Filme ‘Apenas Coisas Boas’ usa o sexo para buscar o afeto gay no interior de Goiás
Longa de Daniel Nolasco brinca com o erotismo inerente a caubóis e motoqueiros
Ao cruzar uma estrada na paisagem rural de Catalão, interior de Goiás, Antônio se depara com o corpo de um motoqueiro estirado no asfalto, colorido de vermelho sangue. Ele leva o rapaz para casa, o desnuda e percorre com um pano das feridas em seu ombro até os pelos da virilha. Em “Apenas Coisas Boas”, a nudez não é castigada. A interação entre os desconhecidos preenche o vazio dos personagens, que passam a protagonizar um amor gay em uma parte do país que raramente serve de cenário para esse tipo de narrativa.
O filme, que foi exibido no festival Frameline49, em São Francisco, nos Estados Unidos, está em cartaz no Cine Cultura, na Praça Cívica, em Goiânia.
O diretor goiano Daniel Nolasco, em seu novo filme, mais uma vez desloca o sexo e o afeto homossexuais dos grandes centros urbanos. Por boa parte da obra, ele acompanha Antônio e Marcelo se banhando nus em uma lagoa ou deitados na grama sob o sol, em um cenário rural que evoca o faroeste.
“Existe uma recorrência de associar Goiás ao meio-oeste americano. Então eu queria me apropriar desse gênero, construído para reforçar a heterossexualidade masculina, e contar a história de personagens gays. E o faroeste fala desse homem solitário, algo importante para entender quem é o Antônio”, afirma Nolasco.
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O longa mantém o tom explícito característico do diretor. Seu trabalho anterior, “Vento Seco”, já havia provocado ao mergulhar em ambientes de pegação em banheiros públicos e orgias marcadas por fetiches. Em “Apenas Coisas Boas”, no entanto, o ritmo muda: saem as luzes néon e entra a paisagem rural, com silêncios prolongados e cenas longas que ressaltam a solidão do protagonista, isolado pela homofobia ao redor.
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“Eu precisava me apropriar do tempo da roça para construir o protagonista”, explica o diretor sobre o ritmo mais contemplativo.
Ainda assim, o caráter hiperssexual segue presente. Em uma das cenas, Antônio observa Marcelo no banho e, após uma troca de olhares, se junta a ele no chuveiro. A sequência é direta ao abordar o desejo entre os personagens, com foco na construção da intimidade e da relação.
Segundo Nolasco, filmar cenas de sexo não simulado exige diálogo prévio entre os envolvidos, e ele opta por não utilizar coordenadores de intimidade. Para o diretor, essas cenas são essenciais para a narrativa, mesmo que resultem em classificação indicativa para maiores de 18 anos.
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“Existe uma forma protocolar de mostrar o sexo no audiovisual, e isso muitas vezes esvazia a potência que uma cena poderia ter para construir personagem, narrativa e atmosfera”, diz.
Ele também defende a ligação entre sexo e afeto. “Há uma tendência de separar as duas coisas, mas o sexo é um gesto de amor. Contar como esses personagens se apaixonam passa pelo momento em que eles fazem sexo. Trabalhando com ícones do imaginário erótico gay, como o caubói e o motoqueiro, preciso abordar isso de forma frontal. É uma estética de confronto”, afirma.
O filme traz ainda referências ao artista Tom of Finland, conhecido por retratar o erotismo gay com figuras como motoqueiros, policiais e marinheiros — elementos que também aparecem na obra.
Na segunda parte, “Apenas Coisas Boas” muda de tom e incorpora elementos do cinema policial. Antônio surge mais velho, vivendo em um apartamento confortável após o desaparecimento de Marcelo, o que altera o rumo da narrativa.
Com isso, Lucas Drummond deixa o papel do protagonista jovem, dando lugar a Fernando Libonat, que interpreta Antônio na fase sexagenária. Nesse novo momento, marcado pelo suspense, o personagem se mostra ainda mais entregue aos desejos e às incertezas provocadas pela ausência do companheiro.
*Com informações da Folha de São Paulo