DIREITO

Governo de Goiás oficializa aumento em pensões de radiolesionados pelo Césio-137

Medida atualiza benefícios de 603 pessoas em meio ao sucesso da série "Emergência Radioativa" da Netflix; pensões para radiolesionados sobem para R$ 3.242

Governo de Goiás oficializa aumento em pensões de radiolesionados pelo Césio-137
Governo de Goiás oficializa aumento em pensões de radiolesionados pelo Césio-137 (Foto: Reprodução - Jornal da UFG)

Foi sancionada, nesta semana, a proposta do ex-governador Ronaldo Caiado (PSD) para reajustar as pensões para as vítimas do acidente do Césio-137, em Goiânia. Um dia antes de renunciar, na segunda-feira (30), o político sancionou a matéria aprovada em 26 de março pela Assembleia Legislativa de Goiás (Alego). O tema ganhou repercussão em um momento em que a minissérie Emergência Radioativa, da Netflix, ganhou destaque nacional e internacional, colocando a tragédia de 1987, na capital, em evidência.

O texto da governadoria atualiza os valores pagos aos beneficiários que atuaram na descontaminação da área afetada no incidente. Este também inclui aqueles que fizeram vigilância do depósito provisório em Abadia de Goiás e os que trabalharam no atendimento de saúde às vítimas diretas do acidente radioativo.

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Conforme a proposta que agora virou lei, o reajuste é de R$ 1.908 para R$ 3.242 para os radiolesionados pelo contato direto com o Césio-137 ou que receberam irradiação superior a 100 RAD, enquanto os demais beneficiários terão atualização de R$ 954 para R$ 1.621. O projeto também atualiza a pensão especial vitalícia concedida a outros e promove a adequação de dispositivos legais e a revogação de leis anteriores que tratavam do mesmo assunto.

A medida não altera os critérios de concessão nem o público atendido, informa o Governo de Goiás. Atualmente, 603 pessoas recebem o benefício. Estima-se que o impacto para este ano seja de R$ 3,6 milhões, enquanto nos seguintes, R$ 4,9 milhões.

Série

Sobre a série, ela acompanha a corrida contra o tempo iniciada após a abertura de um aparelho de radioterapia abandonado em um ferro-velho, uma vez que o objeto espalhou o material radioativo (o tal “pozinho azul que brilha”) pela cidade. A contaminação atingiu milhares de pessoas e deixou marcas profundas na história do país. Este foi o maior acidente radiológico do mundo fora de usinas nucleares.

Protagonista da produção, o ator Johnny Massaro afirma que não conhecia o caso. Ele nasceu em 1992, cinco anos após o acidente. “Quando fui fazer o teste, li a sinopse e achei que era ficção. Pensei: ‘Nossa, que história criativa’. Só depois me disseram que aquilo tinha acontecido de verdade”, lembra. “Foi um choque. E quando descobri, pensei: agora que eu quero contar essa história mesmo”, disse ao F5, da Folha de S.Paulo.

Ele diz ter percebido que muitas outras pessoas não conheciam o acidente. “E é um evento enorme. Foi o maior acidente radiológico da história.” Johnny vive o personagem Márcio, um dos profissionais envolvidos na tentativa de conter os efeitos da contaminação. Na trama, ele também precisa lidar com a vida pessoal (a gravidez da esposa) durante os acontecimentos.

“Ele tem diante de si o amor da vida dele esperando um filho, e de repente precisa decidir entre ficar com a família ou agir diante de algo que pode afetar muita gente”, detalha e emenda: “Ele entende que talvez seja a única pessoa ali capaz de fazer alguma coisa. Então tenta equilibrar os pratos. Não é que ele abandone a família, mas ele precisa agir.”

Segundo o ator, “quando você entende a dimensão da tragédia, percebe que não foi só sobre doença ou morte. Casas tiveram que ser demolidas, roupas e objetos destruídos, memórias inteiras apagadas. As pessoas perderam parte da própria história.”

Tragédia do Césio-137

Em 13 de setembro de 1987, Goiânia foi palco do maior acidente radiológico do mundo fora de uma usina nuclear, envolvendo o Césio-137. O episódio teve início quando dois catadores de recicláveis, Roberto dos Santos e Wagner Mota Pereira, encontraram um aparelho de radioterapia abandonado no Instituto Goiano de Radioterapia.

Ao desmontá-lo, liberaram uma cápsula de Césio-137um isótopo radioativo altamente perigoso. O material se espalhou rapidamente, contaminando centenas de pessoas e causando mortes e sequelas irreparáveis.

Uma parte da peça foi levada para o ferro-velho de Devair Ferreira, que abriu a cápsula e encontrou o pó radioativo. Devair mostrou a novidade para vizinhos, amigos e familiares. Dias depois, as pessoas começaram a ter tontura, vômitos e diarreia, principalmente Devair e sua esposa Maria Gabriela.

Ivo Ferreira, irmão de Devair, levou um pouco do pó para a sua filha, Leide das Neves, de apenas 6 anos. A menina posteriormente foi jantar, ingerindo o Césio-137 por meio da refeição. Ela não sobreviveu. Maria Gabriela levou a peça até a Vigilância Sanitária, contribuindo com a contaminação de mais pessoas, pois o trajeto foi feito de ônibus.

O alerta e a contaminação generalizada

Apenas em 29 de setembro de 1987 foi dado o alerta que todas essas áreas foram atingidas por radiação. A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) pediu para que os moradores fossem transferidos para um esquema de triagem no Estádio Olímpico. Mais de 112 mil pessoas foram colocadas em quarentena e submetidas a intensos banhos para descontaminação.

O acidente resultou em quatro mortes confirmadas: Maria Gabriela Ferreira, Leide das Neves Ferreira, Israel Baptista dos Santos e Admilson Alves de Souza. Além disso, 249 pessoas apresentaram contaminação significativa, sendo monitoradas e tratadas por equipes médicas especializadas. Mais de 110 mil pessoas foram acompanhadas. Centenas de locais, incluindo residências, ruas e veículos, foram desinfectados ou removidos devido à contaminação. A cidade de Goiânia enfrentou um processo complexo de descontaminação, com a remoção de solo e materiais contaminados.