Sigilo, política e favores: conheça o bairro de Goiânia planejado e construído por prisioneiros de guerra da Alemanha nazista
Governo goiano trouxe 50 prisioneiros de guerra após acordo com o Reino Unido em 1947. Alguns dos oficiais ficaram em Goiânia
O disputado e imponente Setor Jaó, um dos bairros nobres de Goiânia, esconde uma história um tanto curiosa, pouco explorada, mas surpreendente. A planta e a construção das avenidas e ruas que hoje formam o bairro foram feitas por ninguém menos do que prisioneiros de guerra da Alemanhã nazista.
LEIA TAMBÉM
- ‘Tudo pelo Brasil’: veja carta de 1945 atribuída a goiano morto na 2ª Guerra Mundial
- Vida de combatente: a história de goianos que lutaram na Segunda Guerra Mundial
Na época da construção, a leva de 50 oficiais da Wehrmacht — forças armadas da Alemanha — desembarcou em Goiânia após a derrota de Adolf Hitler na 2ª Guerra Mundial (1939-1945). Eles foram trazidos à futura capital para desempenhar o trabalho, visto que eram considerados intelectuais.
“O que chama atenção é que tem algumas características urbanísticas do setor, que são muito inovadoras para a época, em termos de cidade goiana. Eles teriam trago essas inovações”, explica o doutorando em História pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Cristian de Paula.
- Morador de Formosa conta experiência na guerra da Ucrânia: ‘não vale a pena’
- Goiano relata arrependimento ao lutar em guerra na Ucrânia: “Gastei R$ 16 mil”
Os germânicos vieram do Reino Unido para Goiás em 1947, durante a administração do governador Jerônimo Coimbra Bueno. O início da desconhecida passagem dos prisioneiros em solo goiano se deu em uma visita do chefe do Executivo estadual ao embaixador britânico, na sede da embaixada, no Bairro de Botafogo, Rio de Janeiro, que nos anos 40 ainda era capital federal.
Durante o encontro, o embaixador pediu ao então governador de Goiás que acolhesse os prisioneiros de guerra alemães, o que, embora polêmico, foi atendido. O protocolo junto à embaixada britânica foi assinado ainda em 1947, quando um avião — provavelmente da Força Aérea Real — aterrissou em Goiânia com a “tropa” à bordo.
“Eles foram, no primeiro momento, alojados numa penitenciária local. Posteriormente, eles teriam sido levados para uma fazenda no entorno do Setor Jaó. Lá eles ficaram acampados durante esse trabalho de projeto urbano, que teria dado origem ao setor. É uma coisa que ainda precisa ser estudada”, reforça o historiador.
- Antes de desaparecer na guerra da Ucrânia, morador de Rio Verde disse à mãe que ia para Brasília
- Idosa de 101 anos que sobreviveu à Segunda Guerra treina duas horas por dia na academia

Operação sigilosa
Toda a operação de traslado dos europeus até a prisão foi realizada de forma sigilosa, visto que o vazamento poderia se transformar em escândalo sem precedentes. Para evitar a descoberta do acolhimento, os alemães foram transferidos da penitenciária para a Fazenda Retiro da Interestadual Mercantil S/A.
A propriedade rural pertencia a José Magalhães Pinto, banqueiro e político mineiro da antiga UDN, que depois seria governador de Minas Gerais (1961-1966), e principal acionista do então Banco Nacional, uma das maiores instituições bancárias do Brasil. Coimbra Bueno, que era especialista em urbanismo, teve a ideia de transformar a Fazenda Retiro, às margens do Rio Meia Ponte, que servia de acampamento aos alemães.
Magalhães Pinto aprovou a ideia e o governo goiano teria total autonomia nas decisões do projeto. O único pedido do banqueiro foi a denominação das avenidas Pampulha e Belo Horizonte, para homenagear a capital mineira, no que viria ser o Setor Jaó — nome adotado pelos alemães em alusão a um pássaro comum à região.
- Sobreviventes vão a Auschwitz celebrar 75 anos da liberação do campo nazista
- 5 ótimos filmes sobre campos de concentração na 2ª Guerra Mundial
Com exceção das Avenidas Belo Horizonte e Pampulha, os nomes das demais vias começavam com o “J” de Jaó, uma característica alemã de não atribuir nomes aos endereços. Esse sistema de nomenclatura também era usado em outras áreas, como nos submarinos da 2ª Guerra Mundial.
“Os prisioneiros teriam trabalhado na construção e no projeto desse bairro entre 1947 e 1952. Embora fossem prisioneiros, não significa necessariamente que eram todos nazistas. A gente parte do pressuposto de que eram, porque o Exército Alemão, nesse período de final da Segunda Guerra Mundial, era praticamente todo nazificado”, conta Cristian.

Alguns permaneceram
O doutorando esclarece, com base em pesquisas, que os prisioneiros empregados na execução do projeto urbano foram libertos após a conclusão do trabalho. Ainda de acordo com Cristian, depois que construíram o setor, alguns dos prisioneiros optaram por permanecer em Goiânia. Três deles teriam sido: Werner Sonnenberg, Otto Hoffmann e Paul Boetcher.
A migração, inclusive, não se resumiu apenas a eles. Dezenas de partidários do nacional-socialismo — Partido Nazista —, a maioria criminosos de guerra e genocidas, se refugiaram na América Latina. Muitos deles se esconderam na Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Brasil. O Mais Goiás entrou em contato com a Central de Óbitos de Goiânia e com os cemitérios administrados pela Prefeitura para saber se o trio foi enterrado na capital. No entanto, os órgãos informaram que não possuíam dados antigos.
“Existem relatos de que alguns foram convidados para se mudar para outros países na América do Sul, ou seguir por conta própria para outras regiões do Brasil. No entanto, não tem nenhuma indicação de que eles tenham recebido um salário regular ou formal, além de benefícios”, concluiu.
- Fundador do Museu de Ornitologia, José Hidasi é sepultado em Goiânia
- Diário revela que Hitler era apaixonado por atriz antinazista; fotos
