RACISMO

‘Vocês são princesas’: reação de crianças encanta mulheres negras em shopping de Goiânia

Crianças elogiaram e se emocionaram com mulheres vestidas como realeza africana. Recepção entre adultos não foi tão positiva

josi x shopping
Josi Albuquerque, uma das idealizadoras da visita de sete mulheres negras vestidas como realeza africana a um shopping de Goiânia (Foto: Arquivo Pessoal)

Entre olhares enviesados, celulares erguidos e comentários sussurrados, foram as crianças que fizeram os comentários mais elogiosos durante a visita de sete mulheres negras vestidas como realeza africana a um shopping da capital. Em meio ao passeio pelo centro comercial, elas se aproximaram sem receio, chamaram o grupo de “princesas”, pediram fotos e ofereceram abraços, uma reação que, segundo as participantes, contrastou fortemente com o preconceito por parte dos adultos, especialmente nas redes sociais após a viralização do vídeo.

“Nossa, vocês estão lindas. Vocês são princesas!”, repetiam crianças de diferentes idades, segundo relataram as participantes.

“As crianças foram o que mais me tocou. Criança não nasce racista. Elas são espontâneas, sinceras. Enquanto muitos adultos apenas observavam ou se calavam, elas vinham abraçar, dar tchau, elogiar. Isso mexeu comigo profundamente”, afirma Josi Albuquerque, uma das idealizadoras da ação.

Entre os corredores do shopping, crianças brancas e negras reagiram com entusiasmo às roupas coloridas, aos vestidos longos e à postura das mulheres. Algumas voltavam mais de uma vez para repetir os elogios. Outras puxavam os pais pela mão para se aproximar do grupo.

“Teve criança que passou, deu a volta e voltou só para falar de novo que a gente estava linda. Isso é algo que não tem preço”, relembra Josi.

A cena reforçou, para as participantes, a percepção de que o preconceito é aprendido com o tempo, e não algo característico da infância.

Entre as mulheres que participaram diretamente da experiência, duas eram crianças. Heloísa Werneck, de 7 anos, e Hallana Werneck, de 12, acompanharam o passeio e também apareceram nos vídeos publicados nas redes sociais.

“Eu gostei de passear no shopping, me senti importante. Algumas pessoas foram carinhosas e pediram até para tirar foto com o grupo”, conta Heloísa.

Ao falar sobre os comentários preconceituosos que surgiram depois, a menina demonstra maturidade ao reconhecer a gravidade da situação. “Na minha escola falaram que preconceito é crime. Eu fiquei muito triste quando postaram o vídeo e as pessoas falaram que a gente era feia”, diz.

Já Hallana, de 12 anos, relata a experiência como algo marcante e transformador: “Eu amei estar lá no shopping, me senti empoderada e muito feliz. As pessoas sorriam, aplaudiam com os olhos. Foi surreal”, afirma.

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Visita de mulheres negras vestidas como realeza africana a shopping de Goiânia gera elogios e expõe racismo nas redes (Foto: Arquivo Pessoal/Josi Albuquerque)

Apesar do entusiasmo, a adolescente também percebeu o contraste nas reações.“É lamentável que ainda existam pessoas que sentem desconforto ou preconceito ao ver pessoas negras em espaços públicos. Todos têm direito de estar ali e se sentir seguros”, pontua.

Quando o preconceito atinge a infância

Se dentro do shopping as crianças demonstraram acolhimento, a exposição do vídeo nas redes trouxe um impacto doloroso para as famílias e para o grupo. Comentários racistas atingiram não apenas as mulheres, mas também as crianças que apareciam nas imagens.

“A gente tinha crianças no vídeo. Isso foi o que mais doeu. Não deixamos que elas tivessem acesso a esses comentários, porque machuca. Quando você vê uma criança sendo atingida por ódio gratuito, você entende o quanto isso é cruel. A gente tenta ensinar o amor, o respeito, mas a internet ainda expõe muita maldade”, afirma Josi.

Para as participantes, o episódio deixou uma lição clara: enquanto muitos adultos ainda reproduzem preconceitos, as crianças demonstram que o respeito pode, e deve, ser aprendido desde cedo.

“Elas nos lembraram que a humanidade começa no olhar da criança. O racismo não nasce com a gente, ele é ensinado. E, se é ensinado, pode ser combatido”, resume Josi.