Goiânia 86 anos

surgimento, fundação e história da Capital do Cerrado

Fundada após muitas transformações no Brasil da década de 1930, Goiânia tomou o título de capital de outro município de Goiás e por pouco não teve outro nome. Conheça essas e outras histórias da nossa terrinha

Por Fabrício Moretti**
MapaPlano Diretor de Goiânia, Attilio Corrêa Lima, 1935

Goiânia é uma das capitais mais novas do Brasil e, nesta quinta-feira (24), completa ‘apenas’ 86 anos. Idealizada a partir de várias transformações políticas da década de 1930, a cidade foi fundada por Pedro Lu­dovico Teixeira no dia 24 de outubro de 1933 e assumiu o posto antes ocupado pela Cidade de Goiás. Conheça agora alguns detalhes sobre a fundação, informações e curiosidades da nossa terrinha, que por pouco não teve outro nome!

Para começar, vamos voltar para 1930. Naquele ano, uma revolução liderada pelo Presidente da República, Getúlio Vargas, impôs renovação das lideranças políticas por todo Brasil. Vargas nomeou Pedro Ludovico Teixeira como interventor de Goiás. Foi ele quem iniciou um projeto discutido já havia muito tempo: a mudança da capital de Goiás.

Planejada para 50 mil habitantes e para ser a capital política e administrativa de Goiás, Goiânia foi construída na época da "Marcha para o Oeste". O movimento de Vargas foi criado para incentivar as pessoas a migrarem para o centro do país e contribuir com o progresso da região. Uma das consequências foi a construção de estradas que ligam Goiás a outros Estados, bem como a realização de uma reforma agrária.

Em dezembro de 1932 o governo reuniu uma comissão de autoridades para escolher a melhor região para a nova capital. O que mantinha a Cidade de Goiás, além da pecuária, era a extração de ouro. À época, a atividade começava a declinar. A preferência era por alguma região com desenvolvimento econômico já avançado.

Goiânia, 2019

Por isso, a escolha da comissão foi o município de Campinas, que possuía forte atividade pecuária. Com o crescimento acelerado de Goiânia, Campinas que deu início à então futura capital foi absorvida pela metrópole que surgia e tornou-se um bairro: o primeiro e, consequentemente, o mais antigo.

A pedra fundamental, que marca o início das construções de Goiânia, fica no Palácio das Esmeraldas, na Praça Doutor Pedro Ludovico Teixeira, a Praça Cívica. Quem determinou a fixação da pedra no local foi o urbanista Attílio Correia Lima.

Em 1935, o também urbanista Armando de Godói assinou o plano diretor da cidade e reformulou o antigo projeto da capital. Uma das mudanças propostas por ele foi que o Setor Oeste passasse a ligar Goiânia a Campinas.

Foi apenas em dezembro de 1935 que Pedro Ludovico enviou para o Governo Federal um decreto estabelecendo a transferência da Casa Militar, da Secretaria Geral e da Secretaria do Governo para o município. Finalmente, no dia 23 de março de 1937, foi oficializado o decreto que transferiu definitivamente a capital da Cidade de Goiás para Goiânia.

Com a presença de ministros, autoridades e representantes da presidência da República, o evento oficial foi no dia 5 de julho de 1942, no Cine-Teatro Goiânia, hoje apenas Teatro Goiânia. O prédio fica no cruzamento entre algumas das principais avenidas do Centro: Anhanguera e Tocantins.

A Bandeira de Goiânia com as cores verde, branco e vermelho, representa a capital do estado brasileiro de Goiás.

Quem nasce em Petrônia, é o que?

Por pouco Goiânia não foi chamada de "Petrônia". O nome da cidade foi escolhido de uma maneira um tanto inusitada: por meio de concurso. Em 1938, o jornal "O Social", da Cidade de Goiás, lançou a campanha “Como deve se chamar a Nova Capital?”. Leitores enviaram nomes para batizar a cidade. O vencedor teria direito a uma assinatura do jornal por dois anos.

Um morador do município de Pires do Rio sugeriu “Petrônia”, em homenagem a Pedro Ludovico, fundador de Goiânia. Já Alfredo de Castro, professor do Colégio Lyceu da Cidade de Goiás, disse que a cidade deveria ser chamada de “Goiânia”.

O vencedor do concurso foi anunciado em 26 de outubro de 1933: a nova capital se chamaria “Petrônia”. “Goiânia” recebeu apenas dois votos: um do próprio Alfredo de Castro e outro da professora Zanira Campos Rios. Entretanto, Pedro Ludovico, então governador de Goiás, ignorou o nome que lhe fazia homenagem. No decreto de 1935 ele batizou a cidade com o nome que mais gostou.

Cavalhada na Inauguração de Goiânia no ano de 1933Cavalhada na Inauguração de Goiânia no ano de 1933
Coreto da Praça CívicaCoreto da Praça Cívica
Região central de Goiânia. Na foto, vemos a Praça Cívica e Avenidas Goiás, Araguaia e TocantinsRegião central de Goiânia. Na foto, vemos a Praça Cívica e Avenidas Goiás, Araguaia e Tocantins
Banhistas se divertem no trampolim do Lago das Rosas, quando ainda era permitido nadar nas águas do lago principalBanhistas se divertem no trampolim do Lago das Rosas, quando ainda era permitido nadar nas águas do lago principal
Praça do Bandeirante, no Setor CentralPraça do Bandeirante, no Setor Central
Praça Coronel Joaquim Lúcio, no Setor CampinasPraça Coronel Joaquim Lúcio, no Setor Campinas
Lago das RosasLago das Rosas
Praça do Bandeirante, no Setor CentralPraça do Bandeirante, no Setor Central
Palácio das Esmeraldas, na Praça CívicaPalácio das Esmeraldas, na Praça Cívica
Colégio Ateneu Salesiano Dom BoscoColégio Ateneu Salesiano Dom Bosco
Avenida AnhangueraAvenida Anhanguera
Canteiro de flores na Avenida GoiásCanteiro de flores na Avenida Goiás
Avenida GoiásAvenida Goiás
Avenida AnhangueraAvenida Anhanguera
Cine Teatro Goiânia, hoje somente Teatro Goiânia, entre as Avenidas Tocantins e Anhanguera
Praça Cívica. Ao fundo o monumento das três raças
Monumento das três raças na Praça Cívica
Praça Botafogo, no Setor Leste Universitários

Arquitetura, números e população

A segunda cidade mais populosa do Centro-Oeste, superada apenas por Brasília, Goiânia atingiu um milhão de habitantes no ano de 1996. De acordo com estimativas do IBGE, a população era de 1.495,705 habitantes no ano de 2018. É o décimo município mais populoso do Brasil e a 13ª região metropolitana mais populosa do país.

