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O método psicológico para evitar que o primeiro encontro vire um exame

Em tempos de hipervínculos e desconexão emocional, algumas pessoas aplicam estratégias de avaliação para não repetir padrões disfuncionais

O método psicológico para evitar que o primeiro encontro vire um exame
Primeiro encontro - Foto: Freepik

Depois de uma sessão de pouco mais de uma hora, na qual cerca de 40 minutos sólidos foram dedicados a narrar uma sequência de encontros fracassados, minha psicóloga me olhou e disse: “Você poderia encarar seus encontros como se fossem castings: processos de seleção para escolher a pessoa certa para fazer parte do seu filme”. Entusiasta de cinema desde pequena — minha psicóloga sabe muito bem disso —, a ideia me encantou. Ri e pensei: é isso mesmo.

O fato é que, para além do romantismo que se possa ou não atribuir ao momento, começar a conhecer alguém é, de fato, um processo de seleção. Uma espécie de prova — que pode durar um ou vários encontros — na qual se avalia se determinada pessoa faz sentido na nossa trama íntima. Não necessariamente a partir da rigidez ou do preconceito, mas da lucidez e de uma perspectiva de longo prazo. No campo da psicologia, alguns se referem a essa ferramenta como “casting emocional”.

— Trata-se de uma prática que propõe avaliar o potencial vínculo romântico no primeiro encontro por meio de perguntas pensadas para detectar red flags, carências afetivas ou incompatibilidades de base— explica Macarena Gavric Berrios, psicóloga clínica.

A ideia, segundo ela, é que seja uma espécie de entrevista antes de se deixar levar pelo apaixonamento.

— A intenção por trás disso é razoável: conhecer mais e melhor a outra pessoa para poder escolher com mais consciência e evitar repetir padrões disfuncionais do passado. É a tentativa de não voltar a se envolver em formas de vínculo nas quais houve sofrimento.

O método, afirma Gavric Berrios, pode incluir perguntas que permitam explorar os valores, crenças e estratégias de enfrentamento do outro, elementos que contribuem para compreender melhor seu modo de ser.

— Observar suas atitudes, coerência, comunicação ou disponibilidade afetiva pode nos ajudar a reconhecer sinais precoces de incompatibilidade ou antecipar possíveis dinâmicas disfuncionais —observa.

— Eu tenho minhas perguntas estrela. Eu chamo de starter pack da clareza emocional—, diz Valeria G. (33), pouco antes de enumerar as cinco perguntas às quais recorre em qualquer primeiro encontro:

  • Você sabe o que quer na vida?
  • Como é o seu dia perfeito?
  • Quais são hoje suas três prioridades?
  • Por que terminou seu último relacionamento?

Você sente que está emocionalmente disponível para sustentar um vínculo?
— Não posso dizer que não rio de mim mesma com frequência, mas muitas vezes me iludi com alguém que nem sabia o que queria, e hoje prefiro não perder tempo —, diz a entrevistada.

Avaliar o potencial

Há algo profundamente humano — e contraditório — em buscar certezas onde a incerteza é a regra, sendo o amor o campo número um onde essa tendência se repete.

— Ter certos critérios no momento de nos vincularmos é saudável, desde que não sejam interpretados como uma postura intransigente, mas mais como limites e uma forma de preservar nossa identidade, — diz Berrios.

Para a psicóloga, estabelecer cinco ou seis condições “inegociáveis” pode ser útil para entender se a pessoa em questão compartilha perspectivas semelhantes.

Embora, do ponto de vista clínico, uma primeira impressão não possa determinar com precisão o futuro de um vínculo, ela pode, sim, orientá-lo. Nesse sentido, Berrios enfatiza que é fundamental que existam pontos de coincidência em torno de valores profundos e crenças essenciais.

— Não se pode iniciar um vínculo com a intenção de mudar no outro atitudes que estão muito arraigadas.

A diferença em relação a um checklist

Sem dúvida, levar uma série de perguntas para um encontro pode parecer exagerado e até desconectado do desejo. E, embora realizar um “casting emocional” possa, à primeira vista, ser associado a preencher uma lista de requisitos, ou checklist, há uma grande diferença entre ambos.

Uma avaliação emocional sincera se baseia na escuta e na ressonância emocional; surge da curiosidade autêntica e implica observar o que se sente na presença do outro, como ele se comunica, se há fluidez, se é possível ser você mesmo sem esforço, segundo Berrios.

— A lógica do checklist, por outro lado, se baseia em critérios externos ou rígidos — muitas vezes idealizados — que buscam controlar a incerteza, transformando a experiência em uma entrevista de emprego do amor, mais focada em aprovar ou descartar do que em conhecer.

Em definitiva, enquanto o casting pode funcionar como uma prática de observação e discernimento, o checklist tende a assumir a função de filtro, geralmente bloqueando a espontaneidade e a possibilidade de uma conexão genuína.

O autoconhecimento como ferramenta-chave

Agora bem, embora na prática as perguntas sejam feitas ao outro, a base de qualquer casting emocional começa na autoavaliação.

— O ponto central não está em examinar o outro, mas em compreender a partir de onde escolhemos. Apenas uma pessoa que explorou suas próprias necessidades, feridas e limites pode distinguir entre um alerta real e um medo projetado. Conhecer-se permite usar o casting emocional como uma ferramenta de escolha consciente—, explica Gavric Berrios.

Um estudo realizado por Elizabeth R. Tenney, Simine Vazire e Matthias R. Mehl, no âmbito da Universidade da Califórnia e publicado no PubMed, encontrou uma correlação positiva entre o autoconhecimento e a percepção dos informantes sobre a qualidade de seus vínculos afetivos, sugerindo que ele oferece vantagens no plano interpessoal.

— Dado o quão fundamentais são as relações para a nossa espécie social, o autoconhecimento pode ter um grande valor, até agora subestimado —, resume.

Nesse sentido, Gavric Berrios enumera uma lista de perguntas que pode ser útil fazer a si mesmo antes de aplicar o método do casting emocional em um encontro, já que elas transformam o processo em um ato mais de consciência e menos de controle.

  • Que características busco que a outra pessoa tenha?
  • Quais são meus valores inegociáveis? Por que eles são importantes para mim?
  • Estou avaliando por curiosidade ou por medo? Busco conhecer genuinamente ou confirmar meus preconceitos?
  • O que é que não quero voltar a repetir?
  • Estou aberto a que o outro me surpreenda?
  • O que considero um encontro “bem-sucedido”?
  • Em suma, embora não seja garantia, o casting emocional pode ser uma bússola.

— Não se trata de deixar de sentir, mas de fazer com que o pensamento acompanhe a emoção, —conclui Gavric Berrios.

Via O Globo