Quem era José Adriano, imperador do Divino que morreu durante romaria nos Pireneus
Aos 56 anos, devoto abriu a própria casa aos festeiros, conduziu cortejos e comandou a Festa do Divino de Pirenópolis em 2026.
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“É uma honra muito grande receber o primeiro terço dentro de casa.” A declaração feita por José Adriano Pompeo de Pina Jayme, em abril deste ano, ajuda a explicar a relação dele com a Festa do Divino Espírito Santo de Pirenópolis.
Aos 56 anos, José Adriano ocupou em 2026 uma das funções de maior significado religioso e cultural da cidade: a de imperador do Divino. Durante quase um ano, recebeu devotos, participou de terços, apoiou folias, conduziu cortejos e abriu a própria casa para as atividades da celebração.
José Adriano morreu nesta sexta-feira (31), após sofrer um acidente no Morro dos Pireneus. Ele participava da Festa do Morro, romaria realizada anualmente durante a lua cheia de julho. A morte foi confirmada após uma operação de resgate do Corpo de Bombeiros.
Sorteado no Domingo de Pentecostes
José Adriano não foi eleito, mas sorteado para ser o imperador da Festa do Divino de 2026. A escolha ocorreu durante a Missa Solene do Domingo de Pentecostes de 2025, celebrado naquele ano em 8 de junho.
O sorteio representa um dos principais momentos da festa. Moradores de Pirenópolis interessados em assumir a função inscrevem os próprios nomes, e o escolhido passa a organizar o ciclo religioso do ano seguinte.
Onze dias depois do sorteio, em 19 de junho de 2025, José Adriano recebeu oficialmente a coroa e o cetro das mãos de Eustak Figueiredo, imperador da festa daquele ano.
A cerimônia ocorreu após uma missa na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário. Depois da entrega das insígnias, José Adriano seguiu em cortejo pelas ruas históricas, acompanhado pela Banda Phoenix, até sua residência.
A coroa foi colocada em um altar preparado dentro da casa, onde familiares receberam moradores, devotos e integrantes da festa. A entrega marcou o início oficial do ciclo comandado por José Adriano.
Casa virou ponto de encontro
A função de imperador ultrapassa a representação simbólica. O escolhido assume responsabilidades na organização das folias, novenas, missas, cortejos e Cavalhadas. A residência do festeiro também se transforma em um dos principais pontos de encontro da celebração.
José Adriano dividiu a missão com a esposa, Aspásia Pina. Em abril, o casal recebeu em casa o primeiro terço cantado dos cavaleiros. O rito integra a preparação espiritual de quem participa das Cavalhadas.
Ao falar sobre aquele momento, José Adriano se apresentou como devoto e destacou o trabalho necessário para realizar a festa.
“Para a gente, que foi sorteado como imperador, é uma honra muito grande”, disse. Ele também afirmou que receber o primeiro terço em casa oferecia força à família para cumprir uma missão que classificou como trabalhosa.
José Adriano explicou que 24 cavaleiros participavam dos terços. Os encontros ocorriam nas residências dos integrantes ou de seus familiares e terminavam com uma refeição oferecida pelo anfitrião.
A programação antecedia a saída das folias, os ensaios das Cavalhadas e a produção dos alimentos distribuídos à população durante as visitas à casa do imperador e nas alvoradas. José Adriano falou sobre a preparação em entrevista ao Mais Goiás.
Imperador no bicentenário das Cavalhadas
José Adriano comandou a Festa do Divino em um ano marcado pelos 200 anos das Cavalhadas de Pirenópolis. Realizadas desde 1826, as encenações entre mouros e cristãos integram a programação religiosa e cultural do município.
A edição de 2026 reuniu alvoradas, missas, folias, procissão da bandeira, levantamento do mastro, cortejos e três dias de Cavalhadas.
Em 24 de maio, o Cortejo Imperial saiu da casa de José Adriano em direção à Igreja Matriz. A residência voltou a ocupar o centro da celebração, com a presença de familiares, músicos, integrantes da corte e moradores.
No Domingo de Pentecostes de 2026, Thales José Jayme foi sorteado como imperador da edição de 2027. José Adriano e Aspásia participaram da cerimônia que marcou o início da sucessão.
A passagem oficial da coroa ocorreu em 4 de junho. Depois da missa, José Adriano entregou as insígnias ao sucessor. Thales seguiu em cortejo até a própria residência, conforme o rito repetido anualmente.
Mesmo após a passagem da coroa, José Adriano permaneceu reconhecido como o imperador de 2026. Em Pirenópolis, o título acompanha o nome de quem assume a responsabilidade por cada edição da Festa do Divino.
Tradição mantida pela família
A relação de José Adriano com as manifestações religiosas também alcançava a Festa do Morro, realizada no Pico dos Pireneus.
Informações preliminares repassadas pela Prefeitura de Pirenópolis apontam que a família mantém há aproximadamente 100 anos o costume de colocar bandeiras nos três picos durante a romaria. A tradição teria começado com o bisavô de José Adriano, o comendador Cristóvão de Oliveira.
José Adriano estava acampado no Morro dos Pireneus com familiares e outros romeiros. Segundo a versão preliminar da nota municipal, ele participava da colocação das bandeiras quando sofreu o acidente.
As primeiras informações apontavam que o imperador teria saído sozinho. A apuração posterior confirmou que familiares estavam no acampamento, mas ainda falta esclarecer quem o acompanhava no momento exato do acidente.
O Corpo de Bombeiros mobilizou equipes terrestres e uma aeronave para o resgate. José Adriano, no entanto, não resistiu. O acidente ocorreu em um pico sem acesso regular a visitantes.
A Prefeitura de Pirenópolis informou, em nota preliminar, que a morte provocou comoção entre familiares, amigos, romeiros e moradores. O município também destacou a relação de José Adriano com a fé e com a preservação das tradições culturais da cidade.
As informações sobre o velório e o sepultamento ainda não haviam sido divulgadas até a última atualização desta reportagem.