Crítica: ‘O Conto da Aia’ e a série que nasceu dela mostram que Gilead é desconfortavelmente possível
'O Conto de Aia', série com Elisabeth Moss, mostrou como direitos podem desaparecer antes que uma sociedade perceba o tamanho da mudança
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O Conto da Aia nunca foi inquietante porque tentava prever exatamente o futuro. A força da obra está no caminho inverso: Margaret Atwood constrói Gilead combinando mecanismos já registrados na história, como concentração de poder, perseguição política, controle sobre a vida das mulheres e uso de uma interpretação religiosa como fundamento das instituições do Estado.
A adaptação estrelada por Elisabeth Moss chegou ao fim em 2025, depois de seis temporadas. O encerramento não apaga os problemas acumulados pela produção: The Handmaid’s Tale repete conflitos, prolonga trajetórias e transforma algumas vezes o sofrimento de suas personagens em recurso narrativo recorrente. Ainda assim, poucas séries recentes conseguiram discutir poder, religião, direitos individuais e autoritarismo por meio de uma construção visual tão reconhecível.
Há ainda uma razão para voltar a esse universo em 2026. A história ganhou continuidade com Os Testamentos: Das Filhas de Gilead, produção baseada no segundo romance de Atwood e centrada em uma nova geração de personagens.
Onde assistir O Conto da Aia

No Brasil, O Conto da Aia está disponível em diferentes plataformas. Em consulta realizada em setembro de 2026, o JustWatch lista a produção em serviços como Netflix, Amazon Prime Video, Disney+, Paramount+ e Globoplay, além de opções vinculadas à Amazon e à Apple TV.
A Netflix mantém uma página oficial da série, enquanto o Prime Video reúne as seis temporadas. Como catálogos de streaming mudam com frequência, a disponibilidade deve ser conferida no momento em que o espectador pretende assistir.
Para quem quiser seguir no universo depois do episódio final, Os Testamentos: Das Filhas de Gilead está no Disney+. A nova produção acompanha Agnes Mackenzie e Daisy e observa Gilead por uma geração diferente daquela apresentada na trajetória de June.
A primeira temporada ainda explica por que a série virou fenômeno

Poucas temporadas de televisão são tão fechadas quanto a primeira de The Handmaid’s Tale. A adaptação do romance publicado por Margaret Atwood em 1985 constrói um universo no qual figurino, enquadramento, arquitetura e cor informam constantemente quem possui poder e qual função cada pessoa ocupa naquela sociedade.
Vermelho para as Aias. Azul para as Esposas. Verde para as Marthas. Tons escuros para homens ligados às estruturas de comando. A paleta visual não serve apenas à estética: transforma indivíduos em categorias sociais.
É também o momento em que a série compreende melhor que o medo não depende de violência explícita em todas as cenas. O desconforto nasce da normalidade com que Gilead organiza cerimônias, mercados, escolas e residências dentro de uma estrutura que restringe legalmente a autonomia feminina.
Elisabeth Moss sustenta parte dessa construção com uma atuação baseada em pequenas reações. June precisa demonstrar submissão diante dos personagens enquanto o espectador acompanha, muitas vezes pelo rosto da atriz e pela narração, o conflito entre comportamento externo e pensamento.
Quando o livro termina, começam os problemas da série

A primeira temporada cobre grande parte do romance original. A partir daí, Bruce Miller e os roteiristas precisam expandir personagens, conflitos e instituições que não estavam desenvolvidos da mesma forma no livro.
A ampliação funciona inicialmente porque permite compreender melhor Serena Joy, Tia Lydia, Emily, Janine e os mecanismos internos de Gilead. O problema aparece quando a permanência de June no centro da história cria um ciclo cada vez mais previsível de resistência, tentativa de fuga, captura e novo confronto.
A repetição diminui parte do impacto dramático. Quando a narrativa precisa constantemente encontrar uma forma de recolocar a protagonista diante do mesmo sistema, a violência corre o risco de deixar de funcionar como acontecimento para se transformar em engrenagem de roteiro.
A série preserva qualidade visual e um elenco consistente durante esse processo. Ainda assim, parte de sua história teria ganhado intensidade com menos episódios e conflitos mais concentrados.
Serena Joy talvez explique Gilead melhor do que June

