Quem era o ditador sírio que fugiu para o Brasil e foi morto no interior de Goiás? Conheça
Adib Shishakli viveu como fazendeiro e foi assassinado por jovem que buscava vingança; saiba onde
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Pouca gente sabe, mas uma das histórias mais curiosas envolvendo Goiás tem como protagonista um ex-presidente da Síria. Após ser derrubado do poder por um golpe militar, o ditador Adib Shishakli encontrou refúgio no interior goiano, onde viveu como fazendeiro por cerca de quatro anos. A aparente tranquilidade, porém, terminou de forma trágica em 27 de setembro de 1964, quando ele foi assassinado na ponte que liga Ceres a Rialma, em um crime motivado por vingança política que ganhou repercussão internacional.
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Quem foi Adib Shishakli?
Adib Bin Hassan Al-Shishakli nasceu em Hama, na Síria, em 1909, e fez carreira nas Forças Armadas. Após participar de sucessivos golpes militares, tornou-se presidente do país entre 1953 e 1954, governando sob um regime autoritário.
Durante seu governo, perseguiu adversários políticos e ordenou uma ofensiva militar contra a região de Jabal al-Druze, onde vivia cerca de 90% da população drusa do mundo. Aproximadamente 10 mil soldados foram enviados para a região, que sofreu bombardeios de artilharia pesada. O conflito deixou dezenas de mortos, entre eles grávidas e crianças, além da destruição de diversas cidades.
Em 1954, Shishakli foi deposto por um novo golpe militar. Depois de passar pelo Líbano, França e Suíça, deixou o Oriente Médio após ameaças de morte de integrantes da comunidade drusa.
A nova vida no interior de Goiás
O destino escolhido foi o Brasil. Shishakli se estabeleceu em Ceres, município a cerca de 179 quilômetros de Goiânia, onde comprou uma fazenda, passou a cultivar arroz e abriu uma loja de secos e molhados na Avenida Bernardo Sayão, principal via da cidade.
Em Ceres, o ditador assassinado em Goiás viveu ao lado da esposa e dos dois filhos. A intenção era levar uma vida discreta e distante da política.

Em 1962, porém, uma reportagem da revista O Cruzeiro, então a publicação de maior circulação do país, revelou seu paradeiro. Na entrevista, o ex-ditador afirmou que buscava apenas viver em paz, mas a exposição acabou chamando atenção de antigos desafetos.
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O plano de vingança
Na década de 1960, o Brasil abrigava cerca de 30 mil drusos, principalmente em Goiás e Minas Gerais. Entre eles estava Nawaf Ben Youssef Ghazaleh, um sírio que vivia em Taguatinga (DF), trabalhava como ambulante e havia sido pugilista.
Druso, Nawaf afirmava ter perdido familiares durante a ofensiva militar comandada por Shishakli na Síria. Ao descobrir, por meio da reportagem de O Cruzeiro, que o ex-presidente morava em Goiás, decidiu viajar até Ceres para se vingar.
Ele chegou à cidade em 24 de setembro de 1964 e passou três dias levantando informações sobre a rotina do ex-ditador. Descobriu que, aos domingos, Shishakli costumava visitar amigos em Rialma e retornava a pé pela ponte que liga os dois municípios.
O assassinato na ponte entre Ceres e Rialma
Na tarde de 27 de setembro de 1964, Nawaf aguardou a passagem de Shishakli próximo à ponte. Vestia uma blusa de lã preta, calça cinza, óculos escuros e carregava uma pequena pasta onde escondia um revólver Taurus calibre 38.
Segundo testemunhas, antes dos disparos os dois conversaram rapidamente em árabe. Quando Nawaf sacou a arma e atingiu Shishakli, o ditador tentou correr, mas caiu. O atirador então se aproximou e efetuou mais quatro disparos à queima-roupa. Ao confirmar a morte, chutou o corpo.
Moradores da região tomaram conhecimento do assassinato por meio da Rádio Cultura de Ceres.
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O que Nawaf fez depois do crime?
Após o assassinato, Nawaf retornou à pensão onde estava hospedado, tomou banho, trocou de roupa e foi ao cinema. No dia seguinte, embarcou para Anápolis e, posteriormente, seguiu para Teófilo Otoni (MG), onde encontrou parentes e membros da comunidade drusa.
O grupo comemorou o assassinato e organizou uma campanha para financiar sua defesa, arrecadando mais de 100 milhões de cruzeiros, moeda utilizada no Brasil na época.
Uma semana depois, Nawaf se apresentou à polícia e confessou o crime.
“Matei Adib porque ele era impiedoso, um monstro. Durante o tempo em que esteve no poder quis, por todos os meios, exterminar os drusos, chegando a assassinar mais de 70 pessoas. Quando soube que este homem poderia voltar à Síria, o sangue me subiu à cabeça. O povo brasileiro saberá entender que eu cumpri o meu dever, eliminando um inimigo do meu povo”, declarou em depoimento.
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Julgamento terminou com absolvição
O julgamento ocorreu em Goiânia e mobilizou a comunidade drusa no Brasil. Nawaf foi defendido por alguns dos mais renomados criminalistas da época, entre eles Nelson Hungria, que mais tarde seria ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), e Romeu Pires de Campos Barros.
O júri popular absolveu o acusado ao entender que ele agiu sob forte emoção, motivado pelas consequências do regime de Shishakli sobre seu povo.
Após a absolvição, Nawaf voltou a viver em Taguatinga. Ele morreu em 2005 e teve os restos mortais levados para a Síria, onde parte da comunidade drusa o recebeu como herói.

O destino do corpo de Shishakli
Inicialmente, o ditador assassinado em Goiás foi enterrado no cemitério de Ceres. No entanto, quatro dias depois, o governo sírio solicitou a repatriação do corpo.
A pedido das autoridades brasileiras, um professor de anatomia da então Universidade Federal de Goiás (UFG) realizou a exumação. Após ser embalsamado, o corpo foi levado de carro até o Rio de Janeiro e embarcado para Damasco, onde recebeu honras oficiais de ex-chefe de Estado, embora sem comoção popular.
A repercussão do assassinato atravessou décadas. Em 2019, o Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO) decidiu incluir o processo do caso no acervo do Centro de Cultura e Memória da instituição, preservando documentos de um dos episódios mais inusitados da história de Goiás.
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