A arquitetura do município tem influência do Art Déco, estilo de arquitetura e design que começou na Europa em 1910 e chegou aos primeiros prédios de Goiânia. Hoje, é conhecida como o maior espaço de Art Déco da América Latina.

Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a Praça Cívica é o principal elemento do traçado urbano da capital e, por isso, é tombada.

Antiga Estação Ferroviária de Goiânia foi inaugurada em 1950

Em 2003, o Iphan tombou o Conjunto Arquitetônico Art Déco e Urbanístico de Goiânia, que inclui 22 edifícios e monumentos públicos: Estação Ferroviária, Mureta e trampolim do Lago das Rosas, Coreto da Praça Cívica, Fontes luminosas, Residência de Pedro Ludovico Teixeira, Obeliscos com luminárias, Palácio das Esmeraldas, Torre do Relógio, os Edifícios do Fórum e Tribunal de Justiça (atual Procuradoria Geral do Estado), do Departamento Estadual de Informação (atual Museu Zoroastro Artiaga), da Antiga Delegacia Fiscal (nova sede do Iphan), da Antiga Chefatura de Polícia (atual Subsecretaria Estadual de Cultura), da Antiga Secretaria Geral (atual Centro Cultural Marieta Telles), do Tribunal Regional Eleitoral, do Colégio Estadual Lyceu de Goiânia, do Antigo Grande Hotel, do Antigo Palace Hotel, do Teatro Goiânia, da Antiga Escola Técnica de Goiânia, da Antiga Subprefeitura e Fórum de Campinas e o Traçado Viário dos Núcleos Pioneiros.

Segundo o mais recente censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Goiânia é a cidade mais arborizada do Brasil. A capital possui 89,5% de arborização, com cerca de 1,200,00 mil árvores pela cidade. Os dados são o resultado da avaliação do número de árvores nas calçadas e canteiros. Já comparando com outros países, Goiânia é a segunda cidade mais arborizada do mundo, perdendo apenas para Edmonton, no Canadá.

*Com informações do IBGE, Prefeitura de Goiânia e Iphan**Fabrício Moretti é integrante do programa de estágio do convênio entre Ciee e Mais Goiás, sob orientação de Hugo Oliveira

Goiânia em memórias: a visão da cidade pelos olhos de quem vive aqui há décadas

No coração do Brasil, Goiânia abriga recordações que deixaram saudades em muitas pessoas. Três antigos moradores da capital compartilharam as próprias histórias de vida com o Mais Goiás

Por Fabrício Moretti*

No coração do Brasil, no meio do cerrado, com sol, poeira e às vezes alguma chuva, Goiânia completa 86 anos de fundação nesta quinta-feira (24). A capital com “jeitim” de interior está entre as cidades mais arborizadas do mundo e do País. E tem o cheiro de pequi e o acolhimento típicos dos goianos. Dizem que, entre setembro e outubro, o humor dos moradores fica mais à flor da pele: é a espera pela chuva, que este ano tem demorado mais um 'tiquim' do que o normal.

De onde muitos têm vontade de fugir por causa do calor e da secura e para onde muita gente traz os sonhos e a vontade de crescer. Cidade que levou e leva nomes de artistas pelo país inteiro e é considerada o berço do sertanejo: na internet, dizem que aqui já se nasce em dupla, pra ter com quem tocar. Em 1987, o segundo maior acidente radioativo do mundo marcou a história de Goiânia. O medo e o terror se espalharam e, depois de 32 anos, o episódio do Césio-137 ainda é um tabu em nossa sociedade.

Quem mora aqui há muitos anos guarda no coração as recordações: lugares que não existem mais e deixaram saudade, outros que passaram por mudanças. E, é claro, memórias afetivas do que é ver as mudanças e transformações durante décadas. Esse é o sentimento de três antigos moradores da capital: Maria Lourdete, Demerval Francisco e Maria Divina.

Gente que é daqui, ou que veio de longe, se apaixonou e por aqui ficou. Pessoas que aprenderam ou amam o sotaque carregado e a hospitalidade dos goianos. Histórias, lembranças, medos e sonhos. Os três moradores contaram ao Mais Goiás um pouco do que os olhos já cansados viram, os ouvidos um dia mais atentos captaram e aquilo que ficou marcado na pele pelo tempo e pelo sol da capital do cerrado.

Vindos de outras terras

A aposentada Maria Lourdete Apolonio Santana, 74 anos, é natural de Fortaleza, Ceará, e mora há 36 anos em Goiânia. Segundo ela, o motivo que a trouxe para a capital foi a falta de emprego onde morava. E também porque vários familiares já estavam aqui. "Lembro que quando cheguei aqui, o bairro onde que eu morava era só terra. Quase não tinha residências, não tinha asfalto, era bem difícil", recorda.

O mesmo aconteceu com o aposentado Demerval Francisco da Silva, que hoje tem 85 anos. Quase da idade de Goiânia, Demerval veio de Belo Horizonte, Minas Gerais, para Goiânia em 1977. Pensando em uma educação melhor para os filhos, ele diz que a cidade "mudou da água para o vinho". Mas concorda com Maria ao lembrar que "era só a terra".

"Aquela Avenida Goiás era só terra, assim como a Avenida Anhanguera. Me lembro que na Praça do Trabalhador tinha uma árvore muito grande e bonita. Mas aí, com o avanço cada vez mais rápido das coisas, a natureza vai toda sendo destruída né. Campinas antigamente já era uma cidade boa para a época, hoje virou bairro. Só que também não tinha asfalto não", relembra.

