Domingo, 09 de Agosto de 2026
HISTÓRIA DE GOIÁS

Pergunta feita numa oficina de Goiás ajudou a tirar Brasília do papel; entenda

m 1955, uma pergunta feita a Juscelino Kubitschek durante um comício em Jataí colocou a construção de Brasília no centro de uma promessa presidencial. Conheça a história por trás do título de “berço de Brasília”.

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
Vista aérea de Jataí, no Sudoeste de Goiás, município que entrou para a história nacional após o comício de Juscelino Kubitschek em 1955, marco da promessa de construção de Brasília. (Foto: Prefeitura de Jataí)

Uma chuva forte, uma oficina mecânica, a carroceria de um caminhão e uma pergunta feita no meio da plateia. Em 4 de abril de 1955, essa combinação colocou Jataí, no Sudoeste de Goiás, no caminho de uma das maiores transformações políticas e urbanísticas da história brasileira: a construção de Brasília.

Juscelino Kubitschek começava naquele dia sua campanha à Presidência da República. O mau tempo obrigou a transferência do comício para uma oficina na Rua José Carvalho Bastos, onde JK falou ao público sobre um caminhão improvisado como palanque, episódio documentado pela Câmara Municipal de Jataí

Foi naquele ambiente que o jovem Antônio Soares Neto, que ficaria conhecido como Toniquinho JK, questionou o candidato sobre um ponto da Constituição: se fosse eleito presidente e prometia cumprir a Carta, também cumpriria a determinação de transferir a capital federal para o interior do país?

Juscelino respondeu que sim. A Fundação Getulio Vargas registra que naquele 4 de abril JK assumiu publicamente, em Jataí, o compromisso de transferir a capital para o Planalto Central caso fosse eleito. 

Cinco anos e 17 dias depois, em 21 de abril de 1960, Brasília era inaugurada.

Uma chuva mudou o cenário do comício

Registro histórico da chegada de Juscelino Kubitschek a Goiás durante o período em que a construção de Brasília começava a sair do discurso político e avançar para os atos de governo. (Foto: Acervo JK)
Registro histórico da chegada de Juscelino Kubitschek a Goiás durante o período em que a construção de Brasília começava a sair do discurso político e avançar para os atos de governo. (Foto: Acervo JK)

O episódio poderia ter acontecido em um palanque convencional. Poucas horas antes do encontro, porém, uma tempestade atingiu Jataí, e a organização precisou procurar um local coberto.

O comício terminou em uma oficina mecânica, com Juscelino sobre a carroceria de um caminhão. A cena se tornou tão simbólica que, em 2012, a Câmara Municipal recriou o encontro no mesmo local, novamente usando um caminhão, com a presença do próprio Toniquinho. 

A escolha de Jataí também marcou o começo da campanha de JK pelo país. Documentos do Governo de Goiás registram que o comício de 4 de abril inaugurou a agenda dos atos eleitorais do então candidato à Presidência. 

A partir dali, uma questão que até então não aparecia entre as prioridades centrais apresentadas por Juscelino ganhou outra dimensão.

A pergunta que colocou JK diante da Constituição

Ao discursar, Juscelino defendeu o respeito às leis e afirmou que, se eleito, cumpriria a Constituição. Foi quando Toniquinho percebeu uma oportunidade para cobrar uma promessa concreta.

A Constituição de 1946 previa a transferência da capital para o interior. Toniquinho quis saber se o candidato também cumpriria esse dispositivo.

O próprio JK posteriormente contou que a pergunta o colocou diante de uma questão que não estava originalmente contemplada em seu Programa de Metas. Em seu livro sobre a construção da capital, preservado na Biblioteca Digital da Câmara dos Deputados, ele inicia a narrativa daquele processo afirmando que “Tudo teve início na cidade de Jataí”. 

A frase ajuda a explicar por que o município goiano passou a ser conhecido como “berço de Brasília”.

A história de Antônio Soares Neto também já foi recuperada pelo Mais Goiás. Em reportagem especial, o jornal mostrou como Toniquinho se tornou o goiano cuja pergunta ficou ligada à história da construção de Brasília

Brasília, porém, não nasceu como ideia em Jataí

Há uma diferença fundamental entre a memória simbólica e a cronologia histórica. A proposta de transferir a capital brasileira para o interior é muito anterior ao encontro entre JK e Toniquinho.

Em 1823, José Bonifácio de Andrada e Silva apresentou à Assembleia Constituinte uma proposta de interiorização da capital e sugeriu, inclusive, o nome Brasília. O Senado Federal recupera essa história e mostra que foram necessários quase 150 anos de discussões até a efetiva inauguração da nova cidade. 

A Constituição republicana de 1891 avançou mais um passo e reservou uma área de 14,4 mil quilômetros quadrados no Planalto Central para a futura Capital Federal. No ano seguinte, a chamada Missão Cruls começou os trabalhos de exploração e demarcação da região. 

Em 1922, no centenário da Independência, foi lançada em Planaltina a pedra fundamental relacionada ao projeto da futura capital. Décadas antes de JK chegar a Jataí, portanto, a interiorização já havia passado de ideia política para previsão constitucional, expedições científicas e marcos físicos. 

Mais Goiás já mostrou em uma reportagem sobre os 65 anos de Brasília como a escolha do Planalto Central atravessou diferentes períodos da história brasileira antes de se concretizar durante o governo JK. 

Então o que realmente aconteceu em Jataí?

