Sábado, 03 de Outubro de 2026
MEMÓRIA DE GOIÁS

Traíras: povoado de Goiás que viveu esplendor na era do ouro hoje é um museu a céu aberto

Antigo centro do ciclo do ouro no norte de Goiás, Traíras perdeu importância, população e construções ao longo dos séculos e hoje sobrevive como Tupiraçaba, distrito de Niquelândia marcado por ruínas e memória histórica

Fernanda Cappellesso
Por - Goiânia, GO
Publicado em:
Ruínas da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, no antigo arraial de Traíras, atual distrito de Tupiraçaba, em Niquelândia (GO), preservam vestígios do período do ciclo do ouro e da história do povoado (Foto: Reprodução/YouTube)

A pouco mais de 10km de Niquelândia, no norte de Goiás, existe um lugar onde pedaços de paredes, igrejas em ruínas e antigas construções contam uma história difícil de imaginar olhando apenas para o cenário atual. O distrito de Tupiraçaba já foi conhecido como Traíras e ocupou posição de destaque durante o ciclo do ouro em Goiás. No século XVIII, o arraial chegou a figurar entre os centros mais importantes da região e reuniu casas, igrejas, atividades administrativas e uma população atraída pela mineração. Séculos depois, grande parte dessa estrutura desapareceu e o antigo núcleo urbano sobrevive quase como um sítio arqueológico a céu aberto. 

A transformação foi tão profunda que uma pesquisa publicada pela Universidade Federal de Goiás descreve Traíras como um arraial aurífero que esteve entre os mais populosos e esplendorosos da Capitania de Goiás. Com o passar do tempo, entretanto, a vila perdeu importância e acabou convertida em um pequeno povoado marcado pelas ruínas. A própria pesquisa registra que, na década de 1940, materiais de construções decadentes de Traíras chegaram a ser desmontados e vendidos por moradores da região. O desaparecimento do antigo arraial, portanto, não ocorreu de uma única vez: foi resultado de um processo prolongado de decadência econômica, abandono e perda física do patrimônio. 

Leia Mais: Há 278 anos, fé leva peregrinos a percorrer 45 km a pé na Romaria do Muquém, em Niquelândia

O ouro colocou Traíras no mapa de Goiás

A origem de Traíras está diretamente relacionada à corrida pelo ouro que transformou o território goiano no século XVIII. A Prefeitura de Niquelândia registra que Manuel Rodrigues Tomar e Antônio de Sousa Bastos saíram de Meia Ponte, atual Pirenópolis, em 1735 em busca de riquezas no norte da região. Os exploradores chegaram à área de Traíras, também conhecida posteriormente como Tupiraçaba, onde encontraram ouro de aluvião. A descoberta favoreceu a criação e o crescimento de um núcleo urbano em torno da atividade mineradora. 

O chamado ouro de aluvião era encontrado em depósitos formados pela ação das águas, especialmente em rios e córregos, o que permitia a mineração sem a necessidade inicial das grandes estruturas subterrâneas associadas a outras regiões mineradoras. A presença desse ouro atraiu população, comércio, trabalhadores e estruturas administrativas para o norte goiano. Traíras passou a integrar a rede de arraiais que surgiram acompanhando a expansão mineradora pelo interior da América portuguesa. A importância adquirida pelo lugar explica por que suas igrejas e construções religiosas receberam obras e objetos de valor incomuns para um povoado hoje tão pequeno. 

O desenvolvimento de Traíras antecedeu a consolidação de São José do Tocantins, núcleo que mais tarde se tornaria Niquelândia. Segundo o histórico municipal, São José do Tocantins surgiu em 1755 como distrito ligado a Traíras e cresceu às margens do Rio Bacalhau. Décadas depois, a relação de forças se inverteria: São José ganharia importância enquanto o antigo centro minerador perdia população e atividade econômica. Em 1833, a sede municipal passou para São José do Tocantins, enquanto Traíras retornou à condição de distrito. 