"Aquela Avenida Goiás era só terra, assim como a Anhanguera. Me lembro que na Praça do Trabalhador tinha uma árvore muito grande e bonita. Mas aí, com o avanço cada vez mais rápido das coisas, a natureza vai toda sendo destruída né. Campinas já era uma cidade boa para a época, hoje virou bairro. Só que também não tinha asfalto"

— relembra Demerval da Silva, pioneiro de Goiânia

Para Maria Lourdete, um dos únicos lugares onde ela se divertia eram nas festas da Praça Cívica. "Era um dos poucos locais que aconteciam festas e eventos. Na época de festas juninas, por exemplo, era muito bom. Todo mundo se reunia na Praça e dançava muito", relembra.

A cearense acredita que a cidade melhorou muito ao longo dos anos. A aposentada acompanhou a evolução durante décadas e afirma que as melhorias são em todos os sentidos. "Hoje tem shoppings, locais para shows, as oportunidades de emprego cresceram. Aqui eu consegui trabalho e pude ter o básico para criar meus filhos e viver até hoje".

Demerval hoje se diz goiano igual qualquer outra pessoa que tenha nascido por aqui. Ele conta que na terra do pequi trabalhou mais de 20 anos como guarda noturno para garantir o sustento dos filhos.

Mas nem só de flores e evoluções vive Goiânia. Um dos momentos mais tristes e marcantes da capital foi o acidente radioativo do Césio 137. "A desinformação era muita, ninguém sabia de fato o que estava acontecendo e surgiam histórias falsas todo dia. Era um pesadelo", relembra Demerval dos tempos difíceis.

Em um vídeo preparado pelo Mais Goiás, Demerval conta muitas outras histórias de todos esses anos na capital goiana. Ele destaca a expansão. E diz que hoje a cidade está "emendando" com Goianira, Trindade e Senador Canedo. Mas o mais importante de tudo foi que aqui ele conseguiu trabalhar e sustentar a família com dignidade. Confira a seguir:

Recordações de Goiânia

A costureira Maria Divina da Conceição, 68 anos, morou ‘a vida toda’ em Goiânia, como se diz por aqui. Mãe de dois filhos, ela conta que ama de coração a capital, e que não trocaria por nenhuma outra cidade. Com saudade, ela lembra que quando era criança não tinha nada mais divertido que ver o trem de ferro chegar em Campinas.

"Antigamente eu ia para o gramado no Lago das Rosas para estudar, era uma tranquilidade só. A primeira vez que fui no Parque Mutirama foi mágico, lembro até hoje. Não tinha muitas condições de ir para outros locais, então foi marcante para mim. O Zoológico era um dos lugares mais frequentados, adorava ir para lá aos finais de semana."

Maria Divina puxa na memória outros lugares que gostava de frequentar: alguns não existem mais, como o Cinema Frida, no Centro da cidade. "Antigamente na Avenida Goiás a gente podia atravessar quase sem olhar para os lados, de tanta tranquilidade. Lá ficava o Cinema Frida, que infelizmente deixou de existir há muitos anos. Na Feira Hippie há décadas se vendia praticamente só artesanato, era muita coisa bonita e barata", diz.

O clima de cidade pequena que a capital transmite, mesmo com toda a agitação e modernidade dos tempos atuais, é uma das principais paixões dela. "Também adoro o sotaque goianiense. Acho que todo mundo né?! O goiano é conhecido por ser sempre solícito e de bom humor, o que pelo menos entre os mais velhos é verdade. Somos ‘pé rachado’, comedores de pequi e pamonha com muito orgulho!", se diverte.

"Adoro o sotaque goianiense. Acho que todo mundo, né?! O goiano é conhecido por ser sempre solícito e de bom humor, o que pelo menos entre os mais velhos é verdade. Somos ‘pé rachado’, comedores de pequi e pamonha, com muito orgulho!"

— se diverte Maria da Conceição, pioneira de Goiânia

A moradora ainda conta que uma das coisas que mais gosta na cidade hoje são os parques, como o Areião e o Bosque dos Buritis. E não é à toa: a nossa Goianinha é uma das cidades mais arborizadas do Brasil e do mundo. "Você está no centro da cidade e de repente tem à disposição uma área verde para relaxar e aproveitar com a família, pode até fazer um piquenique. Até esqueço que estou numa grande capital, dá pra fugir dos problemas".

*Fabrício Moretti é integrante do programa de estágio do convênio entre Ciee e Mais Goiás, sob orientação de Hugo Oliveira

Goiânia completa 86 anos em meio a obras de infraestrutura

Com cerca de 13 obras de infraestrutura em andamento, a capital do Estado chega ao seu 86º aniversário. Enquanto gestores falam em melhorias na cidade em razão das obras, motoristas reclamam do trânsito e diversos desvios

Por Jéssica Santos

Na celebração de 86 anos de existência, Goiânia está abarrotada de obras infraestruturais. São 13 em andamento, espalhadas pela cidade. Balanço da Prefeitura realizado no último 30 de setembro, mostrou que até o mês anterior, agosto, custeio de projetos e aquisições de bens e serviços custaram cerca de R$ 80 milhões. Expectativa porém, é de que R$ 1,4 bilhão sejam gastos até 2020. Em razão dos diversos canteiros abertos, goianienses têm vivido uma antítese entre os benefícios projetados e o caos da mobilidade urbana decorrente das construções. O Mais Goiás embarcou em uma viagem pela “capital das obras” e te conta com detalhes a situação delas por toda a metrópole.

Quem entra em Goiânia via BR-153 e acessa a Av. Jamel Cecílio já se depara com obras e desvios. No local, é construído um Complexo Viário nos mesmos moldes do cruzamento da Avenida 85 com a T-63, no Setor Bueno. Com orçamento de R$ 26 milhões do Tesouro Nacional, o projeto prevê o uso de uma pista elevada, uma rotatória em nível e uma trincheira.

Projeto do Complexo Viário da Jamel Cecílio. Obra é orçada em R$ 26 milhões (materia02/Foto: D_cropivulgação/Prefeitura)

A Av. Jamel Cecílio vai passar pelo elevado sobre toda a obra; no mesmo nível da Alameda Leopoldo de Bulhões virá a rotatória, na rua já existente; e a Marginal Botafogo passará pela trincheira abaixo de tudo.