June mostra ao espectador as consequências do sistema para quem é diretamente submetido a ele. Serena Joy oferece outra perspectiva: a de alguém que contribui para a formação de uma estrutura e posteriormente descobre que também estará sujeita às restrições que ajudou a legitimar.
Ela participa intelectualmente da construção daquela sociedade e defende valores utilizados para reduzir a autonomia de outras mulheres. Quando Gilead se consolida, Serena percebe que sua posição social não lhe garante liberdade para ler, escrever ou decidir sobre aspectos centrais da própria vida.
Yvonne Strahovski constrói essa contradição sem transformar a personagem em uma figura unidimensional. Serena pode despertar compaixão em um momento e, pouco depois, lembrar ao espectador de sua participação direta na violência sofrida por June.
Essa instabilidade moral faz dela uma das personagens mais complexas da produção.
Gilead não é simplesmente uma crítica à religião

Reduzir O Conto da Aia a uma crítica ao cristianismo empobrece o que a obra apresenta. Dentro da ficção, a questão central está na transformação de uma determinada leitura religiosa em fundamento legal de um Estado que restringe escolhas individuais e concentra poder.
Gilead seleciona trechos bíblicos, cria cerimônias, estabelece hierarquias e utiliza linguagem religiosa para justificar decisões políticas e sociais. Ao mesmo tempo, seus dirigentes frequentemente violam os próprios princípios morais que dizem defender.
A religião, dentro daquele universo ficcional, funciona também como mecanismo de legitimação institucional. A crítica da série está justamente na fusão entre crença, autoridade política e imposição legal.
Isso ajuda a explicar por que a narrativa continua provocando discussão décadas depois da publicação do livro. A distopia de Atwood não depende de tecnologia futurista, mas de instituições reconhecíveis reorganizadas sob uma nova estrutura de poder.
O final não destrói Gilead — e acerta justamente por isso

June aparece diante de uma instalação com asas brancas em cena de O Conto da Aia, em uma das composições visuais mais simbólicas da série (Foto: Disney/Hulu)
A sexta temporada não oferece uma vitória completa. Algumas estruturas do regime são atingidas, personagens chegam a pontos importantes de suas trajetórias e June avança em sua resistência, mas Gilead não desaparece simplesmente porque a série chegou ao último episódio.
A escolha é coerente com o universo construído desde a primeira temporada. Depois de anos mostrando a dimensão política, militar e social daquele sistema, resolver toda a estrutura com uma única ação revolucionária diminuiria o próprio peso que a produção atribuiu ao regime.
O encerramento também prepara espaço para Os Testamentos. A página da nova produção no Disney+ apresenta uma narrativa centrada principalmente em Agnes e Daisy, permitindo observar como meninas educadas sob Gilead compreendem aquele mundo.
A mudança de protagonistas pode beneficiar a franquia. Depois de seis temporadas, afastar June do centro permite explorar o mesmo sistema sem repetir novamente os mesmos conflitos.
Vale a pena assistir O Conto da Aia?

O Conto da Aia entrega seus melhores momentos nas primeiras temporadas, apoiada principalmente nas atuações de Elisabeth Moss, Yvonne Strahovski e Ann Dowd e em uma direção visual que transforma organização social em imagem.
A produção perde ritmo, repete estruturas narrativas e provavelmente teria sido mais consistente com menos episódios. Isso, porém, não elimina a força de sua primeira fase nem a importância de personagens construídos ao longo das seis temporadas.
Como ficção distópica, The Handmaid’s Tale funciona melhor quando abandona a tentativa de responder se Gilead poderia existir exatamente daquela maneira. A pergunta mais interessante está em observar como, dentro da própria narrativa, mudanças inicialmente apresentadas como temporárias ou aceitáveis se acumulam até alterar por completo as instituições.
É aí que permanece a questão central deixada pela série: quanto uma sociedade pode mudar antes de seus habitantes perceberem que o mundo em que viviam já deixou de existir?