Leia Mais: Lagoa sem fundo de Niquelândia passa por tentativa de medição da profundidade

Uma cidade feita para permanecer

A dimensão alcançada pelo antigo arraial também pode ser percebida pela arquitetura religiosa. A Igreja de Nossa Senhora do Rosário, conhecida historicamente como Igreja dos Pretos, foi construída em Traíras e posteriormente tombada pelo patrimônio histórico. O processo de tombamento pelo Iphan é o de número 510-T-1954, com inscrição no Livro do Tombo das Belas Artes em 19 de janeiro de 1955. Atualmente, o que resta da construção integra um dos principais testemunhos materiais da antiga prosperidade local. 

A igreja possuía elementos elaborados para o período e para uma localidade atualmente tão pequena. Documentação reproduzida pela Prefeitura de Niquelândia descreve altares laterais com colunas torsas, arco-cruzeiro com pintura em têmpera, campas de madeira numeradas no piso, imagens sacras, móveis e castiçais de chumbo. O conjunto incluía representações de Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora do Rosário, Santa Efigênia, Santo Antônio, São Pedro e São Benedito. Parte desses objetos precisou ser retirada à medida que as edificações se deterioraram. 

Essa riqueza arquitetônica ajuda a explicar o contraste entre o Traíras colonial e o povoado que sobreviveu. Onde atualmente predominam pequenas construções e vestígios históricos, existiu um espaço com atividade religiosa, administrativa e econômica considerável. A UFG registra inclusive que a vila possuía tradição de música sacra comparável, em determinados aspectos, à encontrada em importantes centros mineradores coloniais. É justamente essa diferença entre passado e presente que transforma Traíras em um dos casos mais curiosos da história urbana de Goiás. 

Leia Mais: Fiscais fecham garimpo ilegal e aplicam multa de R$ 625 mil em Niquelândia

Quando o ouro começou a desaparecer

Casa de São Ramiro João Pereira, no povoado histórico de Tupiraçaba, antigo arraial de Traíras, em Niquelândia (GO), preserva características da ocupação tradicional da região (Foto: Reprodução/TikTok)
Casa de São Ramiro João Pereira, no povoado histórico de Tupiraçaba, antigo arraial de Traíras, em Niquelândia (GO), preserva características da ocupação tradicional da região (Foto: Reprodução/TikTok)

A mesma atividade responsável pelo crescimento de Traíras também ajuda a explicar seu declínio. A economia dos arraiais mineradores dependia fortemente da disponibilidade do ouro e da circulação de pessoas e recursos provocada pela extração mineral. Quando a produção perdeu força, parte desses núcleos deixou de oferecer as mesmas condições econômicas que haviam atraído moradores durante as primeiras décadas de ocupação. Traíras entrou gradualmente nesse processo de esvaziamento. 

Uma dissertação da UFG sobre a trajetória histórica e cultural de Niquelândia relaciona diretamente a transferência da sede do antigo julgado de Traíras para São José do Tocantins à decadência da mineração de ouro naquela região. A mudança representou mais do que uma simples reorganização administrativa. Ao perder centralidade política, econômica e populacional, Traíras deixou de concentrar investimentos e funções que anteriormente sustentavam sua importância regional. São José do Tocantins passou progressivamente a assumir esse papel. 

A história administrativa confirma essa inversão. Em 1833, São José do Tocantins tornou-se vila e sede municipal, desmembrando-se do antigo município de Traíras. Traíras permaneceu como distrito e, no século XX, perdeu até mesmo o nome que carregava desde o período colonial. O Decreto-Lei estadual nº 8.305, de 31 de dezembro de 1943, determinou que São José do Tocantins passasse a se chamar Niquelândia e que Traíras recebesse a denominação de Tupiraçaba. 