Quem passa pela região tem opinião dividida desde que as obras se iniciaram no dia 13 de Setembro. “O trânsito piorou muito. Um trajeto feito em cinco minutos tem demorado mais de 30. O projeto é interessante e vai melhorar o tráfego lá. O problema é aguentar os 15 meses de obras”, afirma o técnico em enfermagem, Júlio Martins.

BRT- trecho Norte

Do outro lado da cidade a situação é semelhante. Quem passa pela região Norte também vê máquinas, equipamentos, servidores, sinalização e desvios. Isso tudo por conta da construção do corredor do BRT e das pistas laterais; obra que já está no último trecho, na Av. Oriente, no Residencial Recanto do Bosque. A previsão da entrega, conforme aponta a prefeitura, é para os próximos 15 dias.

Antes da entrega, porém, ainda há trabalho. Isso porque é preciso fazer os canteiros e paisagismo, colocar coberturas nas estações que foram dispostas no trecho que dá acesso à Rodoviária, bem como a revitalização da segunda metade do Terminal Recanto do Bosque.

BRT- trecho Norte tem 90% das obras concluídas. (materia02/Foto: D_cropivulgação/Prefeitura)

“Mais de 90% dessa da parte Norte do BRT já está pronta. Faltam poucos detalhes. É preciso esperar, por exemplo, a remoção de alguns postes para fazermos a pavimentação do corredor e também a duplicação da avenida. Vamos entregar tudo arrumado em breve”, afirmou o secretário de Infraestrutura, Dolzonan Mattos.

“Mais de 90% dessa da parte Norte do BRT já está pronta. Faltam poucos detalhes. Vamos entregar tudo arrumado em breve”

afirmou o secretário de Infraestrutura,
— Dolzonan Mattos.

No trecho de 11 km, entre o Terminal Recanto do Bosque e a Avenida Independência, também estão sendo instaladas 14 plataformas de embarque e desembarque de passageiros, além de dois novos terminais, o Rodoviária e o Perimetral.

O terminal que está sendo construído ao lado da Rodoviária teve início em 2016, mas as obras ficaram paralisadas por quase dois anos. Com valor de R$ 8,5 milhões, os serviços foram retomados em junho deste ano, com previsão de término para fevereiro de 2020.

14 plataformas de embarque e desembarque estão sendo instaladas no trecho Norte do BRT. (materia02/Foto: D_cropivulgação/Prefeitura)

BRT: trecho Sul

No trecho Sul do BRT também houve paralisação. Iniciadas em 2017, as obras na região da 4ª Radial só duraram cerca de 44 dias. Agora, depois de dois anos e três meses, a prefeitura voltou a operar o processo de licitação para dar continuidade das construções do trecho de 5 km, entre os terminais Isidória e Cruzeiro do Sul. A previsão é de que o reinício aconteça somente em em janeiro ou fevereiro de 2020 e seja concluído em até 18 meses. Custo estimado é de R$ 87, 36 milhões.

Até agora, conforme informações repassadas pela assessoria de imprensa da Seinfra, o corredor do BRT e as pistas laterais entre a Praça do Cruzeiro e o Terminal Isidória estão prontos. A exceção fica por conta do trecho em frente ao Hospital de Urgências de Goiânia, que está na fase de terraplenagem da pista lateral e pavimentação da pista ao longo da trincheira, no sentido Sul.

Trincheira da Rua 90

No cruzamento da Rua 90 com a Av. 136 também há obras. No local, está sendo construída uma trincheira entre as mencionadas vias, obra que integra o corredor BRT Norte-Sul. Iniciadas em 1º de Abril, entraram em fase final em outubro. No lugar, é realizada a concretagem do pavimento de 350 m de comprimento por 18 m.

A proposta é que a Rua 90 passe por baixo da Av. 136 para facilitar a circulação dos ônibus e desafogar o trânsito, que é bastante carregado na região. Todo o projeto está orçado em R$ 10 milhões.

Depois de 186 dias de construção, o viaduto que liga a Jamel Cecílio e a Avenida 136, no sentido Avenida 85, foi liberado e o tráfego de veículos voltou à origem. Além disso, a pavimentação do corredor foi concluída e 95% da pavimentação dos demais veículos já está pronta.

Agora, estão em execução os meios-fios, o plantio de grama e a construção das calçadas. Até o final do mês, o viaduto 1 também deverá ser liberado e o tráfego original restabelecido no cruzamento. A obra deve ser entregue em sua totalidade no dia 29 de novembro.

Além disso, também está sendo construído um sistema de drenagem a ser conectado ao existente na Avenida Jamel Cecílio que desce para a Av. 136. A nova rede, de 150 m de extensão e 1,2 m de diâmetro, vai captar a água de todo esse sistema viário e lançar no Córrego Botafogo, impedindo o acúmulo na trincheira.

Para o empresário Jhonatan Assis, de 47 anos, a entrega vai significar alívio aos motoristas. “Todos os dias passo pelo local porque infelizmente não há um caminho alternativo até meu trabalho. Foram meses difíceis. Aguentar todo o trânsito e os desvios não é fácil. A gente começa o dia estressado e termina mais estressado ainda”, afirmou.

“Infelizmente não há um caminho alternativo até meu trabalho. Aguentar todo o trânsito e os desvios não é fácil. A gente começa o dia estressado e termina mais estressado ainda”

— Jhonatan Assis, empresário, sobre obras entre as avenidas Jamel Cecílio e 136

Trincheira da rua 90 passa por concretagem. Obra deve ser entregue no final de Novembro (materia02/Foto: P_cropaulo José/Hora Extra)

Investimentos

No último dia 30 de setembro, o balanço do segundo quadrimestre das contas do Executivo no plenário da Câmara Municipal mostrou números exponenciais em infraestrutura. Os dados mostraram evolução de 83,60% na pauta mais cara ao prefeito Iris Rezende (MDB): investimento em obras.

