos e, em junho, outros 112. Nos primeiros dias de julho, quando começam as férias escolares, a concessionária já havia identificado novos registros, mantendo a tendência de crescimento. 

Os municípios da Região Metropolitana concentram a maior parte das ocorrências. Goiânia lidera o ranking estadual, seguida por Aparecida de Goiânia, Senador Canedo e Trindade. Juntas, as quatro cidades representam cerca de 55% dos casos registrados em Goiás. 

Segundo especialistas, a concentração está relacionada à maior densidade populacional, à presença de redes elétricas aéreas em praticamente todos os bairros e ao aumento da circulação de pessoas durante as férias.

O problema não é a pipa. É a tentativa de recuperá-la.

Ao contrário do que muitos imaginam, a maioria dos desligamentos não acontece quando a linha simplesmente encosta na rede elétrica. Ao Mais Goiás, o gerente do Centro de Operações Integradas da Equatorial Goiás, Vinicyus Lima, explicou que o maior risco ocorre quando alguém tenta retirar a pipa presa na fiação. “Quando a pessoa puxa a linha, ela provoca movimentação dos cabos. Dependendo da situação, pode ocorrer contato entre os fios, curto-circuito ou até rompimento da rede. Em muitos casos, o sistema desliga automaticamente para evitar acidentes ainda maiores”, detalha.

O especialista explica que outro agravante é o uso de cerol e linha chilena. Além de proibidos pela legislação goiana, esses materiais podem danificar a proteção dos cabos elétricos e aumentar significativamente o risco de acidentes graves.

Como uma única pipa pode apagar um bairro inteiro

O que pouca gente sabe é que uma única ocorrência pode interromper o fornecimento de energia para milhares de imóveis. Isso acontece porque as pipas frequentemente atingem os chamados alimentadores, circuitos responsáveis por distribuir energia das subestações para bairros inteiros.

Quando sensores identificam qualquer anormalidade, como curto-circuito ou contato entre cabos, dispositivos de proteção desligam automaticamente o circuito para preservar equipamentos e evitar acidentes com a população. Segundo a Equatorial, um único incidente registrado em Formosa deixou aproximadamente 5,5 mil consumidores sem energia. Em Goiânia, outra ocorrência afetou quase 5 mil clientes.  Além das residências, o desligamento pode comprometer o funcionamento de hospitais, semáforos, escolas, indústrias, supermercados e outros serviços essenciais.

O problema se repete em todo o Brasil

Embora os números chamem atenção em Goiás, a situação não é exclusiva do estado.

Distribuidoras de energia de diferentes regiões do país reforçam campanhas educativas entre julho e setembro justamente porque o período reúne as condições climáticas mais favoráveis para empinar pipas. Paraná, Minas Gerais e São Paulo registram ocorrências semelhantes todos os anos, principalmente durante o inverno e as férias escolares. 

Além dos apagões, especialistas alertam para os riscos de acidentes com a rede elétrica.

Segundo a Associação Brasileira de Conscientização para os Perigos da Eletricidade (Abracopel), acidentes envolvendo eletricidade continuam entre as principais causas de mortes relacionadas ao contato com redes energizadas, reforçando a importância de manter distância dos fios e jamais tentar recuperar objetos presos na fiação. 

Especialistas orientam prevenção

A recomendação é que pipas sejam empinadas apenas em locais abertos, como parques, campos e áreas afastadas da rede elétrica.

Também é importante evitar o uso de cerol, linha chilena, fios metálicos ou qualquer material condutor de eletricidade.

Caso a pipa fique presa na rede, a orientação é nunca tentar recuperá-la utilizando varas, escadas ou subindo em postes e árvores. Se houver rompimento de cabos, a população deve manter distância do local e acionar imediatamente o Corpo de Bombeiros e a distribuidora de energia.

Para especialistas, a tradição de empinar pipas faz parte da cultura brasileira e deve ser preservada. O desafio é adaptar a brincadeira ao ambiente urbano, onde a proximidade da rede elétrica exige mais cuidados do que no passado.

Em uma época marcada por ventos constantes, clima seco e férias escolares, a diversão continua possível, desde que a segurança venha em primeiro lugar.

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