Leia Mais: Empresa europeia compra unidade de mineração de níquel em Niquelândia

Até as construções começaram a desaparecer

Antiga Igreja do Rosário, no povoado de Tupiraçaba, antiga Traíras, em Niquelândia (GO), em registro histórico que mostra a construção antes de sua destruição (Foto: Reprodução/Instagram @niquelandiamemorias)
Antiga Igreja do Rosário, no povoado de Tupiraçaba, antiga Traíras, em Niquelândia (GO), em registro histórico que mostra a construção antes de sua destruição (Foto: Reprodução/Instagram @niquelandiamemorias)

O fim da prosperidade não significou apenas redução populacional. Com menos moradores, recursos e funções urbanas, prédios erguidos durante o auge de Traíras começaram a se deteriorar. A pesquisa da UFG registra que, na década de 1940, moradores de Niquelândia chegavam a desmontar construções decadentes no antigo arraial para vender seus materiais. Tijolos, peças de madeira e componentes de edifícios históricos deixavam, assim, o lugar onde haviam permanecido durante gerações. 

Esse processo ajuda a entender por que tão pouco do conjunto original chegou ao presente. Não houve uma única catástrofe responsável pela destruição do povoado. As perdas aconteceram ao longo de décadas por deterioração, abandono, desmonte e ausência de conservação adequada. Igrejas que simbolizavam a prosperidade religiosa e econômica do antigo centro minerador acabaram transformadas em ruínas. 

A situação da Igreja de Nossa Senhora do Rosário se tornou um dos exemplos mais emblemáticos. Tombado na década de 1950, o edifício continuou sofrendo deterioração até restarem essencialmente partes de sua estrutura. Levantamentos patrimoniais registram que o bem está localizado no atual distrito de Tupiraçaba e conserva importância cultural mesmo em estado de ruína. O paradoxo é evidente: o tombamento reconheceu oficialmente o valor histórico justamente de um patrimônio que já enfrentava um processo avançado de desaparecimento. 

Leia Mais: Veja como chegar à misteriosa lagoa “sem fundo” de Niquelândia

As ruínas também contam a história da população negra

Entre os vestígios mais importantes de Traíras está justamente a antiga Igreja de Nossa Senhora do Rosário, também identificada em documentação patrimonial como Igreja dos Pretos. A denominação remete à organização religiosa de populações negras em irmandades católicas, fenômeno comum nos núcleos mineradores do período colonial. Em Goiás, essas associações constituíram espaços religiosos, comunitários e culturais dentro de uma sociedade profundamente estruturada pela escravidão. A existência desse templo amplia a história de Traíras para além da trajetória dos proprietários e mineradores que enriqueceram com o ouro. 

As imagens religiosas originalmente existentes no conjunto também ajudam a identificar essa dimensão social. O inventário reproduzido pela Prefeitura de Niquelândia cita imagens de Santa Efigênia e São Benedito, santos de forte devoção entre populações negras no Brasil colonial. O patrimônio de Traíras registra, portanto, não apenas riqueza econômica, mas também aspectos da formação social do território. A memória do lugar envolve diferentes grupos que participaram da construção daquele núcleo minerador. 

Essa leitura é particularmente importante porque parte da memória dos grandes arraiais auríferos costuma permanecer vinculada aos proprietários, autoridades e riquezas extraídas do solo. As ruínas permitem recuperar também outras dimensões dessa sociedade. Trabalhadores escravizados, indígenas, homens livres pobres, religiosos, comerciantes e famílias de diferentes origens circularam por aquele espaço ao longo dos séculos XVIII e XIX. Traíras não era apenas uma mina cercada por casas, mas uma sociedade colonial completa em formação. 

Leia Mais: Romaria de Muquém mobiliza milhares de fiéis em Niquelândia

O lugar mudou até de nome

Outra parte do desaparecimento de Traíras aconteceu simbolicamente. Em 1943, o distrito deixou oficialmente de carregar o nome pelo qual havia sido conhecido durante cerca de dois séculos. A reforma administrativa que transformou São José do Tocantins em Niquelândia também mudou Traíras para Tupiraçaba. O antigo nome, porém, permaneceu na documentação histórica, na memória regional e nas referências ao patrimônio tombado. 

Hoje, documentos oficiais usam as duas referências para explicar a localização dos bens históricos. O próprio patrimônio federal identifica Tupiraçaba como a antiga Traíras, permitindo ligar o atual distrito ao grande núcleo minerador colonial. A mudança do nome reforça a sensação de que a antiga localidade desapareceu, embora o território continue ocupado. Na prática, Traíras sobrevive simultaneamente como lugar físico, memória histórica e nome de um período anterior de Goiás. 