Até o mês de agosto os recursos destinados para obras, custeio de projetos e aquisições de bens e serviços ultrapassaram R$ 79,8 milhões. Tal aumento é reflexo direto do lançamento de obras que estão a todo vapor nos últimos meses. A intenção é que o Paço ainda injete cerca de R$ 1,4 bilhão até o final do mandato, em 2020.

“Colocamos a máquina em ordem e agora é obra a cada dia, a cada hora, assim vamos atendendo aos clamores da população. Reformando e construindo praças, pavimentando 31 bairros que surgiram depois que eu deixei a prefeitura. Vamos deixar Goiânia, como eu disse na campanha [2016], uma cidade gostosa e bonita”, suavizou o prefeito à época.

O receio de impossibilidade de término das obras em razão do grande volume de construções é descartado pelo secretário de Infraestrutura Dolzonan Mattos. “Todas as obras iniciadas serão entregues até dezembro de 2020”. Segundo ele, nenhuma frente de serviço foi ou será aberta para “ficar parecendo fratura exposta depois”.

“Além de deixar a cidade com aspecto horrível, as obras não concluídas geram prejuízos aos cofres públicos. Por isso não começamos nenhuma obra que não conseguiremos concluir. Até o final do governo Iris todas elas estarão prontas e entregues à sociedade”, garantiu.

Trânsito

Se por um lado a prefeitura garante entregar uma cidade mais bonita, harmônica e com melhor mobilidade para viver e andar após as obras, os moradores têm de lidar com diversos transtornos enquanto as construções são executadas. As reclamações são frequentes e giram em torno de engarrafamentos que chegam a durar horas de espera.

“Tem sido complicado andar em Goiânia. Todo dia é atraso no trabalho. As crianças se atrasam para chegar na escola. Por mais que a gente saia cedo já tem congestionamento logo no início da manhã. Todo mês praticamente tem um novo desvio”, reclama o vender Willian Silva.

Transitar pelo município em horário de pico, que já era complicado, piorou, segundo o vendedor. “Entendemos que há necessidade de ajuste nas vias e sabemos dos benefícios que vêm depois, mas essas construções não podem ser feitas todas de uma vez porque você trava a cidade. A capital já tem veículo demais, o que, por si só, já dificulta o trânsito. É preciso fornecer condições de circulação”.

“Entendemos que há necessidade de ajuste e sabemos dos benefícios que vêm depois, mas essas construções não podem ser feitas todas de uma vez porque você trava a cidade”

— sublinha Wellington Silva, vendedor, sobre o trânsito na capital

Congestionamento na Jamel Cecílio chegou a 10 km. (materia02/Foto: R_cropeprodução/Internet)

Atualmente Goiânia possui cerca de 1,3 milhão veículos circulando pela cidade, conforme dados da Secretaria de Trânsito, Transporte e Mobilidade (SMT). Planejar os desvios e ofertar boas condições de tráfego para a grande quantidade de automóveis são missões difíceis para a equipe da pasta.

“Em todos os locais de obras são feitos estudos técnicos criteriosos. Em lugares em que é preciso fazer desvios são pensados principalmente para garantir o retorno ao caminho desejado no espaço mais curto possível com garantia de segurança”, pontuou o titular da pasta, Fernando Santana.

Segundo ele, depois de definir os desvios, a SMT mantém a fiscalização nos locais para verificar a existência de problemas e realizar ajustes necessários. “É um estudo contínuo”, frisa. “É preciso entender que o desvio nunca tem a capacidade da via principal. Se tivesse, não seria considerado desvio e não precisaria de estudo. A sociedade precisa viver esse momento com a prefeitura. Depois dos transtornos ficam os benefícios”.

Desvios dos desvios

Para se ter uma ideia, já no primeiro dia útil (19/09) em que os motoristas utilizaram rotas indicadas pela SMT para desviar da construção do Complexo Viário, que ligará as avenidas Jamel Cecílio e 136, o congestionamento chegou a 10 km de extensão do ponto original do desvio. Motoristas tiveram de esperar mais de 40 minutos em um trajeto feito, comumente, em cinco minutos.

Congestionamentos como este têm sido rotina em diversos pontos da cidade. Diante disso, os motoristas têm buscado alternativas para desviar dos desvios estabelecidos pela prefeitura.

Segundo o secretário da SMT, cerca de oito avenidas e ruas estão recebendo fluxo extra de veículos em razão dos desvios. As Av. 85, Cora Coralina, 3ª radial, E, bem como as ruas 88, 90 e 115 são alvos mais constantes e procurados.

“Esses locais para onde os motoristas estão migrando para saírem dos desvios indicados também são monitorados. A fiscalização e a engenharia acompanham tais vias diurnamente. Em determinados locais a SMT precisa atuar e adotar medidas como redução de velocidade e sinalização, por exemplo”, disse Fernando. E completou: “tudo isso para garantir a segurança e fluidez do trânsito. Lembrando que tudo que a cidade passa agora é para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos”.

Av. 85 é uma das opções de desvios dos desvios. (materia02/Foto: R_cropeprodução/Internet)

Obras x mobilidade

“Fazer de Goiânia a melhor cidade de qualidade de vida do país”. A fala do titular da SMT, Fernando Santana, refere-se ao objetivo da prefeitura quanto às obras. De acordo com ele, os benefícios das construções são imensos. “O objetivo é desafogar o trânsito nos pontos mais críticos da cidade. Isso, consequentemente, gera a diminuição do estresse dos motoristas de veículos de passeios e usuários do transporte coletivo”.

Conforme expõe o secretário, as obras também tendem a melhorar a segurança nas vias, assim como a mobilidade tanto para veículos quanto para pedestres. “É algo que reflete diretamente na qualidade de vida da população. Os benefícios são imensos e a cidade só tende a ganhar”, afirma.

Contudo, apesar das garantias alegadas pelo secretário, Fernanda Mendonça, titular do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás (CAU-GO) aponta problemas para a mobilidade urbana com a execução de grandes complexos viários.

“Essas obras têm prazo de validade. Podemos dizer que ela será eficiente durante os próximos cinco anos, mas é um investimento muito alto para um tempo de solução muito curto”, afirmou. A arquiteta explica que tais obras retiram o entrave de determinado ponto e o passa para o próximo semáforo. “É um ciclo. Tira o transtorno de um local e passa para outro”, disse.

