‘Meu sonho é voltar a correr’: conheça doença rara que deixou goiana tetraplégica 5 vezes em 17 anos
Fisioterapeuta e apaixonada por corrida de rua, Roberta Rodrigues enfrenta uma polirradiculoneuropatia inflamatória axonal crônica
O esporte sempre ocupou lugar central na vida da fisioterapeuta Roberta Rodrigues. Antes de se dedicar à corrida de rua, praticou capoeira e muay thai, modalidade em que chegou a competir profissionalmente. Diagnosticada inicialmente com Síndrome de Guillain-Barré, ela descobriu, após sucessivas crises, que enfrentava uma condição ainda mais rara e complexa, a polirradiculoneuropatia inflamatória crônica (CIDP Anoxal). Ao longo dos últimos 17 anos anos, Roberta já enfrentou cinco episódios de tetraplegia.
Estava inscrita para a Maratona do Rio de Janeiro de 2025 e seguia em ciclo de preparação quando sofreu uma das crises mais graves da doença. No período da prova, estava acamada e sem movimentos.
A primeira crise ocorreu ainda na adolescência, quando tinha 15 anos. Desde 2007, já foram dez internações em Unidade de Terapia Intensiva. Em nove delas, precisou ser intubada e, em cinco episódios, evoluiu para tetraplegia, ficando sem movimentos do pescoço para baixo.
A doença atinge o sistema nervoso periférico e, diferentemente da forma clássica da Síndrome de Guillain-Barré, que compromete principalmente a bainha de mielina, camada que protege os nervos, o quadro de Roberta afeta diretamente o axônio, estrutura responsável pela condução dos impulsos nervosos. Enquanto a forma aguda costuma ocorrer uma única vez, no caso dela as crises se repetiram ao longo de quase duas décadas, sempre exigindo longos períodos de internação e reabilitação intensiva.

Trabalho e Superação
Natural de Santa Fé de Goiás, cidade do interior, Roberta tem hoje 33 anos e mora em Goiânia. Entre uma crise e outra, construiu uma trajetória marcada por disciplina e superação. Formou-se em Fisioterapia, ingressou em universidade pública e foi aprovada em primeiro lugar em programas de residência na Universidade Federal de Goiás e no Centro Estadual de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer). Também conquistou o primeiro lugar em concurso federal da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares e atualmente atua como preceptora no Hospital das Clínicas de Goiânia (HC).
Durante a pandemia de Covid-19, esteve na linha de frente do atendimento hospitalar. Roberta conta que ficou conhecida por orar com pacientes internados, oferecendo palavras de fé em meio a um dos períodos mais desafiadores da saúde pública. Movida pela espiritualidade, afirma acreditar que sua trajetória tem propósito.

Corridas em Goiânia
Mesmo com limitações respiratórias e utilizando Bipap, aparelho que auxilia a respiração por meio de pressão positiva, decidiu que não abriria mão de estar nas largadas. Em corridas realizadas em Goiânia, empurrou a própria cadeira de rodas com o equipamento acoplado. Em outra prova, já após nova piora do quadro, foi empurrada pelo irmão debaixo de chuva. Cada chegada representa, para ela, uma reafirmação de que ainda está em movimento.
Ela também levanta uma bandeira por mais acessibilidade nas corridas de rua. Como costuma participar sendo empurrada pelo irmão, precisa arcar com duas inscrições. Para Roberta, o mínimo seria a isenção da taxa para pessoas com deficiência ou, ao menos, condições diferenciadas que garantam participação mais justa.
Após um sonho que interpretou como resposta às suas orações, foi a um shopping ainda em cadeira de rodas e utilizando órteses para comprar um novo par de tênis de corrida. Ao vendedor, declarou com convicção que acredita que voltará a andar e a correr com aquele tênis. O calçado permanece guardado como promessa.
Próxima meta: Maratona do Rio de 2026
Embora o processo de retomar os movimentos das pernas seja lento, Roberta mantém a fisioterapia intensiva como sua principal aliada, movida pela determinação inabalável de alcançar sua meta definitiva: voltar a correr. Está inscrita para a Maratona do Rio de 2026 e pretende participar da prova de cinco quilômetros, seja andando, seja na cadeira de rodas.
“E sabe por que eu gosto muito da corrida e estou envolvida nesse meio? Pela energia que isso me dá. Eu nunca fiz pensando no outro, sabe? Mas estar ali na linha de largada me faz achar que tudo é possível, que eu vou conseguir. A energia do pessoal, aquela gritaria, aquela euforia, me faz acreditar que eu vou voltar ao normal. Eu tenho uma fé muito grande de que isso vai acontecer e não luto só por mim”, contou em entrevista ao Mais Goiás.

Ela afirma que também corre por outras pessoas com deficiência que, muitas vezes, não conseguem sair de casa ou acabaram desistindo dos próprios sonhos. Para ela, é por isso que a luta por mais acessibilidade e apoio é tão importante. “Creio que vou passar de tetraplégica a maratonista”, afirma.