Isso também explica por que muitos goianos podem conhecer Niquelândia sem jamais ter ouvido falar de Traíras. A cidade que cresceu posteriormente assumiu o protagonismo econômico e administrativo da região, principalmente depois da descoberta e exploração do níquel no século XX. O antigo centro do ouro tornou-se periferia histórica de um município que passou a ser associado a outro mineral. Em poucos séculos, o eixo econômico regional foi do ouro de Traíras ao níquel de Niquelândia. 

Leia Mais: Deputado quer transferência anual simbólica da capital de Goiás para o povoado de Muquém

Um patrimônio que ainda exige cuidado

Vista do cemitério de Tupiraçaba, antigo arraial de Traíras, em Niquelândia (GO), com a paisagem serrana ao fundo e elementos que remetem à memória histórica da região (Foto: Reprodução/YouTube)
Vista do cemitério de Tupiraçaba, antigo arraial de Traíras, em Niquelândia (GO), com a paisagem serrana ao fundo e elementos que remetem à memória histórica da região (Foto: Reprodução/YouTube)

O risco de perda do patrimônio de Traíras não ficou restrito ao passado. Documentação do Ministério Público Federal mostra que órgãos de preservação continuaram discutindo medidas para proteger e interpretar as ruínas do antigo arraial. Em procedimento analisado em 2024, o MPF registrou que Iphan e órgãos estaduais trabalhavam na elaboração de um projeto de musealização e sinalização das ruínas de Traíras. A iniciativa previa pesquisa, preservação e comunicação do patrimônio existente na área. 

O documento tratava especificamente da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, bem tombado pelo Iphan. O procedimento foi arquivado porque as instituições responsáveis informaram que medidas de preservação estavam sendo adotadas, mas foi determinada a abertura de acompanhamento administrativo do projeto. Isso mostra que a conservação do antigo arraial permanece uma questão concreta, e não apenas uma discussão sobre edifícios perdidos décadas atrás. O que ainda existe precisa ser protegido para que a história não sobreviva apenas nos arquivos. 

A permanência das ruínas tem ainda uma função incomum. Diferentemente de centros históricos integralmente preservados, Traíras permite visualizar os efeitos materiais da perda de importância econômica de uma cidade. Paredes interrompidas, igrejas incompletas e estruturas isoladas revelam algo que documentos escritos dificilmente conseguem reproduzir. O próprio desaparecimento se tornou parte do patrimônio. 

Traíras quase sumiu, mas sua história não

O antigo arraial ajuda a desmontar a ideia de que as cidades seguem necessariamente uma trajetória contínua de crescimento. No século XVIII, Traíras ocupava uma posição que hoje dificilmente seria imaginada por quem passa pelo pequeno distrito de Tupiraçaba. O ouro criou riqueza, população, igrejas e estruturas administrativas, mas a exaustão da mineração deslocou gradualmente esse centro de poder para outra localidade. O que parecia permanente tornou-se ruína. 

Ainda assim, o lugar não desapareceu por completo. Tupiraçaba continua existindo no território de Niquelândia, enquanto o nome Traíras permanece associado às ruínas, aos documentos coloniais, ao patrimônio tombado e às pesquisas acadêmicas sobre Goiás. Cada vestígio preservado permite reconstituir um pedaço da estrutura econômica e social que acompanhou a mineração no norte do estado. Por isso, visitar Traíras é também observar o que acontece quando uma cidade deixa de ser centro da história, mas se recusa a desaparecer dela

Categorias:
Curiosidades
Tags:
antigos arraiais arquitetura colonial arraiais de Goiás ciclo do ouro cidades históricas de Goiás escravidão em Goiás formação de Goiás história de Goiás história de Niquelândia história do Brasil colonial Igreja de Nossa Senhora do Rosário memória goiana mineração em Goiás Niquelândia Norte de Goiás ouro em Goiás patrimônio cultural patrimônio de Niquelândia Patrimônio Histórico período colonial população negra em Goiás ruínas históricas Traíras Tupiraçaba turismo histórico