De acordo com ela, a construção de viadutos e trincheiras com a justificativa de melhorar a mobilidade urbana é falácia. “Nestes casos você prioriza os automóveis e para melhorar a mobilidade é preciso repensar os espaços urbanos de forma geral.

Modos coletivos e ativos

Para a conselheira, o problema da mobilidade só poderá ser resolvido quando as pessoas passarem a dispensar os transportes individuais (carro e moto) e migrarem para os modos coletivos (ônibus) e modos ativos (deslocamento a pé e com bicicleta). “É utópico, mas é fato, só iremos melhorar a mobilidade com a redução dos veículos”.

No entanto, para que isso ocorra, são necessárias adequações. “É preciso, por exemplo, fornecer condições básicas como calçadas adequadas. Hoje, em geral, elas são praticamente intransitáveis. Quem tem restrição física ou precisa carregar carrinho de bebê ou qualquer objeto enfrenta grande dificuldade”.

“É preciso fornecer condições básicas [de mobilidade] como calçadas adequadas. Hoje, em geral, elas são praticamente intransitáveis. Quem tem restrição física ou precisa carregar carrinho de bebê enfrenta grande dificuldade”

— Fernanda Mendonça, titular do Conselho de Arquitetura e Urbanismo

Segundo ela, também é preciso investir em ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas. “A implantação das bicicletas de aluguel acarretou grande evolução. Temos um público bem cativo com relação a deslocamentos de pequenos pontos. O grande problema é que as ciclovias não conversam, não existe ligação entre elas”, disse.

A alternativa nestes casos são as ciclorrotas, que fazem conexão com as ciclovias, mas ofertam riscos aos ciclistas, pois estes precisam transitar entre carros e motos, conforme aponta a arquiteta.

Em Goiânia, são 83 km de ciclovias e ciclofaixas espalhadas pela cidade (materia02/Foto: D_cropivulgação/Prefeitura)

Fernanda cita ainda que, apesar das diversas críticas com relação ao transporte coletivo, os ônibus de Goiânia desempenham a função de forma eficaz, já que cobrem toda a malha urbana. “O sistema de comunicação da RedeMob é bastante positivo pois é possível controlar o atraso e a circulação dos veículos. Além disso, toda a frota é acessível”.

Ainda sobre transportes coletivos, a conselheira do CAU argumenta que investimentos como a construção do BRT são necessários e servem para auxiliar na mobilidade. “A promessa é uma coisa muito boa. São 14 km de extensão de um transporte eficiente. O problema são as paralisações desta obra e a demora para entregá-la”, comenta.

Com a palavra, a SMT

Questionado sobre a “ineficiência” dos complexos viários, o secretário da SMT, Fernando Santana, afirmou que são feitos estudos em toda a cidade. As obras, segundo ele, servem para auxiliar na questão da mobilidade. “Mas todos sabemos que este problema só será resolvido com a redução de veículos nas ruas”.

Para que haja a redução, o secretário alega que estão sendo feitos projetos e investimentos que priorizam pedestres, ciclistas e usuários do transporte coletivo. Acerca das calçadas, o secretário informou que foi instituída uma comissão especial para tratar especificamente de tais problemas.

Ele cita que a Secretaria de Planejamento e a SMT estão definindo um plano de ação para correção das calçadas, dentro da exigência do município. “Isso já está em andamento. Nosso objetivo é fazer com que não tenha interferência nas calçadas para garantir a segurança dos pedestres”.

“Isso já está em andamento. Nosso objetivo é fazer com que não tenha interferência nas calçadas para garantir a segurança dos pedestres”

— Fernando Santana (SMT), sobre críticas do CAU à qualidade dos calçamentos públicos

Sobre as ciclovias, Fernando disse que atualmente tal sistema possui 83 km de extensão espalhados pela capital. O objetivo é que chegue a 100 km ainda neste ano. Além disso, há projeto para que haja ampliação e integração entre todas elas. “Queremos ligar Campinas ao Centro, o Universitário ao Flamboyant e outros pontos estratégicos”.

“A SMT também tem investido em corredores preferenciais para coletivo, implantando ruas, fazendo corredores paralelos para desafogar grandes eixos. Temos investido ainda no parque semafórico de Goiânia”, disse.

Com o objetivo de evitar congestionamentos, a pasta tem retirado, desde o final de Setembro, os semáforos de três tempos da cidade. Três sinalizações já foram alteradas. Uma delas na Av Anhanguera, entre os cruzamentos da Leste/Oeste, Alameda Progresso e Av. dos Pirineus.

Para evitar congestionamentos e auxiliar na fluidez do trânsito, SMT tem retirado semáforos de três tempos (materia02/Foto: D_cropivulgação/Prefeitura)

As outras duas ocorreram na Av. Castelo Branco, no cruzamento com a Consolação e com a Barão de Mauá. Os ganhos foram de três e dois minutos, respectivamente, conforme o secretário.

“O motorista perde muito tempo tendo que esperar o sinal abrir. Isso acaba gerando tumulto no trânsito e bastante estresse ao motorista. Hoje essa retirada é necessária e vai melhorar a qualidade no tráfego e de vida”, pontua.

Ainda segundo ele, em breve a pasta deve implementar semáforos inteligentes, aqueles programados para mudar automaticamente conforme o fluxo de veículos. “Isso tudo em prol da mobilidade e do bem estar do cidadão As pessoas precisam entender e viver isso conosco. Os benefícios virão”, reforça.

Goiânia: verticalização, mercado aquecido e pensamento para o futuro

Capital aniversariante passa por mais um ímpeto de expansão vertical. Com isso, omercado, que se recupera de uma crise, retoma parte de sua solidez em um contexto de discussões sobre como construções impactam a vida das pessoas

Por João Paulo Alexandre

Planejada por Atílio Corrêa Lima para 50 mil habitantes, ao completar 86 anos nesta quinta-feira (24), Goiânia tem atualmente mais de 1,5 milhão de moradores, como aponta o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para acomodar tantas pessoas, a capital passa, desde os primeiros anos do século XX, por um fenômeno de verticalização residencial e comercial. É assim, para cima, que a jovem senhora - que figura entre três mais novas capitais do Brasil, atrás somente de Brasília (DF) e Palmas (TO) - busca mais espaço para os seu desenvolvimento. Crescimento esse que levanta preocupações sobre seus rumos e impactos na sociedade, bem como abre discussões sobre como essa realidade pode se adequar a um plano diretor que ainda toma forma.

