‘Tradição de família’: conhecimento transmitido entre gerações mantém tecelagem viva em Pirenópolis
Família de Pirenópolis mantém viva a tradição da tecelagem há cinco gerações, com conhecimentos transmitidos entre pais, filhos e netos
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Aos 47 anos, Celina Alvarenga mantém viva uma tradição familiar que atravessa cinco gerações. Tecelã em Pirenópolis, na região central de Goiás, ela aprendeu o ofício aos 10 anos, observando a avó e a mãe, e hoje trabalha ao lado dos familiares na produção de peças artesanais e no atendimento a encomendas.
Em entrevista ao Mais Goiás, Celina contou como o conhecimento foi transmitido de geração em geração e como a atividade se transformou ao longo do tempo. Se antes as peças produzidas pela família ajudavam a garantir a subsistência e chegavam a ser trocadas por alimentos, hoje a tecelagem também é fonte de renda por meio de encomendas de hotéis, pousadas, restaurantes e clientes particulares.
“Sou tecelã desde os 10 anos de idade. É uma tradição de família, eu sou a quinta geração”, afirmou.

O ofício compartilhado entre familiares
A tecelagem é conduzida por quatro integrantes da família: Celina, o pai e as duas irmãs, Celentina e Celene. Embora compartilhem o mesmo ofício, cada um tem preferências na produção das peças. O pai se dedica aos tapetes, enquanto Celentina gosta de confeccionar tecidos e capas de almofadas coloridas. Celene, por sua vez, trabalha com colchas de casal e peças em repasso, técnica que permite criar desenhos no tecido.
A produção é distribuída entre diferentes teares, de acordo com as encomendas. Celina trabalha atualmente em três equipamentos na cidade, incluindo um com 1,5 metro de largura. Celentina também utiliza três teares, enquanto Celene trabalha em dois na propriedade rural onde mora. Manter vários equipamentos em funcionamento permite à família produzir peças diferentes e organizar os pedidos conforme a demanda.
O conhecimento sobre a tecelagem também envolve a fabricação dos equipamentos. O pai de Celina aprendeu a fazer teares com o próprio pai e, como já trabalhava como carpinteiro e pedreiro, tinha habilidade para construir as estruturas de madeira. O primeiro tear grande que fez para a família tinha 1,5 metro de largura. Um dos equipamentos antigos, comprado pela mãe de Celina, continua na casa e, segundo a família, pode ter mais de 100 anos.

Atualmente, a família tem nove teares, seis deles fabricados pelo pai. Além dos equipamentos, ele produz acessórios necessários ao funcionamento dos teares, como o liço, componente fundamental para a tecelagem. Aos 80 anos, também passou a tecer, atividade que começou a exercer há cerca de dez anos, depois de ter dedicado boa parte da vida à fabricação e à montagem dos equipamentos.
O irmão de Celina também aprendeu a fabricar teares e acessórios com o pai. Assim, o conhecimento sobre a produção das peças e a construção dos equipamentos permanece compartilhado entre os familiares, que dominam diferentes etapas necessárias para manter o trabalho em funcionamento.
Da subsistência às encomendas
Quando a avó de Celina começou a tecer, a atividade tinha outro papel na vida da família. As peças eram usadas para consumo próprio ou trocadas por alimentos e animais. A avó, que era mineira, mudou-se para Goiás em 1942, levando consigo o conhecimento da tecelagem. Na época, o ofício era comum em fazendas, onde os teares atendiam às necessidades das famílias.
Hoje, a casa também funciona como loja e ateliê, com peças disponíveis para pronta-entrega e produção sob encomenda. Os clientes podem escolher cores, desenhos e dimensões, especialmente no caso dos tapetes, cuja largura é limitada a 1,5 metro pelo tamanho dos teares, enquanto o comprimento pode variar conforme o pedido.

Entre as encomendas estão peças destinadas a hotéis, pousadas e restaurantes. Celina conta que a família está produzindo inicialmente 120 jogos de peseiras, peças colocadas sobre a cama, acompanhadas de capas para almofadas, para um hotel de charme em Pirenópolis. Em outra ocasião, o grupo produziu 450 capas de almofadas para um estabelecimento e também confeccionou jogos americanos para o restaurante Cachoeira.
Para Celina, atender a empreendimentos locais ajuda a divulgar o trabalho artesanal e cria uma relação que beneficia tanto os comerciantes quanto a família. Os hóspedes conhecem as peças na decoração dos espaços e, por meio das etiquetas, podem chegar até a loja.
Além do retorno financeiro, a tecelagem também proporciona à família a oportunidade de conhecer novos lugares e culturas por meio de trabalhos realizados fora de Pirenópolis. Celina já passou dois meses em Pompéu, em Minas Gerais, ensinando a técnica a integrantes de uma associação, enquanto o pai e o irmão fabricavam teares para o projeto.
A tradição para as próximas gerações
A continuidade da tecelagem depende da transmissão de conhecimentos que vão além do manejo dos fios. Saber fabricar os teares, reconhecer os componentes e realizar reparos também faz parte da experiência acumulada pela família. Como diferentes integrantes dominam essas etapas, o trabalho não depende exclusivamente de uma pessoa.
A expectativa de Celina é que as crianças da família também tenham contato com o ofício e, no futuro, decidam aprendê-lo. Seu pai tem três bisnetas: Lívia, ainda bebê, Clarice, de dois anos, e Ana Cecília, de quatro. Ainda pequenas, elas representam a possibilidade de que a tradição familiar continue nas próximas gerações, embora não seja possível afirmar se alguma delas seguirá o ofício.
“A gente tem a esperança que a sexta geração só está adormecida”, afirmou Celina.
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