Terça-feira, 18 de Agosto de 2026
PESCA ESPORTIVA

Jejum de dois meses e ‘troca de roupa’: sete curiosidades sobre o tucunaré, destaque da pesca em Goiás

Peixe protege os filhotes, caça durante o dia, pode atacar sem fome e até praticar canibalismo; comportamentos ajudam a explicar sua fama entre pescadores

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
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Pescador exibe tucunaré de grande porte durante pesca esportiva em Goiás (Foto: Iago Sales/Cedido ao Mais Goiás)

O tucunaré protege os filhotes em casal, pode reagir contra invasores mesmo quando a alimentação não é sua prioridade, caça principalmente durante o dia e, em determinadas populações, chega a praticar canibalismo. Os comportamentos ajudam a explicar por que o peixe desperta interesse de pesquisadores e se tornou um dos principais alvos da pesca esportiva em Goiás, especialmente no Lago de Serra da Mesa.

Em entrevista gravada para esta reportagem, a bióloga Fernanda Flores detalhou características de alimentação, reprodução, territorialidade e cuidado parental que fazem o animal ir muito além da força conhecida por quem já o encontrou na ponta da linha. O Mais Goiás reuniu 7 curiosidades sobre o tucunaré e confrontou as explicações da especialista com pesquisas científicas sobre espécies do gênero Cichla.

A relação do peixe com Goiás também guarda uma particularidade que muda conforme a região do estado. O tucunaré-azul, Cichla piquiti, ocorre naturalmente na bacia Tocantins-Araguaia, onde está Serra da Mesa, mas aparece como espécie introduzida em reservatórios da bacia do Paraná, como Itumbiara.

Universidade Federal de Goiás mantém uma tese dedicada à pesca esportiva do tucunaré-azul em Serra da Mesa, enquanto a Goiás Turismo classifica o lago como um dos principais destinos para a modalidade. O reservatório também aparece entre os destinos de pesca esportiva destacados pelo Mais Goiás.

1. Pai e mãe viram uma tropa de proteção dos filhotes

Dois tucunarés nadam lado a lado em ambiente aquático (Foto: Reprodução/Kwai)
Dois tucunarés nadam lado a lado em ambiente aquático – Foto: Reprodução/Kwai

O cuidado dos filhotes está entre as características que mais chamam atenção no comportamento do tucunaré. Segundo Fernanda Flores, macho e fêmea participam da proteção da prole, permanecendo próximos da área de reprodução e reagindo quando percebem ameaças aos descendentes.

Estudos sobre espécies do gênero Cichla confirmam cuidado biparental, territorialidade, construção e defesa de ninhos, além da proteção de ovos e jovens. Para o peixe, portanto, reproduzir não termina com a desova: existe um período posterior no qual os adultos investem tempo e energia na sobrevivência da nova geração.

Esse comportamento também ajuda a entender parte da fama de “brigador” atribuída ao tucunaré pelos pescadores. Um adulto que permanece próximo aos filhotes não está apenas procurando alimento, mas defendendo uma área considerada importante para a reprodução. A aproximação de outro peixe ou de um objeto pode desencadear uma resposta territorial, especialmente durante esse período. É uma diferença importante porque mostra que a agressividade observada na pescaria não pode ser explicada apenas pelo apetite do animal.

2. Algumas espécies podem passar até dois meses em jejum

Exemplar de tucunaré apresenta coloração intensa e manchas características da espécie em ambiente aquático (Foto: Reprodução/Instagram)
Exemplar de tucunaré apresenta coloração intensa e manchas características da espécie em ambiente aquático – Foto: Reprodução/Instagram

O investimento na reprodução pode chegar a níveis que parecem contraditórios para um predador conhecido pelo apetite. Pesquisa sobre Cichla temensis, o tucunaré-açu, registra que os peixes formam casais e podem permanecer em jejum por até dois meses durante o ciclo reprodutivo.

Nesse período entram atividades como reprodução, preparação da área, construção do ninho e cuidado parental, que exigem energia do animal. O dado é específico para Cichla temensis e não deve ser automaticamente atribuído ao tucunaré-azul encontrado em Serra da Mesa.

A curiosidade também ajuda a compreender por que alimentação e agressividade precisam ser tratadas como comportamentos distintos. Mesmo durante uma fase em que a ingestão de alimento cai, o peixe continua envolvido na proteção do território e dos descendentes. Isso significa que a ausência de fome não transforma necessariamente o animal em passivo diante de um intruso. No mundo do tucunaré, defender pode ser tão determinante quanto comer.

