Domingo, 08 de Novembro de 2026
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Flávio, Trump, Netanyahu e Peña: dez dias para direita do mundo esquecer

Políticos que são alguns dos principais símbolos da direita mundial sofreram revezes importantes nas últimas duas semanas, com direito a prisões e fugas

Por - Goiânia, GO
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Flávio Netanyahu Trump Peña

Em menos de duas semanas, uma sequência de acontecimentos políticos redesenhou o cenário de países importantes e atingiu lideranças que, até recentemente, pareciam ocupar posições bastante sólidas. Do Brasil aos Estados Unidos, passando por Israel e Paraguai, a direita sofreu derrotas eleitorais, perdeu capacidade de articulação parlamentar e, em um dos casos, viu um presidente ser destituído e preso.

Os episódios são diferentes entre si. Não têm necessariamente as mesmas causas, nem representam uma mudança ideológica uniforme do eleitorado. Mas sua concentração em tão pouco tempo chama a atenção, especialmente depois de anos em que o avanço de movimentos conservadores e da direita radical foi tratado como uma tendência política praticamente irreversível.

O caso brasileiro começou com uma virada eleitoral e ganhou contornos cinematográficos com a saída do candidato derrotado para os Estados Unidos. Em seguida vieram a derrota dos republicanos nas eleições legislativas americanas, a perda de maioria parlamentar de Benjamin Netanyahu em Israel e o colapso político do governo de Santiago Peña no Paraguai.

É cedo para falar em fim de um ciclo. Mas já existe uma sucessão de fatos que contraria a ideia de que a direita mundial marchava de vitória em vitória.

1. Brasil: a virada de Lula sobre Flávio Bolsonaro

O primeiro revés ocorreu em 25 de outubro, quando Lula conquistou seu quarto mandato presidencial. Com 51,79% dos votos válidos, o petista derrotou Flávio Bolsonaro, que terminou a disputa com 48,21%.

A vitória teve uma particularidade importante: Flávio havia terminado o primeiro turno à frente, com 47,03% dos votos, contra 45,16% de Lula. O presidente conseguiu reverter a desvantagem na etapa decisiva e venceu por uma diferença de aproximadamente 4,4 milhões de votos.

O resultado interrompeu a tentativa da família Bolsonaro de retornar ao Palácio do Planalto. Também mostrou que, apesar de sua força eleitoral e de sua presença expressiva no Congresso, o bolsonarismo não conseguiu reunir votos suficientes para derrotar Lula.

2. A fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos

Flávio Bolsonaro ao lado de Gusttavo Lima e de outros cantores sertanejos (Foto: Flickr/Flávio Bolsonaro)

A derrota nas urnas foi seguida por um episódio ainda mais surpreendente. Dois dias depois da eleição, Flávio Bolsonaro deixou o Brasil, atravessou a fronteira com a Argentina, embarcou em um avião particular com escala no Equador e seguiu para Miami, acompanhado da família.

A viagem ocorreu depois que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, determinou a entrega de seus passaportes e o proibiu de deixar o país, no âmbito de investigações em andamento. A Polícia Federal passou a apurar as circunstâncias da saída.

O roteiro teve todos os ingredientes de uma história cinematográfica: deslocamento por terra, travessia internacional, avião particular e incerteza sobre os responsáveis pela operação. Em entrevista publicada pelo The New York Times, Flávio afirmou que não teve ajuda para deixar o país e disse que levaria os detalhes da viagem para o túmulo. A declaração não esclareceu como a fuga foi organizada.

3. Estados Unidos: Trump perde a Câmara e o Senado

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Foto: Casa Branca)

Em 3 de novembro, foi a vez de Donald Trump enfrentar uma derrota eleitoral de grandes proporções. Nas eleições de meio de mandato, conhecidas como midterms, o Partido Democrata conquistou a maioria da Câmara dos Representantes e do Senado, retirando dos republicanos o controle das duas casas do Congresso.