Comício de Juscelino Kubitschek em Jataí, em 4 de abril de 1955, quando o então candidato à Presidência assumiu publicamente o compromisso de transferir a capital do país para o Planalto Central. (Foto: Museu Histórico de Jataí)
Comício de Juscelino Kubitschek em Jataí, em 4 de abril de 1955, quando o então candidato à Presidência assumiu publicamente o compromisso de transferir a capital do país para o Planalto Central. (Foto: Museu Histórico de Jataí)

Jataí não foi o lugar onde surgiu a ideia de construir Brasília. O que ocorreu ali foi politicamente diferente: o candidato que meses depois seria eleito presidente assumiu publicamente a obrigação de executar um projeto que havia atravessado gerações sem sair completamente do papel.

Essa distinção torna o episódio ainda mais relevante. Em vez de atribuir o nascimento de Brasília a uma pergunta isolada, os registros históricos mostram como aquele questionamento funcionou como ponto de encontro entre uma antiga determinação constitucional e um candidato que teria condições políticas de executá-la. 

Nas memórias de Juscelino, a própria pergunta aparece como inesperada. A construção da nova capital seria posteriormente incorporada ao Programa de Metas como sua chamada meta-síntese. 

É justamente por isso que Jataí ocupa um lugar particular nessa história: não criou o projeto, mas marcou o momento em que ele se tornou compromisso político explícito de JK.

De Jataí para Anápolis e, depois, Brasília

Eleito presidente em outubro de 1955, Juscelino tomou posse em 31 de janeiro de 1956. Em poucos meses, começou a transformar a promessa feita em Goiás em atos concretos de governo.

Em 18 de abril de 1956, no aeroporto de Anápolis, também em Goiás, JK assinou a mensagem que seria enviada ao Congresso acompanhada do projeto de lei propondo a transferência da capital para o Planalto Central. A informação consta na biografia de Juscelino mantida pelo CPDOC da Fundação Getulio Vargas

Em setembro daquele ano, foi sancionada a legislação que definiu os limites do futuro Distrito Federal e permitiu a estruturação da Companhia Urbanizadora da Nova Capital, a Novacap. A partir dali, o projeto ganhou velocidade.

Em 1957, o plano de Lúcio Costa venceu o concurso para a concepção urbanística de Brasília. Oscar Niemeyer ficou responsável por alguns dos principais edifícios públicos que ajudariam a transformar a capital em símbolo da arquitetura moderna brasileira. 

Goiás aparece antes, durante e depois da nova capital

A participação goiana na história não se limita ao comício de Jataí. A área escolhida para a instalação da nova capital fazia parte de Goiás, e municípios como Planaltina, Formosa e Luziânia aparecem nas diferentes etapas de estudos e definição territorial.

A construção de Brasília também alterou a infraestrutura e a dinâmica econômica do Centro-Oeste. A própria BR-060, que posteriormente conectaria Brasília, Goiânia e o Sudoeste goiano, está ligada ao processo de integração territorial provocado pela nova capital, como já mostrou o Mais Goiás em reportagem sobre a história da rodovia

A relação entre Goiás e a capital federal, portanto, é territorial, econômica e também política. Jataí ocupa dentro desse processo o lugar de uma espécie de marco público da promessa de Juscelino.

Memorial preserva o episódio em Jataí

Sete décadas depois, Jataí continua tratando o comício como parte central de sua memória. Em 2025, o Memorial JK da cidade promoveu uma programação pelos 70 anos do encontro que marcou o início da campanha de Juscelino e o compromisso com a construção da capital. 

Fotografias, documentos e relatos ajudam a preservar uma cena improvável: um candidato presidencial sobre um caminhão, dentro de uma oficina do interior goiano, respondendo a uma pergunta que o acompanharia até o Palácio do Catete.

A memória de Toniquinho também permanece associada à cidade. O personagem foi homenageado pelo Senado e continuou participando, durante décadas, de eventos relacionados à história de Brasília. 

Jataí é mesmo o “berço de Brasília”?

Vista panorâmica de Jataí, no Sudoeste goiano, município que entrou para a história nacional após o comício de Juscelino Kubitschek em 1955, quando o então candidato assumiu o compromisso de transferir a capital federal para o interior do país. (Foto: Prefeitura de Jataí)
Vista panorâmica de Jataí, no Sudoeste goiano, município que entrou para a história nacional após o comício de Juscelino Kubitschek em 1955, quando o então candidato assumiu o compromisso de transferir a capital federal para o interior do país. (Foto: Prefeitura de Jataí)

Historicamente, chamar Jataí de berço de Brasília exige uma explicação. Se a expressão significar que ali nasceu a ideia da nova capital, ela não é precisa: o projeto de interiorização é pelo menos do século XIX e já tinha previsão constitucional e estudos técnicos antes de JK.

Mas, se “berço” identifica o local onde o homem que efetivamente construiria Brasília assumiu publicamente o compromisso de fazê-lo, Jataí tem documentação histórica para sustentar o título. A FGV registra o compromisso, a Câmara de Jataí preserva o local do comício e o próprio Juscelino colocou a cidade no início de sua narrativa sobre a construção da capital. 

Talvez seja justamente essa a melhor forma de contar a história. Brasília não nasceu de uma pergunta em Jataí, mas uma antiga ideia brasileira ganhou ali uma promessa, um candidato e um prazo político para finalmente deixar o papel.

E tudo começou, para JK, depois que uma chuva mudou o endereço de um comício e um goiano decidiu levantar a voz no meio da plateia.

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