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Diretor de fotografia vencedor do Grammy, Fernando Young realiza sonho e lança projeto sobre cavalhadas de Pirenópolis

Mais Goiás entrevista autor de cliques de celebridades que transformou sensibilidade artística em livro e exposição em cartaz no Rio de Janeiro

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Imagem: Divulgação Fernando Young/Ana Branco

Ele já fotografou Gilberto Gil, Marisa Monte, Maria Bethânia, Fernanda Montenegro, Grazi Massafera e Wagner Moura, entre outros. Também assinou a fotografia de importantes produções no cinema e na televisão. E mais: venceu o Grammy Latino pela arte do álbum “Abraçaço” (2012), de Caetano Veloso. Estamos falando de Fernando Young, carioca que, após voltar ao Brasil depois de um período na Espanha, decidiu realizar um antigo desejo: fotografar as tradicionais cavalhadas da Festa do Divino Espírito Santo, em Pirenópolis, Goiás.

“Quando me deparei com um mascarado passando a galope, minutos depois de chegar a Pirenópolis, um lampejo se apoderou de mim”, relembra Fernando, que esteve na cidade pela primeira vez em 2024, quando a agenda profissional permitiu. No ano seguinte, voltou para dar continuidade ao trabalho.

As imagens feitas em Goiás deram origem ao seu primeiro projeto autoral: um livro de 210 páginas e a exposição “Curucucu Divino”, aberta ao público até 8 de maio, na Galeria da Gávea, na Zona Sul do Rio de Janeiro.

Foto: Divulgação/Fernando Young

A exposição recebeu elogios, por exemplo, de Caetano Veloso. “Fiquei deslumbrado. As figuras contra o céu, a magia extasiante desse festejo goiano, a poesia das imagens. Fico orgulhoso de ser amigo dele.” Outra amiga, Fernanda Torres, também é só elogios: “Ele conhece, até por instinto, o que separa um frame banal de um enquadramento poderoso”.

Young é conhecido por retratos para publicações na imprensa, ensaios de moda, publicidade e capas de discos. Trabalhou em produções como a série “Sob Pressão”, da TV Globo; o filme “Chacrinha: O Velho Guerreiro”; e o documentário “Narciso em Férias”, sobre o período de prisão de Caetano Veloso durante a ditadura militar. Já fotografou nomes como Bruna Marquezine, Seu Jorge, Marcelo D2, Milton Nascimento, Debora Bloch, Cauã Reymond, Juliana Paes e Ronaldinho Gaúcho.

Enquanto avaliava se a ideia de registrar as cavalhadas daria certo, recorreu a outro amigo: ninguém menos que o cineasta Walter Salles, diretor de “Ainda Estou Aqui” e “Central do Brasil”, que o presenteou com livros de referência para a técnica que planejava seguir no trabalho.

Foto: Divulgação/Fernando Young

O desejo de registrar as Cavalhadas

Mesmo antes de pôr os pés em Pirenópolis, Fernando já convivia com as imagens das cavalhadas, que representam as batalhas entre cristãos e mouros. Em 2004, dividiu apartamento com o amigo Daniel Behr, que havia fotografado a festa ao lado do renomado Walter Firmo. Assim nasceu o desejo de registrar aquele universo — um projeto que acabaria adiado por mais de 20 anos.

“Foi o desconhecido que me atraiu para a fotografia. Durante os últimos anos, eu sentia falta desse desafio de perseguir uma ideia visual que fosse, de certa forma, nova pra mim”, conta.

Para Young, em meio ao excesso de imagens do cotidiano, encontrar algo singular é valioso. “Vivemos um momento em que vemos milhares de imagens nas redes sociais e na TV. Então, encontrar um assunto visualmente único me enche de desejo. É transformador mergulhar em algo sobre o qual temos tão pouco controle.”

A vontade, segundo o fotógrafo, nunca foi embora. “Fiquei durante anos com a sensação de que precisava conhecer esse lugar. Finalmente realizei esse sonho. É uma festa única, fantástica.”

Foto: Divulgação/Fernando Young

O céu de Pirenópolis

A relação com Goiás foi sendo construída aos poucos. “Na primeira vez em que estive em Pirenópolis, em 2024, fiquei cinco dias e só pude conhecer algumas cachoeiras. Eu já conhecia Brasília e Goiânia, mas apenas em viagens de trabalho. Estive também na Cidade de Goiás filmando um comercial.”