3. Ele pode atacar mesmo quando comer não é a prioridade

Pescador exibe tucunaré de grande porte durante pesca esportiva (Foto: Reprodução/TikTok)
Pescador exibe tucunaré de grande porte durante pesca esportiva – Foto: Reprodução/TikTok

O tucunaré é predominantemente piscívoro, ou seja, outros peixes ocupam posição importante em sua dieta, mas nem toda reação agressiva pode ser reduzida à busca por comida. Fernanda Flores explica que o comportamento territorial se intensifica em situações relacionadas à reprodução e à proteção dos filhotes, quando o animal reage à presença de invasores. A literatura científica sobre Cichla registra justamente territorialidade e cuidado parental associados ao ciclo reprodutivo. Por isso, é mais correto dizer que uma investida pode ter motivação alimentar ou defensiva, dependendo do momento e da situação.

É essa combinação que ajuda a explicar por que iscas artificiais conseguem provocar respostas tão intensas. Uma isca em movimento pode representar visualmente uma presa, mas também atravessar uma área ocupada e defendida pelo peixe. Não é possível saber a motivação de cada ataque apenas observando a fisgada, e a ciência não autoriza transformar territorialidade em explicação para todas as capturas. O que os estudos mostram é que o tucunaré possui um repertório comportamental mais amplo do que simplesmente perseguir alimento.

4. O tucunaré é um caçador visual e diurno

Tucunaré é um dos peixes mais procurados por praticantes da pesca esportiva em Goiás (Foto: ReproduçãoTikTOK)
Tucunaré é um dos peixes mais procurados por praticantes da pesca esportiva em Goiás – Foto: ReproduçãoTikTOK

Os olhos têm papel central na maneira como o tucunaré encontra suas presas. Estudos descrevem espécies de Cichla como predadores diurnos orientados pela visão, característica que ajuda a entender a reação rápida a movimentos dentro da água. Uma pesquisa sobre alimentação do gênero aponta ainda a necessidade de boa visibilidade para esse tipo de estratégia predatória. Para quem utiliza iscas artificiais, a biologia do peixe ajuda a explicar por que movimento, aparência e apresentação da isca têm tanta importância.

A característica encontra em Serra da Mesa um dos cenários mais conhecidos da pesca goiana. A Goiás Turismo informa que o reservatório possui 1.784 quilômetros quadrados e 54,4 bilhões de metros cúbicos de água e o classifica entre os melhores locais para pesca esportiva do tucunaré.

O órgão destaca ainda a preferência dos pescadores que utilizam iscas artificiais, justamente uma modalidade que explora a resposta do peixe a estímulos visuais. Goiás também aparece em levantamento publicado pelo Mais Goiás entre os estados procurados para pesca esportiva por causa de destinos como Serra da Mesa e Rio Araguaia. Veja o ranking dos estados para pesca esportiva.

5. O predador também pode virar canibal

Exemplar de tucunaré em ambiente aquático, peixe conhecido pelo comportamento territorial e pela força durante a pesca (Foto: Reprodução/YouTube)
Exemplar de tucunaré em ambiente aquático, peixe conhecido pelo comportamento territorial e pela força durante a pesca – Foto: Reprodução/YouTube

O cardápio do tucunaré pode incluir um animal inesperadamente próximo: outro tucunaré. Um estudo realizado com espécies de Cichla introduzidas no reservatório de Volta Grande, entre Minas Gerais e São Paulo, identificou o canibalismo como comportamento alimentar predominante na população analisada.

Os pesquisadores discutem fatores como abundância de tucunarés, competição, disponibilidade de presas e condições do ambiente para explicar o resultado. Isso comprova que o gênero pode apresentar canibalismo, mas não significa que todos os tucunarés, em todos os reservatórios, tenham indivíduos da própria espécie como principal alimento.

Fernanda Flores também cita o canibalismo entre os comportamentos que surpreendem quem conhece o peixe apenas pela pesca. Do ponto de vista ecológico, a informação precisa ser interpretada dentro de cada população, porque dieta e disponibilidade de alimento mudam conforme o ambiente.

Um resultado observado em Volta Grande, por exemplo, não pode ser simplesmente transportado para Serra da Mesa como se os dois reservatórios fossem iguais. A curiosidade continua relevante justamente porque mostra a plasticidade alimentar de um predador capaz de explorar diferentes recursos.