A realidade porém é que esse setor carece de dados para basear seu crescimento, visto que a Prefeitura de Goiânia possui um registro oficial do número de empreendimentos verticais na metrópole. O único número para dar apoio às análises sobre consequências do movimento de verticalização são do Sindicato do Condomínios e Imobiliárias de Goiás (Secovi-GO). Segundo a entidade, há 2.375 dessas edificações cadastradas no sistema até este ano. Porém, este dado também não é sólido: visto que se referem aos membros ligados ao sindicato, a quantidade de prédios pode ser bem maior, como sugere o horizonte verticalizado das regiões Sul, Oeste e Central, principalmente.

Um dado do qual o Paço Municipal pode lançar mão para promover o ordenamento urbano é o número de autorizações expedidas pela Secretaria Municipal de Planejamento Urbano e Habitação (Seplahn). Por outro lado, estes também podem não refletir a realidade, uma vez que existe um prazo de dois anos para que uma edificação autorizada passe, de fato, a ser erguida. Em 2017, existiam 101 autorizações expedidas para habitações coletivas na cidade. Já em 2018, o número aumentou para 146. Neste ano, até o momento já foram autorizadas 89.

Aquecimento do mercado

Enquanto os números podem representar apenas parte de um todo, é visível que a cidade teve - e ainda tem - uma expansão vertical acelerada. Atualmente, Goiânia praticamente prédios concluídos, em fase de acabamento ou em construção nas várias das suas esquinas.

O cenário está tão em alta que Goiânia sedia o segundo maior edifício do país e o maior do Centro-Oeste brasileiro: o Órion Business & Health. Este último tem 191,41 metros de altura e 50 pavimentos. Além dele, um prédio residencial próximo à região do Parque Vaca Brava surge com a mesma proposta e deve contar com 52 andares. Ambos podem ser vistos de diversos pontos da cidade.

Diante desse panorama, a expectativa do mercado é de que armações ferrosas, concreto e tijolos componham cada vez mais a rotina visual dos goianienses. Embora ainda sofra reflexos de um declínio econômico originado em meados de 2016, com a crise internacional, o mercado imobiliário sonha em retomar os dias de boom imobiliário que antecederam o mencionado período. Prova de que esforços têm sido feitos para atingir esse objetivo é uma pesquisa da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Goiás (Ademi-GO), que aponta Goiânia como segunda cidade onde mais se vende apartamentos no País, atrás apenas de São Paulo.

Segundo o vice-presidente da entidade, Fernando Razuk, isso é um ponto positivo após a crise que o mercado sofreu em 2016. Apesar de tudo, ele destaca que, entre 2016 e 2017, houve aumento de 20% nos números de vendas. Entre 2017 e 2018, o índice repetiu. Só no primeiro semestre deste ano, o volume de investimento em lançamentos imobiliários girou em torno de R$ 1,3 bilhão. E a expectativa é de que o ano se encerre repetindo os passos dados nos primeiros seis meses.

“Contamos com a queda de taxas de juros de crédito imobiliário. Sendo assim, mais pessoas têm a possibilidade de comprar. Isso aumenta a demanda pela procura e o mercado se aquece”, destaca.

"Contamos com a queda de taxas de juros de crédito imobiliário. Sendo assim, mais pessoas têm a possibilidade de comprar. Isso aumenta a demanda pela procura e o mercado se aquece”,


destaca Leonardo Razuk, vice-presidente da Ademi

Fernando assinala que o cenário goianiense oferece diversas vantagens para quem quer investir no ramo aqui. Ele cita aspectos econômicos, qualidade de vida e custo benefício. “O estado de Goiás conta com uma agricultura muito forte. Com isso, Goiânia não teve um reflexo negativo com a crise. Outro aspecto bacana é que a cidade é uma das capitais com o metro quadrado mais barato do Brasil”, ressalta.

Apesar do que afirma Razuk sobre a crise, o resultado da Pesquisa Macroeconômica do Itaú, divulgada no último mês de agosto, destaca que Goiás ainda não se recuperou quanto ao nível de atividade econômica. Segundo o estudo, o Estado registra evolução de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB), entre 2017 a 2020. Isso, de acordo com a pesquisa, põe Goiás no pior índice da região Centro-Oeste, que marca 1,9% no mesmo período. O resultado reúne empregos formais, comércio, indústria e agricultura.

Existe, entretanto, indicativos de recuperação para o mercado. De acordo com Razuk, boa parte dos investimentos são direcionados a bairros desejados pelos compradores. No ranking dessa demanda estão os setores Marista, Oeste e Bueno. Esse trio, de acordo com ele, aglomeram pontos positivos em termos de moradia e trabalho, como localização, melhor infraestrutura e praticidade. Desse desejo, expõe o vice-presidente da Ademi, surge um problema: a questão da mobilidade.

“Tudo que é relacionado a trânsito tem se tornado uma grande preocupação. Por isso vários prédios são construídos em eixos viários que levam aos principais pontos da cidade, em regiões de fácil acesso. Isso ajuda o morador a ter menos tempo em deslocamento e mais tempo para fazer outras atividades. Na minha opinião, a cidade já passou da hora de pensar na questão do transporte público. Aqui já estava na hora de ter um metrô ou algo do tipo”, opina.

Problema ou solução?

No ponto de vista da professora de Arquitetura da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), Adriana Mikulaschek, a verticalização é “interessante” para a cidade. Ela destaca que esse processo ajuda no adensamento de pessoas para aproveitar melhor a infraestrutura oferecida pelo poder público. Com isso, alguns aspectos como o trânsito, por exemplo, não sofreriam tanto impacto com o adensamento populacional.