Os democratas asseguraram pelo menos 54 cadeiras no Senado, conquistando assentos em estados tradicionalmente favoráveis aos republicanos. Na Câmara, a vitória também foi expressiva. Os novos parlamentares assumirão em janeiro de 2027.

Trump continua presidente e conserva os poderes do Executivo, mas terá pela frente um Congresso controlado pela oposição. Isso dificultará a aprovação de sua agenda legislativa e ampliará a capacidade dos democratas de fiscalizar o governo. Foi uma rejeição eleitoral importante ao partido do presidente, embora não signifique, por si só, que o trumpismo tenha perdido sua base de apoio.

4. Israel: Netanyahu perde a maioria e rival recebe a missão de formar governo

Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel (Foto: Agência Brasil)

Em Israel, as eleições de 27 de outubro também produziram um revés para Benjamin Netanyahu. Seu partido, o Likud, terminou como a maior legenda do Parlamento, com 27 cadeiras. O problema foi o desempenho de seus aliados: juntos, os partidos do bloco governista conseguiram apenas 53 dos 120 assentos do Knesset, abaixo dos 61 necessários para formar maioria.

O bloco liderado pelo centrista Gadi Eisenkot conquistou 48 cadeiras, enquanto os partidos árabes ficaram com outras 19. Nas consultas realizadas pelo presidente Isaac Herzog, Eisenkot recebeu o apoio de representantes de 67 parlamentares, contra 46 recomendações favoráveis a Netanyahu.

Diante desse quadro, Herzog anunciou em 7 de novembro que encarregaria Eisenkot de tentar formar o próximo governo. A tarefa está longe de ser simples, porque exige acordos entre partidos com divergências profundas. Netanyahu permanece no comando interino do país, mas já não dispõe da maioria parlamentar que sustentava seu governo.

5. Paraguai: do modelo econômico exaltado pela direita ao impeachment e à prisão de Santiago Peña

Santiago Peña, presidente destituído do Paraguai (Foto: Reprodução)

O episódio mais dramático ocorreu no Paraguai. Durante anos, o país foi apresentado por setores da direita brasileira como exemplo de liberalismo econômico, baixa tributação e ambiente favorável aos negócios. A imagem de uma espécie de “Suíça da América Latina” ganhou espaço entre os admiradores desse modelo.

Essa imagem sofreu um golpe com o colapso do Ueno Bank, instituição financeira que tinha aproximadamente 2,9 milhões de clientes. O escândalo revelou suspeitas de irregularidades envolvendo recursos públicos e previdenciários e atingiu diretamente o presidente Santiago Peña, que havia mantido relações empresariais com o grupo controlador do banco.

Na quinta-feira (5), Peña apresentou sua renúncia. O Congresso, porém, levou adiante o impeachment e o destituiu na sexta-feira (6). No sábado (7), a Justiça decretou sua prisão preventiva, enquanto o Ministério Público avançava nas acusações de lesão de confiança e administração em proveito próprio. O ex-presidente nega irregularidades e ainda não foi condenado. Seu sucessor, Pedro Alliana, pertence ao mesmo Partido Colorado, o que significa que a crise não produziu uma alternância ideológica no poder.


O que esses cinco episódios demonstram não é o desaparecimento da direita, tampouco uma vitória definitiva de seus adversários. A direita continua tendo apoio popular, representação parlamentar e capacidade de reorganização nos países citados.

Mas o contraste com o cenário de poucas semanas atrás é evidente. Em um intervalo de aproximadamente 14 dias, uma candidatura presidencial foi derrotada no Brasil, o candidato derrotado fugiu para o exterior, Trump perdeu o controle do Congresso americano, Netanyahu ficou sem maioria parlamentar e Peña terminou destituído e preso.

Não é pouca coisa. Sobretudo para um campo político cujas lideranças vinham apresentando suas vitórias como parte de uma transformação duradoura da política mundial.

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