6. Na reprodução, algumas espécies praticamente “trocam de roupa”

Pescador exibe tucunaré durante pescaria esportiva em lago de água doce (Foto: Reprodução/Site Busca Pesca)
Pescador exibe tucunaré durante pescaria esportiva em lago de água doce (Foto: Reprodução/Site Busca Pesca)

Nem todo tucunaré mantém exatamente a mesma aparência durante a vida adulta. Um estudo com Cichla temensis identificou relação entre os padrões de coloração do peixe e sua condição reprodutiva, mostrando que variações antes tratadas como formas distintas estavam ligadas ao ciclo sexual.

Os pesquisadores encontraram correlação entre a aparência externa e o desenvolvimento das gônadas, indicando uma mudança cíclica associada à reprodução. É como se, em determinados momentos, o animal mudasse de “roupa”, embora o fenômeno documentado nesse estudo seja específico de Cichla temensis.

A ressalva faz diferença em uma reportagem sobre Goiás porque o tucunaré-azul de Serra da Mesa pertence a outra espécie, Cichla piquiti. Não há base para afirmar que ele reproduz exatamente o mesmo padrão descrito para o tucunaré-açu apenas porque os dois pertencem ao mesmo gênero.

A curiosidade revela, no entanto, como a reprodução pode produzir alterações visíveis até na aparência de algumas espécies de tucunaré. A mudança mostra que cor e padrão corporal também podem carregar informações biológicas sobre a fase vivida pelo animal.

7. Em Goiás, o tucunaré-azul pode ser nativo em uma bacia e introduzido em outra

 Pescador exibe exemplar de tucunaré-azul durante pesca esportiva (Foto: Reprodução/YouTube)
Pescador exibe exemplar de tucunaré-azul durante pesca esportiva (Foto: Reprodução/YouTube)

Poucas curiosidades sobre o tucunaré explicam tão bem a diversidade hidrográfica de Goiás. O Cichla piquiti é endêmico da bacia Tocantins-Araguaia, onde está Serra da Mesa, mas foi introduzido em sistemas pertencentes à bacia do Paraná, incluindo o rio Paranaíba.

Assim, a mesma espécie encontrada naturalmente em uma parte de Goiás aparece fora de sua distribuição original em outra região do estado. Essa diferença é fundamental porque um predador nativo e um predador introduzido não podem ser analisados da mesma maneira do ponto de vista ecológico.

O reservatório de Itumbiara acrescenta outra surpresa a essa história. Pesquisadores encontraram atividade reprodutiva de Cichla piquiti durante quase todo o ano, além de desovas múltiplas, comportamento associado à capacidade de adaptação da espécie ao ambiente onde foi introduzida.

Essa plasticidade ajuda a explicar como o tucunaré-azul consegue estabelecer populações fora de sua área original, mas também aumenta a necessidade de acompanhamento dos efeitos sobre os peixes nativos. A Goiás Turismo aponta Itumbiara e outros municípios dos Lagos do Paranaíba como destinos de pesca esportiva, mostrando como turismo e questões ecológicas podem coexistir no mesmo reservatório.

Um peixe que vai além da força na linha

As 7 curiosidades ajudam a explicar por que o tucunaré ocupa um espaço que ultrapassa a pesca esportiva. O comportamento envolve proteção parental, territorialidade, estratégia visual de caça, adaptações reprodutivas e relações alimentares que podem chegar ao canibalismo.

Em Goiás, a presença natural do tucunaré-azul em Serra da Mesa e sua introdução em outros sistemas transformam o estado em cenário para diferentes perguntas científicas sobre a mesma espécie. Para o pescador, a história começa quando o peixe ataca a isca; para pesquisadores, boa parte dela acontece muito antes da primeira fisgada.

A pesca acrescenta ainda a discussão sobre manejo e conservação dessas populações. Em Serra da Mesa, a UFG possui pesquisa específica sobre os efeitos da pesca esportiva no tucunaré-azul, enquanto Goiás mantém regras ambientais para captura, transporte e períodos de reprodução dos peixes.

Mais Goiás já registrou inclusive apreensões de tucunarés abaixo do tamanho permitido na região de Serra da Mesa, exemplo de como fiscalização e turismo dividem o mesmo território. Quanto mais se conhece o comportamento do tucunaré, mais evidente fica que preservar o peixe e compreender o ecossistema são partes da mesma história.

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