Por outro lado, segundo ela, a expansão vertical impacta em questões urbanas e climáticas. “A grande quantidade de prédios faz com que corredores de ventos circulem em grande velocidade. Com isso, não há resfriamento nas edificações. Isso impacta muito na absorção do calor e geram as famosas ilhas de calor. A impermeabilização do solo também é algo que fica comprometido com o alto volume dessas construções”, pontua Adriana.

"A quantidade de prédios faz com que corredores de ventos circulem em grande velocidade. Com isso, não há resfriamento nas edificações. Isso impacta muito na absorção do calor e geram as famosas ilhas de calor”


evidencia Adriana Mikulaschek, professora de Arquitetura da PUC Goiás

Além disso, se fosse corretamente conduzida, afirma a docente, isso ajudaria no combate das desigualdades na cidade. Segundo a professora, há uma segregação quando o poder público constrói conjuntos habitacionais em áreas mais distantes das regiões mais centrais. Ela explica que pessoas que moram em bairros periféricos geralmente trabalham em setores melhores localizados e, consequentemente, utilizam o transporte coletivo. Mais uma vez, o problema de mobilidade ganha destaque.

“A gente conta com um transporte público da década de 1960. Além disso, quando um setor é criado mais distante do Centro da cidade, acaba sendo necessário o gasto com uma infraestrutura extra na região. E quando não tem, a população tem que se dirigir para a região mais central da cidade para estudar, trabalhar, ter lazer, entre outros aspectos da vida. Isso colabora com o pensamento de que espaços públicos sejam piores que os espaços privados. E não deveria acontecer, já que pagamos pelo espaço público”, pontua.

Apesar da grande quandidade de prédios, Goiânia não conta com números oficiais do volume de construções (Foto-AeroVista)Apesar da grande quandidade de prédios, Goiânia não conta com números oficiais do volume de construções (Foto-AeroVista)
Óriun é o segundo edifício mais alto do Brasil e o maior do Centro-Oestre (Foto Reprodução)Óriun é o segundo edifício mais alto do Brasil e o maior do Centro-Oestre (Foto Reprodução)
Cidade conta com vários prédios, mas não há quantitativo oficial (Foto-Ricardo-Nesralla)Cidade conta com vários prédios, mas não há quantitativo oficial (Foto-Ricardo-Nesralla)

Discussão para o futuro

Um assunto que tem sido discutido na Câmara Municipal é a proposta do novo Plano Diretor da cidade. Nele, estão determinações que impactarão as vidas dos moradores de Goiânia pelos próximos dez anos. A relatora do projeto, vereadora Drª Cristina (PSDB), explica que a cidade tem muitos vazios urbanos e, por isso, não precisaria expandir o território da cidade pelos próximos 40 anos.

“Vemos a sociedade num sofrimento muito grande devido a essa segregação das pessoas. Precisamos ocupar esses espaços que estão vazios. A ideia de cidade inteligente vai muito além de qualquer tecnologia. É sobre como aproveitar melhor os seus espaços e, consequentemente, melhorar a qualidade de vida dos seus habitantes”, pontua a parlamentar.

Ela, entretanto, afirma que o avanço do mercado imobiliário sobre determinadas regiões da cidade deve ser analisado com cuidado para não afetar a identidade da capital. “O Centro é um ponto de extensa discussão. Queremos que ele se torne mais dinâmico e mais atrativo. Mas é algo que tem que ter cuidado pois ali está boa parte da história da cidade”, reflete.

“O Centro é um ponto de extensa discussão. Queremos que ele se torne mais dinâmico e mais atrativo. Mas é algo que tem que ter cuidado pois ali está boa parte da história da cidade”


reflete dra. Cristina, vereadora relatora do Plano Diretor na Câmara Municipal

Como falado no início da matéria, a cidade está ganhando prédios que ultrapassam 150 metros de altura. Esses são denominados como arranha-céus. “Eu acho que Goiânia tem porte de receber empreendimentos como estes. Entretanto, em outras cidades, eles estão fora da parte central do município. Exatamente para que não haja choque com aspectos culturais da capital”, afirma Drª Cristina.

Nessa linha, professora Adriana critica a atual política do mercado imobiliário. Ela questiona a importação de modelos de prédios de outros países. Segundo ela, não “adianta trazer edificações diferenciadas e que deram certo em outros lugares, se eles não se encaixarem na realidade local”.

Ela persiste: “temos que buscar por soluções locais. Vejo prédios sendo vendidos com pretexto de ter dado certo em Dubai, Estados Unidos. Mas estamos no Brasil. Em Goiás. Outra cultura, outro clima, outras características. Podemos buscar ideias e encaixá-las em nossa realidade”, explana.

Para Drª Cristina, a capital goiana necessita de um desenvolvimento voltado para o coletivo e não apenas ao individual. Já a professora Adriana destaca que a demanda de habitação é grande, mas precisa ser distribuída de forma igualitária para as classes necessitadas. “Vemos tantos prédios serem construídos, mas eles não são distribuídos de forma adequada. Muitos são voltados para pessoas de classe média alta enquanto são as classes mais baixas que sofrem sem ter um teto para morar ou sendo colocadas para áreas mais afastadas da cidade”, finaliza.

Sustentabilidade vertical

A professora Mikulaschek ressalta que as grandes construções ainda estão engatinhando no aspecto de sustentabilidade. Ela conta que a Engenharia Civil é uma das áreas que mais impactam o meio ambiente e por isso deveria ter mais atenção dos investidores. “Vemos alguns empreendimentos que estão reaproveitando água da chuva, já contam com telhados verdes ou sistema de tratamento de esgoto. Mas isso ainda é muito pouco. Vemos muito falar de falta d’água no tempo seco e ela será um dos maiores desafios para a construção”, afirma.

O vice-presidente da Ademi faz coro com a estudiosa ao ressaltar que ainda há muito a ser feito nessa seara. Para ele, as inovações já estão ‘caindo no gosto do cliente’. Segundo ele, para além dos exemplos citados por Mikulaschek, alguns empreendimentos têm lixeiras para separação de resíduos, lugares corretos para descarte de pilhas e baterias, entre outros equipamentos. “Esses investimentos ainda são altos, mas os consumidores não reclamam de pagar mais caro para se ter uma economia aliada a uma relação mais harmônica com o meio ambiente”, explica.