Sexta-feira, 07 de Agosto de 2026
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A cidade goiana onde os becos guardam séculos de história — e a poesia mora em cada esquina

Antiga capital preserva casarões, ruas de pedra e a memória de Cora Coralina às margens do Rio Vermelho

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
Rua do centro histórico da Cidade de Goiás reúne casarões coloniais, calçamento de pedra e construções religiosas cercadas pela paisagem do Cerrado. Foto: Governo de Goiás

A cidade de Goiás preserva uma parte decisiva da formação política, cultural e social do estado. Às margens do Rio Vermelho, a antiga Vila Boa reúne casarões, igrejas, pontes e becos que mantêm o passado integrado à rotina de moradores, comerciantes, artistas e visitantes.

Fundado em 1727, durante o ciclo do ouro, o núcleo urbano surge como Arraial de Sant’Anna, passa a Vila Boa e, depois, torna-se cidade de Goiás. O município permanece como capital estadual até 1937, quando a sede administrativa é transferida para Goiânia. O traçado urbano acompanha o relevo e as curvas do rio, sem o desenho regular de uma cidade planejada.

Patrimônio Mundial permanece vivo

O centro histórico recebe tombamento federal em 1978 e, em 2001, é reconhecido pela Unesco como Patrimônio Mundial. A organização destaca a adaptação do modelo urbano europeu às condições geográficas e culturais do interior do Brasil.

Segundo o Iphan, a antiga capital conserva mais de 90% de sua arquitetura colonial original. O patrimônio, porém, não funciona como cenário isolado. As casas continuam ocupadas, as igrejas recebem fiéis e as ruas concentram escolas, mercados, restaurantes, museus e repartições.

Essa permanência transforma a cidade em um patrimônio vivido. O passado não aparece apenas em placas e objetos, mas nas relações cotidianas, nas tradições religiosas e no uso contínuo dos edifícios.

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Becos, memória e literatura

Ponte de madeira e casarões coloniais compõem a paisagem do centro histórico da Cidade de Goiás ao entardecer. Foto: Governo de Goiás.
Ponte de madeira e casarões coloniais compõem a paisagem do centro histórico da Cidade de Goiás ao entardecer. Foto: Governo de Goiás.

Os becos ajudam a explicar a identidade urbana de Vila Boa. Eles conectam ruas, casas, igrejas e quintais e revelam como a cidade se adapta ao terreno. Muros altos, janelas próximas das calçadas e caminhos de pedra mantêm uma escala que aproxima o visitante da vida cotidiana.

A literatura amplia essa leitura. Cora Coralina transforma becos, mulheres trabalhadoras, lavadeiras, doceiras, crianças, pontes e quintais em matéria poética. Sua obra associa o espaço físico da cidade às memórias, às desigualdades e às formas de resistência presentes na vida local.

Às margens do Rio Vermelho, a Casa de Cora Coralina preserva móveis, documentos, fotografias, utensílios e manuscritos da escritora. A chamada Casa Velha da Ponte também registra a relação de Cora com a produção de doces, atividade que divide espaço com a literatura em sua trajetória.

Rio Vermelho organiza a paisagem

O Rio Vermelho atravessa o centro histórico, divide quarteirões e conecta áreas por meio das pontes. A paisagem formada pelo casario, pela água e pelas ruas de pedra constitui uma das imagens mais conhecidas da cidade.

O rio também impõe riscos. Cheias periódicas atingem imóveis próximos às margens e exigem ações de drenagem, saneamento e preservação. Para o tricentenário da cidade, em 2027, instituições públicas anunciam medidas voltadas à despoluição do Rio Vermelho, tema ligado à proteção ambiental e ao patrimônio histórico.

Museus e tradições contam a história do estado

Além da Casa de Cora, a cidade reúne o Palácio Conde dos Arcos, antiga sede do governo goiano; o Museu das Bandeiras, instalado no prédio da antiga Casa de Câmara e Cadeia; e o Museu de Arte Sacra da Boa Morte, com obras ligadas a Veiga Valle.

As ruas históricas também recebem manifestações como a Procissão do Fogaréu, realizada durante a Semana Santa, e o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, o Fica. Esses eventos mostram como patrimônio material e cultura contemporânea dividem o mesmo espaço.

Entre becos, museus, festas e versos, a Cidade de Goiás preserva uma narrativa construída em pedra, água e palavra. Mais que antiga capital, Vila Boa permanece como um dos lugares onde a memória do estado continua habitada.

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