A experiência, porém, foi além do trabalho. A culinária local também marcou o fotógrafo. “Pirenópolis tem restaurantes maravilhosos. Da cozinha típica, eu amo o empadão goiano e a galinhada.”

As impressões visuais e sensoriais também chamaram atenção. “Durante vários momentos, senti o impacto das igrejas que visitei”, diz. Mas foi o céu que mais o impressionou. “Impossível não ficar vidrado. Parecia ter uma tridimensionalidade diferente, com contrastes e degradês especiais. Mesmo com a arquitetura colonial preservada, é difícil não andar olhando para cima.”

Foto: Divulgação/Fernando Young

O canto dos cururus e a devoção coletiva

Para registrar as cavalhadas, Fernando montou um estúdio ao lado do Cavalhódromo, levando até Pirenópolis uma lona de caminhão de 7 por 12 metros, que serviu como fundo para enquadrar os cavaleiros.

“Fiquei mergulhado no evento. Jamais esquecerei como é estar dentro do campo, com a câmera na mão, ouvindo os sinos dos cavalos passando em galope”, relembra. “Fui muito bem acolhido por todos que fotografei.”

A energia da festa, segundo ele, é difícil de traduzir. “É algo muito intenso, com os mascarados por todos os lados, imitando o canto dos curucucus, uma ave do Cerrado. A cidade inteira entra nesse clima.”

“Fico me perguntando o que faz essa festa continuar há tantos anos. Todos sabem que, no final, os mouros perdem e os cristãos vencem. Não pode ser só o clima do Cerrado — é algo maior, uma devoção coletiva”.

Young descreve o evento como um fenômeno cultural poderoso. “São milhares de pessoas sintonizadas em um caos belo, com mais de mil cavaleiros mascarados tomando conta da cidade. Em Pirenópolis, os jovens crescem sonhando com o dia em que poderão sair mascarados. As Cavalhadas despertam um senso de pertencimento”.

Foto: Divulgação/Fernando Young

Deslumbre com a exposição

O projeto “Curucucu Divino” foi estruturado em três partes: o sagrado, o profano e o curucucu.

“O sagrado reúne fotos dos mascarados contra o céu. O profano traz imagens noturnas, subexpostas, com flash, quando os participantes já estavam sob efeito de alteradores de humor. E o curucucu são as fotos feitas na lona”, explica.

Segundo Fernando, o processo foi marcado pela imprevisibilidade. “Na maior parte do tempo, eu lidava com o imponderável: pessoas em movimento, cavalos galopando. Isso traz uma sensação de conexão e um estado de presença forte.”

A estreia da exposição também foi marcante. “Fiquei bastante ansioso, com medo de como o público reagiria. Mas recebi muitos comentários de pessoas deslumbradas, principalmente por não saberem que algo tão grandioso acontece em Pirenópolis. Para mim, isso define o sucesso do projeto.”

Livro ‘Cururu Divino’ tem 210 páginas – Foto: Divulgação/Fernando Young
Exposição está em cartaz na Galeria da Gávea, no Rio de Janeiro – Foto: Divulgação/Fernando Young

Quando o registro vira sentimento

Ao final do projeto, o olhar de Fernando Young não saiu ileso. “As fotos deixaram com a certeza de que nosso Brasil é muito grande para ficarmos em um só lugar. Sempre existe uma maneira de enxergarmos a beleza de um povo tão diverso, cheio de riquezas e inspiração”.

Mais do que um registro visual, “Cururu Divino” se transformou em um manifesto pessoal. “O projeto me ensinou que vale a pena perseguir um sonho. E também me trouxe um sentimento de gratidão por poder trabalhar com o que eu amo e acredito. Ser fotógrafo e sair por aí perseguindo imagens é um privilégio.”

Foto: Divulgação/Fernando Young

A trajetória de Young começou ainda aos 15 anos em um curso na Sociedade Fluminense de Fotografia, em Niterói. Hoje, consolidado na carreira, ele também carrega no olhar a experiência de quem construiu uma vida entre arte e família — ao lado da bicampeã mundial de vôlei de praia Carol Solberg, com quem tem dois filhos.