AÇÃO

Deputados tentam anular venda de mineradora de terras-raras em Goiás para empresa dos EUA

Ministro disse que cabe à União regulamentar e firmar acordos acerca da exploração de terras-raras e mineiras críticos

Deputados tenta anular venda de mineradora de terras-raras em Goiás para empresa dos EUA
Deputados tenta anular venda de mineradora de terras-raras em Goiás para empresa dos EUA (Foto: Mineradora Serra Verde)

Os deputados do PSol pediram à Procuradoria-Geral da República (PGR) a anulação da venda da mineradora Serra Verde, que atua com mineração de terras-raras em Minaçu, para a empresa dos Estados Unidos US Rare Earth. Os parlamentares Sâmia Bomfim (SP), Glauber Braga (RJ) e Fernanda Melchionna (RS) também pedem uma investigação contra o ex-governador e pré-candidato à presidência Ronaldo Caiado (PSD), conforme noticiado pela Agência Brasil na quinta-feira (23).

Em nota, o governo de Goiás afirmou que a ação tem caráter “estritamente político-eleitoral e carece de fundamento técnico e fático”. Segundo a gestão, “trata-se de uma tentativa evidente de instrumentalização ideológica-partidária do assunto, revelando desconhecimento sobre o setor e superficialidade no tratamento de uma pauta complexa e de alta relevância para o Brasil” (confira na íntegra a seguir).

Na peça, os congressistas pedem o cancelamento imediato de todos os atos da negociação, como acordos, pagamentos e contratos. Além disso, eles solicitam que seja instaurado um inquérito civil e criminal para verificar “fatos que possam configurar grave ameaça à soberania econômica do Brasil”.

Os deputados do PSol também pedem à PGR para enviar as ações ao Supremo Tribunal Federal (STF) para a declaração de nulidade, devido à “possível invasão de competência da União em temas como mineração e relações internacionais”.

Quanto ao negócio, a compra foi anunciada por US$ 2,8 bilhões em 20 de abril. Confira a nota enviada ao Mais Goiás pelo governo estadual na íntegra:

“A ação movida pela parlamentares do PSOL tem caráter estritamente político-eleitoral e carece de fundamento técnico e fático. Trata-se de uma tentativa evidente de instrumentalização ideológica-partidária do assunto, revelando desconhecimento sobre o setor e superficialidade no tratamento de uma pauta complexa e de alta relevância para o Brasil.

A mina de terras raras da Serra Verde opera regularmente desde 2019, com todas as autorizações concedidas pela União. Em Goiás, são extraídos elementos como disprósio, térbio, neodímio e praseodímio, fundamentais para a indústria de alta tecnologia. A operação comercial começou em janeiro de 2024, após licença da Agência Nacional de Mineração e do Ministério de Minas e Energia

Sobre a questão societária, a empresa já contava com participação de fundos internacionais (dois americanos e um britânico), e passa agora a ter também como acionista a USA Rare Earth, igualmente norte-americana. A movimentação é tida como comum no mercado global de mineração e reforça a inserção do empreendimento em uma cadeia internacional estratégica.

Hoje, os minerais extraídos em Goiás são enviados à China para processamento, seguindo a dinâmica internacional. O Estado assinou memorando de entendimento visando instituir a industrialização localmente, agregando valor, inovação tecnológica e gerando empregos para o Brasil. As terras raras goianas têm alto índice de aproveitamento, o que reforça sua competitividade e seu potencial para gerar mais divisas e inovação tecnológica para o País.

Fica evidente que a tentativa de politizar o tema atende a interesses eleitorais e desvia o foco do que importa: o desenvolvimento econômico e o fortalecimento de um setor estratégico para Goiás e para o Brasil.”

Quaest: Caiado encurta distância para Lula em eventual 2º turno (Foto: Governo de Goiás)
Ex-governador Ronaldo Caiado (Foto: Governo de Goiás)

Negócio

A mineradora brasileira, que opera a mina Pela Ema, em Minaçu, informou que o negócio possibilitaria a criação da maior empresa do ramo. Em produção desde 2024, esta é a única mina de argilas iônicas ativa do Brasil. Além disso, ela também é a única produtora das terras-raras pesadas mais valiosas fora da Ásia: Disprósio (Dy), Térbio (Tb) e Ítrio (Y). Em Goiás, a produção está na fase 1. Contudo, o intuito é dobrar a capacidade até 2030.

Os materiais servem para fabricação de ímãs permanentes para veículos elétricos, bem como robôs, turbinas eólicas, aparelhos de ar-condicionado, drones. E, ainda, para o segmento de defesa, nuclear e aeroespacial.

A USA Rare Earth concordou com um pacote de financiamento de US$ 1,6 bilhão com o governo dos Estados em janeiro deste ano. Já a empresa privada Serra Verde acordou um financiamento de US$ 565 milhões com Washington em fevereiro.

Apesar do acordo formalizado, a aquisição ainda precisa ser finalizada operacionalmente. O fechamento do negócio está previsto para o terceiro trimestre deste ano.

Ministro

Após a repercussão do caso, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, afirmou que cabe à União regulamentar e firmar acordos acerca da exploração de terras-raras e minerais críticos. “Nós temos aqui no país uma regra constitucional que defere ao poder central e à União esse papel de interlocução com outros países e com outros estados, até porque nós sabemos que o interesse nacional não pode ser gerido ou administrado localmente”, afirmou nesta sexta-feira (24) ao programa Bom Dia, Ministro.

Segundo ele, o tema é fundamental para o desenvolvimento tecnológico do país e reforçou a soberania. Ainda durante a entrevista, ele descartou a criação de uma estatal para gerir o setor, uma vez que já existem instrumentos legais para incentivar o setor. “O MDIC não é contra nem a favor, só não precisa de estatal para isso. No modelo atual, na nossa avaliação, não há necessidade alguma de se criar uma estatal para se fazer a exploração, o refino, beneficiamento de mineral crítico ou estratégico”, ressaltou.

ministro
Ministro Márcio Elias Rosa (Foto: MDIC)

Controle

Mesmo com a transição de controle para a norte-americana USA Rare Earth, prevista para o terceiro trimestre de 2026, a mineradora garante que o beneficiamento inicial permanecerá em solo goiano. A empresa reforça que não exporta matéria-prima bruta, mas sim o Carbonato Misto de Terras-Raras, mantendo o processamento tecnológico em Goiás para transformar o minério em um produto intermediário de alto teor.